13 de outubro de 1973. Enquanto ocorria um show da banda Queen em Frankfurt, Alemanha, chegava aos cinemas americanos ‘Terra de Ninguém’, o primeiro filme de Terrence Frederick Malick, hoje, aclamado e respeitado diretor, roteirista e produtor. Mas antes de chegar ao aclamado dia de sua estreia, Malick (“rei”, em árabe) cresceu onde nasceu, em Ottawa, no estado de Illinois, nos Estados Unidos – apesar de alguns registros trazerem Waco, cidade do Texas, como o local de seu nascimento – em novembro de 1943.

Após se formar, com a maior das honras, em filosofia pela Universidade de Harvard e Phi Beta Kappa (mais antiga sociedade de honra em ciência e arte liberal, com o objetivo de promover e defender a excelência nas áreas citadas) em 1965, passou a lecionar a matéria no MIT (Instituo de Tecnologia de Massachusetts) e, ao mesmo tempo, trabalhar como jornalista, chegando a ter artigos publicados nas revistas Newsweek, The New Yorker e LIFE.

Ao tentar seu PhD em filosofia, desistiu e escolheu se filiar ao AFI (Instituto Americano de Cinema) em 1969, obtendo mestrado em artes plásticas no cinema, com o curta ‘Lanton Mills’ como tese, chegando a receber o MFA (Master in Fine Arts). No AFI conheceu Jack Fist, diretor de arte e designer de produção já indicado ao Oscar, e formou uma parceria duradoura, tanto que Fist chegou a trabalhar como diretor de arte em todos os filmes de Malick.

Em 1970, antes de trabalhar definitivamente com cinema, casou-se com Jill Takes, sua primeira, de três, esposas. Em 1972, escreveu, junto com Vernon Zimmerman, o roteiro de ‘Loucuras na Estrada’, dirigido pelo próprio Zimmerman. Malick também chegou a ser creditado como roteirista do filme ‘Meu Nome é Jim Kane’ (1972), e em outubro de 73, é lançado seu primeiro filme definitivo, no qual escreve, dirige, produz e atua. ‘Terra de Ninguém’ é um drama policial que conta a história de uma jovem, que passa a virar cúmplice em uma onda de assassinatos pela Dakota do Sul, Estados Unidos. De acordo com o site “Filmow”, o longa é “uma das estreias mais promissoras da história do cinema” e “foge à tentativa de uma explicação linear dos comportamentos violentos dos seus protagonistas e da sua ausência de valores morais”.

‘Terra de Ninguém’ foi aclamado mundialmente quando lançado, estreando no Festival de Cinema de Nova York, no ano de 1973, desbancando ‘Caminhos Perigosos’ (1973), de Martin Scorsese. 20 anos depois, em 1993, o longa foi escolhido pelo National Film Registry, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, para preservação, classificado como “culturalmente, historicamente ou esteticamente significante”.

Seu segundo filme veio cinco anos depois do primeiro, em 1978: ‘Cinzas no Paraíso’, filme no qual Malick foi roteirista e diretor, chegando a trabalhar dois anos na produção, tempo em que se dedicou a experimentar diferentes técnicas de edição e narração. O longa traz a história de um casal, que junto com outra garota vão parar em uma fazenda e seu proprietário gera um triangulo amoroso. ‘Cinzas no Paraíso’ ganhou o Oscar na categoria de Melhor Fotografia e de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 79.

A partir de 78, Malick começa a desenvolver um novo projeto intitulado ‘Q’, e, já separado de Takes, passou a morar na França e desapareceu da mídia. Malick voltou aos holofotes 20 anos depois, com o lançamento de ‘Além da Linha Vermelha’ (1998), um drama de guerra, que Malick dirigiu e roteirizou, baseado no livro de James Jones. Apesar de voltar à mídia com o filme, Malick tomou a direção com a condição de que nenhuma imagem sua poderia ser publicada ou exibida. No período em que se manteve afastado, escreveu roteiros, adaptações e analises, casou-se com Michelle Morette – separando-se em 98 – além de continuar trabalhando no roteiro de ‘Q’, que mais tarde se tornou base para o longa de 2011, ‘A Árvore da Vida’. No mesmo ano, casou-se com Alexandra Wallace, com quem permanece junto até hoje.

Durante a pré-produção de ‘Além da Linha Vermelha’, Malick escreveu um roteiro de 300 páginas, isso fez com que o filme demorasse sete meses para finalizar a montagem, e ainda assim rendeu um filme de cinco horas, que foram reduzidas na edição final. O longa foi indicado a sete Oscars e foi vencedor do Urso de Ouro.

Após ‘Além da Linha Vermelha’, escreveu o drama ‘Beijo do Urso’ (2002), que acabou sendo dirigido por Sergey Brodov. Malick voltou aos cinemas como diretor em 2005, com ‘O Novo Mundo’, uma recriação da história romântica entre o capitão John Smith e a índia Pocahontas, em um filme de aventura, fugindo de sua característica dramática. Malick voltou a ficar afastado das telonas, voltando em 2011, dirigindo e roteirizando o drama ‘A Árvore da Vida’, que conta a história “de uma família em múltiplos períodos da história e se foca na reconciliação de um indivíduo com o amor, misericórdia e beleza em coexistência com mortes e sofrimento”, que acabou lhe rendendo o Palma de Ouro.

Em 2012 e 2015, dirigiu e roteirizou os dramas ‘Amor Pleno’ e ‘Cavaleiro de Copas’, respectivamente. Com ‘Amor Pleno’, Malick passou a experimentar algumas técnicas, tanto que chegou a trabalhar os atores sem roteiro e com luz natural, fazendo o diretor de fotografia do longa, Emmanuel Lubezki, descrever o filme como “abstrato e menos ligado a convenções cinematográficas”. Nenhum dos filmes lhe rendeu algum prêmio, apenas exibições em festivais internacionais de cinema.

Com uma pausa de quatro anos, retomou o projeto ‘Q’, de 1978, e lançou o documentário, narrado por Cate Blanchet na versão longa e Brad Pitt na versão curta, ‘Voyage Of Time: Life’s Journey’. A equipe de efeitos visuais acabou passando por algumas dificuldades, principalmente em “criar imagens astrofísicas, representar o disco protoplanetário que se formou e se condensou até se tornar o sistema solar, imaginar as primeiras formas de vida unicelulares e recriar os animais que já foram extintos da Terra”, tanto que, de acordo com o supervisor de efeitos visuais, Dan Glass, Malick queria a sensação de que cada cena fosse criada por um artista diferente. Foram cerca de 40 anos de pesquisa, tendo Andrew Knoll, professor de história natural de Harvard, consultor da NASA e escritor, como seu conselheiro.

Em 2017, Malick voltou ao cinema, dirigindo e roteirizando, o drama romântico ‘De Canção em Canção’, que conta a história de dois casais que perseguem o sucesso através de uma paisagem de rock n’ roll, sedução e traição. Com sua marca narrativa, como sempre incluir narração, incluir a natureza como um elemento importante, gravar a maioria das cenas em áreas externas, trabalhar temas filosóficos, raramente utilizar luz artificial e explorar a edição, Malick faz jus ao significado de seu nome, apesar de não ser totalmente amado pelo público, e deixa sua marca cinematográfica na história.