Aos 21 anos, John Callahan teve sua vida mudada completamente. Com essa idade, tornou-se quadriplégico após um acidente de carro causado pelo seu alcoolismo. Apesar das dificuldades da vida, seu humor ácido e crítico não o deixaram parar de sorrir ou de continuar trabalhando como cartunista.

Só isso já faz da vida de Callahan um filme. Porém, Gus Van Sant decidiu ir além para tratar de assuntos poderosos como alcoolismo, relações humanas e superação.

Nove anos depois de ter levado às telas a história de Harvey Milk, Van Sant escolheu trabalhar com outra cinebiografia e o resultado é tão parecido quanto o do filme de 2009. Mesmo tratando de assuntos mais pesados dentro de toda a narrativa, o maior poder de Van Sant está na direção de atores.

Não é a toa, até porque o filme de 2009 rendeu o Oscar de Melhor Ator para Sean Penn e aqui rende um dos melhores trabalhos, tanto de Joaquin Phoenix, quanto de Jonah Hill, que cada vez mais se prova um ator mais maduro em Hollywood.

Mesmo realizando um ótimo trabalho com o elenco, Van Sant falha narrativamente. O roteiro até consegue se esquivar dos clichês de cinebiografias, entretanto, elas custaram caro para o sucesso do longa. Por mais que a história de Callahan seja interessante e digna de ser contada, Van Sant não consegue manter o público atento nas quase duas horas de longa.

A montagem do filme é péssima ao tentar algo mais dinâmico e “fora da caixinha” como o roteiro vinha apresentando. Isso faz com que a obra de Van Sant canse mais do que deveria, dando uma sensação mais longa do que realmente é. Infelizmente, a narrativa consegue ofuscar o belíssimo trabalho de atuação, perdendo o espectador para o tédio a cada minuto. Por mais que o diretor americano até consiga estabelecer uma boa direção, seu desenvolvimento exclui qualquer qualidade que o filme tenha.

Esta falha está no fato de Van Sant apresentar que a história será contada de uma maneira, contudo, o decorrer da narrativa toma diferentes rumos que não condizem com a apresentação do roteiro.

Ainda assim, mesmo com as falhas, Van Sant discute bem os temas que queria. A realidade problemática de Callahan oferece uma boa análise sobre alcoolismo. Phoenix conseguiu transferir bem à tela o vício e as dificuldades internas e externas causadas pela bebida. O peso acaba não sendo no mesmo nível de Diário de um Adolescente (1995), por exemplo, mas as análises psicológicas apresentadas durante as sessões com outros integrantes fazem com que haja não só uma reflexão sobre a abstinência, mas também de atitudes humanas e a luta pela recuperação.

Neste ponto, Hill ressalta seu belo trabalho na atuação. Suas falas pontuais são essenciais para a discussão exigida por Van Sant se tornarem evidentes para uma análise individual mais profunda. Esse poder se deve também para o trabalho de imersão do personagem, que acaba convencendo mais, até pela fala mansa que Hill escolhe manter com Donnie.

O plano de A Pé Ele Não Vai Longe – que ganha esse nome por causa de uma das tirinhas de Callahan – é ótimo ao tratar a história de um ser humano único e interessante, através de uma narrativa diferente do padrão. Contudo, toda sua fraca estrutura narrativa deixa a difícil trajetória do cartunista ainda mais difícil de engolir e de aguentar atento no cinema.