Helen Mirren e Ian McKellen. Dois nomes bastante experientes na sétima arte, unidos para protagonizar a adaptação do livro homônimo de Nicholas Searle, “The Good Liar”. Como já era de se esperar, a proeza dos dois atores, tanto juntos quanto individualmente, surpreende na composição do filme dirigido por Bill Condon, fazendo com que suas atuações sejam, por si só, o bastante para tornar A Grande Mentira memorável.

Se sozinhos tanto McKellen quanto Mirren conseguem encantar com suas atuações, juntos fazem um espetáculo, fazendo com que o interesse do público seja mais em seus personagens do que na história em si. Se outros atores fossem colocados naqueles mesmos papéis, bem provavelmente A Grande Mentira não seria metade do que é – não que a história seja ruim, mas ambos roubam qualquer holofote para seus carismas em tela.

Os dois atores dão vida à Betty e Roy, dois solteiros da terceira idade que se conhecem pela internet. Em um jogo de gato e rato, não se sabe realmente quem está caçando quem: as intenções do personagem de McKellen são reveladas logo no início do filme, mas a viúva interpretada por Mirren se mantém uma incógnita que, claramente, está escondendo alguma coisa, gerando cada vez mais desconfiança ao espectador.

O suspense gerado por tal desconfiança percorre todo o filme, sendo o sentimento de aflição e desconforto uma das principais ferramentas da direção para entreter o público. A qualquer momento, o jogo pode virar – se é que já não começou virado.

Por melhor que sejam as atuações dos protagonistas – e de alguns membros do elenco de apoio –, não é o suficiente para salvar o que sobrou do longa-metragem. A Grande Mentira comete uma série de deslizes em sua composição que acabam por prejudicar o filme como um todo, principalmente no desenrolar de sua trama. Um exemplo disso é que, no final da trama quando todas as informações são finalmente colocadas na mesa, sente-se que vários fatores simplesmente não se encaixam: personagens antigos voltam, mas sem propósito algum além de fazer o espectador acreditar que tudo foi previamente pensado.

O grande plot twist – ou, se preferir, a grande revelação, pois a trama não tem exatamente um twist – mostra outro grande deslize do filme. A reviravolta inteligente é aquela que faz o espectador se sentir surpreso por algo que ele não imaginava, mas que estava na sua cara o tempo todo… Mas não é isso que acontece em A Grande Mentira. Não existem pontos específicos ao longo da história que se ligam até chegar na reviravolta: o grande segredo é algo que vem do nada, e que nem ao menos poderia ter sido imaginado pelo espectador – literalmente qualquer outra revelação poderia ter sido inclusa ali, e o sentido seria exatamente o mesmo.

Perde-se, assim, uma grande possibilidade que vinha sendo construída desde o começo da narrativa, pois todo o anseio e curiosidade do público acerca do que não está sendo dito acabam levando a uma descoberta vazia, um acontecimento do passado que não se liga com os outros e parece estar simplesmente alheio a tudo construído até então. Descobre-se mais sobre o passado dos personagens e o que os levou até aquele momento, mas para que? Tal momento de suas vidas não foi citado até então – com exceção de um diálogo em específico –, apresentando uma reviravolta desconexa do processo de percepção desenvolvido ao longo do filme, jogando fora toda a possibilidade de explodir a cabeça do público com uma reviravolta crua e sem peso.

A forte dependência de flashbacks, tanto no fechamento da história quanto na descoberta do passado de Roy, acabam também por atrapalhar o desenvolvimento da trama. Estes são usados para tentar imergir o espectador na história, mas acabam sendo jogados na cara do público, colocados ali apenas para remendar os retalhos narrativos causados pela pobreza do roteiro em criar uma história constante.

Com ótimos diálogos, mas um desenrolar bastante falho, o roteiro do filme se mantém no limiar de uma escrita inteligente, mas malfeita. A Grande Mentira, assim, tem ótimos personagens – estes com sublimes atuações que conquistam desde a abertura do longa – e consegue trabalhar muito bem a curiosidade e tensão do público, mas se perde por seu desenrolar e desfecho fracos e insuficientes, deixando muito a desejar. De grande, portanto, o filme acaba tendo duas coisas: seus atores, que brilham do início ao fim; e a capacidade de fazer os espectadores se sentirem, assim como seus personagens, enganados.