A psicopatia infantil, tratada de uma forma bastante delicada e inteligente à luz da sétima arte.

Em meados dos anos 50, mais precisamente em 1956, diante de uma típica sociedade norte – americana altamente tradicional e conservadora, com todas as suas qualidades e bom gosto para as artes teatrais e cinematográficas, um filme conseguiu chamar a atenção do público com seu enredo um tanto incomum. Tratava-se da história de uma garotinha de oito anos chamada Rhoda (Patty McCormack), que possuía todos os traços de uma criança alegre, bem amada e estruturada socialmente, além de ser filha de um militar e de uma mãe chamada Christine (Nancy Kelly) incrivelmente amável e que tenta dar todo o bem-estar que sua filha precisa e merece.

tara-1 - pipoca de pimentaCréditos: Divulgação

Aparentemente, uma história comum contada sobre a vida de uma criança como Rhoda, se esta fosse igual a qualquer outra criança da idade dela. Ocorre que Rhoda acaba se tornando o centro das atenções quando, em uma festa de campo escolar, um garoto de sua turma é encontrado morto às margens de um rio da cidade. O menino tinha como traço, marcas de pancada, o que demonstra que o mesmo possa ter sido assassinado. Ao estranhar o comportamento da menina, a mãe de Rhoda suspeita que a mesma tenha assassinado o garoto por causa de uma medalha que o mesmo havia ganhado no lugar de Rhoda. A forma como o mistério vai se desvendando faz com que toda uma história de crueldade e malícia acabe vindo à tona, gerando medo e inquietação para a mãe da menina.

O filme é baseado na novela “The Bad Seed” que também é o título original do filme. Traduzindo ao pé da letra significa “semente ruim”, uma referência aos laços sanguíneos familiares que influenciam quanto ao caráter e ao comportamento do indivíduo.

Na verdade, trata-se de um filme, ao estilo noir, pioneiro no que diz respeito a uma trama envolvendo a psicopatia infantil, o que abriu portas para que outros filmes sobre crianças assassinas pudessem ser produzidos. O curioso é que mesmo com um gênero bastante querido pelo público, o suspense, tal enredo poderia chocar quem o assistisse. Não era todo dia em que se podia ver algo que denegrisse a imagem inocente e angelical de uma criança. A forma com que a história se desenvolve, acaba por fim, vinculando a imagem da menina Rhoda ao de um ser humano terrivelmente perigoso e ameaçador para toda uma sociedade.

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O filme “A Tara Maldita” descreve majestosamente bem a origem de um assassino e a forma com que se comporta aos olhos de quem o rodeia. A maneira com que Rhoda tenta enganar sua mãe, pai e todos que a mimam, se fazendo de pobre inocente, acaba desencadeando uma estranha sensação de finalização da história através do olho crítico do público. Em outras palavras, o filme precisava de um final surpreendente e incomum, diferente de tudo que já se tinha visto.

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Detalhe primordial sobre a estruturação do final do filme em questão é que, na época, ainda não era exatamente típico ou moda se fazer finais com um aspecto negativo e incompleto. O final de “A Tara Maldita”, no que diz respeito ao destino de Rodha, é incrivelmente imprevisível, apesar de tecnicamente estranho e primitivo. O diretor Mervyn LeRoy (o mesmo de “Quo Vadis”), tendo a certeza de que, não apenas o final mas o filme como um todo demonstraria ser assustador, confuso e cheio de incertezas, fez questão de apresentar todo o elenco ao final da trama do jeito mais nobre e alegre possível, além de alertar o público com uma mensagem final para que o mesmo não comente a forma com que aquela produção foi finalizada. Algo muito incomum e inédito de ser assistir em um filme qualquer.

O filme possui várias outras qualidades, como a trilha sonora bem elaborada, edição bem feita e fotografia nítida, mesmo sendo um filme preto e branco.

Outra qualidade que o enredo possui é a relação e química dentre os atores. Nancy Kelly e Patty McCormack, conseguiu convencer o público diante da sua relação de mãe e filha. Mesmo Patty, na época com onze anos e interpretando uma menina de oito, demonstrou um lado incrivelmente amável e enganoso que se transforma em algo terrível e ameaçador no decorrer da trama, diferente dos muitos outros papais de crianças más do cinema que já são, em sua maioria, maléficas de aparência.

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O desempenho de Patty MacCormack lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, juntamente com sua colega de mesma produção, Eileen Heckart, a qual acabou ganhando o Globo de Ouro pelo mesmo filme naquele ano. Patty McCormack ainda foi convidada a apresentar o prêmio de Melhor Curta de Animação. Na ocasião da premiação, que tinha como anfitrião o comediante Jerry Lewis, Patty se envolveu em uma cena cômica com Lewis, quando a mesma lhe estendeu a mão para cumprimentá-lo e o mesmo demonstrando medo recusou levando o público aos risos.

Nancy Kelly também disputou o prêmio de melhor atriz, perdendo-o para a grande Ingrid Bergman por “Anastasia”. Além disso, o filme “A Tara Maldita” disputou outro Oscar, o de Melhor Fotografia, sem nenhuma vitória nas categorias indicadas.

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Como nem tudo é um mar de rosas, a produção acabou sendo esquecida por um tempo, gerando um certo insucesso em relação às carreiras dos principais atores do filme. Após o término das filmagens, Nancy Kelly não fez nenhuma outra produção cinematográfica a não ser produções televisivas.

Quanto a Patty McCormak, a única integrante do elenco que ainda é viva, teve participações em séries de TV como “Cold Case” e “Supernatural”, bem como outras pequenas participações em outros filmes como “Frost/Nixon”.

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No que diz respeito ao filme “A Tara Maldita”, se produziu uma série de TV em 1985, sem o sucesso esperado. Entretanto, graças a inovação da tecnologia o filme foi relançado em DVD, o que se espera que a produção volte a ser tema de conversa e debate por muitos fãs de cinema e estudiosos sobre o tema “psicopatia infantil”.

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Há uma mera curiosidade sobre o título do filme, no que diz respeito ao termo “tara”, interpretado na maioria das vezes de forma ingênua ao associar o termo à “perversão sexual”. Na realidade, em razão do filme, o referido termo é associado ao “interesse exagerado em algo”, ou seja, no que diz respeito à personagem central da trama, a menina Rhoda, tudo gira em torno dos desejos ambiciosos e incontroláveis sobre valores materiais que a levam a cometer atrocidades contra as pessoas.