SINOPSE

Misako é uma dubladora apaixonada por versões cinematográficas para deficientes visuais. Em uma exibição, ela conhece Masaya, um fotógrafo mais velho que está perdendo lentamente sua visão. Misako logo descobre as fotografias de Masaya, que estranhamente trará de volta o seu passado. Juntos, eles aprenderão a ver o mundo radiante que era invisível para seus olhos.

FICHA TÉCNICA

Direção:

Naomi Kawase

Roteiro:

Naomi Kawase

Gênero:

Drama, Romance

Produção:

Naoya Kinoshita, Masa Sawada, Yumiko Takebe

Elenco:

Masatoshi Nagase, Ayame Misaki, Tatsuya Fuji

Nacionalidade:

Japão, França

Ano de Produção:

2017

Data de Lançamento:

10 de maio de 2018

Distribuição:

Imovision

CLASSIFICAÇÃO

Direção:

Roteiro:

Fotografia:

Trilha-Sonora:

Efeitos Visuais:

Efeitos Especiais:

Direção de Arte:

Elenco:

Montagem:

Figurino:

Maquiagem:

Ao procurar o significado de “esplendor” no dicionário, é possível encontrar “grande brilho”, “magnificência” e “grandeza”. O nome do filme é a tradução da palavra japonesa “hikari”, tendo “brilhante” como seu principal significado. Palavras e definições nunca fizeram tão jus a uma obra cinematográfica. Repetir palavras como “grandioso” e “brilhante” nesse texto será banal para uma produção tão delicada, sensível e encantadora como ‘Esplendor’.
Graduada em fotografia, a diretora japonesa Naomi Kawase surpreendeu o mundo do cinema em 1997 ao se tornar a mais jovem vencedora de melhor diretora do Caméra d’Or, no Festival de Cannes, por ‘Suzaku’. Dentro de sua filmografia, está sempre fortemente preocupada com a distorção entre o real e irreal, mas principalmente entre ficção e não-ficção, movimento importante no cinema japonês que abordava a ficção com olhar documentalista. Esse realismo documental explorado por Kawase é um uso para se concentrar em personagens com um menor status cultural, além de explorar as representações das mulheres dentro da indústria do cinema. Dentro disso, a diretora invocou práticas autobiográficas em suas obras e reflete muito do pessoal, do íntimo e doméstico.
Aqui, Kawase trouxe todas essas características, principalmente na mistura entre a ficção e a não-ficção dentro da própria história e em trazer um drama pessoal para representar a personagem de Ayame Misaki – a morte do pai incrementada para a personagem foi retirado do real sofrimento de Kawase. Aliás, o trabalho íntimo da diretora é primoroso para o filme caminhar com a sensibilidade que a história clama. A direção entrega planos mais fechados, justamente para fortalecer ainda mais a intimidade entre espectador e personagem, e de trabalhar metaforicamente a cegueira, não só total, mas aquela mais fechada para um mundo só nosso. Visualmente, ‘Esplendor’ é magnífico em querer trabalhar a falta de visão. O texto conversa bem com todo o visual do filme, que traz constantemente uma fotografia mais clara e mais luminosa, brincando que a presença de muita luz provoca a cegueira, algo parecido com que Fernando Meirelles fez em ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ (2008).
Tornar-se Seleção Oficial de Cannes não é lá um trabalho tão fácil. Afinal, o considerado um dos mais prestigiosos festivais de todos e um dos mais importantes do cinema, é preciso algo a mais. Marcado por obras com um ritmo mais lento e cansativo, filmes de Cannes não só chamam atenção pela presença no Festival, como também acabam formando um público só dele.

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‘Esplendor’ é um filme bem cara de Cannes, se é que podemos classificar um filme assim. O ritmo mais cadenciado e devagar está presente no trabalho de Kawase. Não que isso atrapalhe, pelo o contrário, o ritmo próprio é necessário para a narrativa não se perder e trabalhar ainda mais os personagens.
O equilíbrio entre os papéis de Ayame e Masatoshi Nagase é primordial para Kawase contar essa história. O trabalho de repetir certas situações podem parecer gratuitas e desnecessárias, mas todo detalhe narrativo serve para nos aproximarmos e nos encantarmos cada vez mais com esses personagens. A evolução de Misako (personagem de Ayame) é paralelamente bem trabalhada com a de Masaya (personagem de Nagase), e as duas narrativas conseguem ser muito bem paralelas com o filme no qual Misako “dubla”. A metalinguagem existe de forma funcional e mais indireta, usada como o fio condutor da história dos dois, que no final, ao subir dos créditos, entrega uma delicadeza sem descrições.
Muito dessa delicadeza existe na fotografia, mas nada seria sem a trilha de Ibrahim Maalouf. Tão delicada quanto as imagens, a trilha balanceia e se ofusca do texto, mas ainda é tão fundamental quanto as imagens. Por breves momentos, ela some, mas quando volta a ser protagonista, não decepciona e entrega toda a beleza que o momento pedia.
Em metáfora, Kawase trabalha principalmente sobre visões, certas vezes, literalmente. Ao utilizar um plot envolvendo pessoas cegas, a discussão sobre o “enxergar” existe desde o primeiro minuto, mas Kawase vai além e consegue destrinchar o que parece ser simples, para algo mais complexo, como interpretações, visões de mundo, controle sobre o outro, imaginação. Do mesmo modo que o texto balanceia muito entre a ficção e não ficção, existe também um balanço entre o real e irreal e de forma literária. Pare por um minuto e se imagine cego. O mundo ao seu redor passa a ser algo da sua cabeça, mas, é aí que existem pessoas que chegam e começam a dizer o que é real. Toda a interpretação e a imaginação se transformam, mas, até que ponto ela é sua e não do outro? Questões como essa são indiferentes para a central trama de amor, mas se esse tipo de discussão existe, mesmo que bem indireta, é um sinal de riqueza no roteiro que deve ganhar uma atenção.
Aquilo que aparenta ser um erro, torna-se grandioso ao parar para refletir sobre. Estou falando de pontos específicos em que o longa aparenta correr em meio a uma narrativa mais lenta, mas dentro da proposta da personagem, funciona e faz todo o sentido. ‘Esplendor’ é de um brilhantismo encantador que joga uma luz forte naquilo que normalmente é coberto de uma escuridão sem volta.