Criaturas místicas sempre se mostraram um deleite para o cinema. Tanto para o público, que se encanta ao ver histórias com monstros, quanto para cineastas, que demonstram prazer ao trabalhar em uma história única para esses personagens. Esse encantamento sempre foi bem representado nas sereias.

Desde a comédia Miranda, a Sereia (1948), o romance Splash: Uma Sereia em Minha Vida (1984), o musical animado A Pequena Sereia (1989) e até as representações aterrorizantes em Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005) e Sinbad – A Lenda dos Sete Mares (2003). Em sua essência, a sereia, apesar de diversas representações, aproveita-se de um toque do gênero terror, com seu canto doce que enfeitiça marinheiros.

E foi nessa proposta que A Sereia tentou embarcar, porém esquecendo de realizar, no mínimo, uma obra cinematográfica.

Em 2017, o nome do russo Svyatoslav Podgayevskiy foi comentado pela primeira após o lançamento de A Noiva. Para quem se lembra da obra, sabe que o cineasta não conseguiu encantar com a repetitiva estrutura narrativa de outras obras de terror e ficou na mesmice. No entanto, A Noiva, ainda que ruim, apresentou, pelo menos, uma história.

Dessa vez, o russo se juntou a mais dois roteiristas para trazer a criatura mística às telonas, o que chama mais atenção ainda, já que três pessoas não conseguiram desenvolver uma história consistente, se tiver alguma história ali envolvida. Além de péssimos diálogos estabelecidos, a trama não se sustenta em qualquer momento, tornando-se uma vergonha do começo ao fim.

E a má qualidade não está só no fato de Podgayevskiy criar uma sereia sem cauda, que não canta, que passa 90% do filme fora d’água e que não segue a mitologia da personagem. Mas também está no fato de toda a história não fazer sentido algum para a proposta estabelecida do diretor. O próprio início do longa apresenta ao espectador uma narração em off tratando justamente sobre o mito da sereia e sobre seus encantos sobre os homens. No entanto, o resultado é um fantasma no lago.

Como se não bastasse a fraqueza do monstro principal, os personagens secundários são ainda mais decepcionantes, não trazendo absolutamente nada de interessante. Inicialmente, o russo até consegue apresentar sentido para um futuro desenvolvimento, como o caso dos personagens estarem envolvidos com natação, o que justificaria o fato de nadarem em um lago. Ainda é fraca, porém, é uma justificativa. Mas com o tempo, o roteiro se enrola todo e faz com que narrativas como de Pânico no Lago (1999) ou Piranha (1978) sejam vistas como obras primas.

Toda a construção do mistério não convence o espectador e a solução é ainda pior. Um bom roteiro vai te apresentando pequenas e escondidas dicas da revelação final, dando a sensação de um roteiro bem trabalho e bem escrito. A Sereia, por sua vez, foge da proposta e apresenta fracas dicas para no final trazer a solução de forma jogada e sem justificativa para os personagens compreenderem sobre aquilo.

Isso sem falar de falas aleatórias que aparecem como flashback, sendo que elas nem haviam sido ditas no decorrer do filme. Podgayevskiy até entrega um bom visual, com uma direção um tanto consistente e com cenas bem conduzidas, além de uma fotografia que chama atenção, apesar de uma repetição visual enjoativa com um constante uso do azul, pela obviedade da água, e do vermelho, para, pelo menos, trazer alguma coisa de terror no filme. Porém, nada é sustentável. 

O elenco é outro nojo que não sustenta nem um minuto de filme. Podgayevskiy traz de volta sua queridinha de A Noiva, Victoria Agalakova, com um papel tão insignificante quanto de seu filme anterior. E por falta de uma boa protagonista, o elenco ainda conta com atores que tem justamente A Sereia como o primeiro longa da carreira, incluindo Sofia Shidlovskaya, a própria sereia.

Na tentativa de se aproveitar de estruturas que funcionaram em outros filmes de terror para trazer a lenda russa, Svyatoslav Podgayevskiy afunda ainda mais sua carreira como cineasta e coloca A Sereia inferior a O Manicômio (2019), o que dá a ela o título de pior filme do ano.