SINOPSE

Um dos diretores mais cultuados da primeira metade da década de 2000, M. Night Shyamalan foi responsável por uma seqüência de grandes filmes de suspense e mistério naquela época, dentre eles “O Sexto Sentido (1999)” e “A Vila (2004)”. Entretanto, desde o final daquela mesma década, o que se viu foi uma sequência assombrosa de desastres cinematográficos, e a queda da sua carreira e reputação vieram de forma vertiginosa. Neste ano, seu mais novo filme, “A Visita”, marca o retorno do diretor ao gênero que o consagrou e ainda com o apoio dos fãs esperançosos pela recuperação do seu prestígio, houve boa expectativa com relação a este trabalho. O filme conta a história de um irmão e uma irmã (apresentando os jovens Ed Oxenbould e Olivia DeJonge) que são enviados para uma remota fazenda na Pensilvânia, para curtirem uma viagem de uma semana e conhecerem seus avôs maternos (interpretados por Peter McRobbie e a grata surpresa Deanna Dunagan), que não têm um bom relacionamento com a filha (a versátil atriz de “apoio” Kathryn Han, rosto conhecido em filmes de comédia) por problemas vividos no passado. Então as crianças chegam lá e logo descobrem que o casal de idosos está envolvido em algo profundamente perturbador, e acabam vendo suas chances de voltarem para casa menores a cada dia que se passa.

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Acontece que o roteirista e diretor faz uma escolha interessante no estilo que decidiu empregar no filme: o “mockumentary” (falso documentário), onde os personagens utilizam a câmera de mão, tal qual outros filmes do gênero, como “A Bruxa de Blair (1999)”, “Rec (2007)”, “Assim na Terra, Como no Inferno (2014)” e o mais recente “A Possessão do Mal (2014)”, este último que chegou aos cinemas brasileiros no início deste mês. Interessante, a meu ver, de uma forma negativa, pois o diretor sempre teve um estilo bem idiossincrático de construir a tensão aos poucos, apostando na antecipação do suspense e utilizar uma técnica que já foi exibida exaustivamente nos últimos anos me pareceu uma decisão ousada, que aumentou a pressão nos seus ombros de fazer algo diferente. E não deu outra: com a justificativa de que a jovem Becca estaria fazendo um documentário sobre a primeira vez que irá conhecer seus avôs, Shyamalan optou por uma solução fácil e conveniente para “captar” os acontecimentos sobrenaturais que aconteciam na casa. Considerando que todo filme deva ser feito pensando na platéia e não no diretor, perceba a desconfiança que esta escolha desperta no público mesmo antes da ação começar, pois já traz ao espectador um sentimento inconsciente de comparação com outros tantos filmes de mesmo estilo ainda frescos na memória. Tal decisão é ousada, porque caso o resultado seja algo inovador e surpreendente, logo o filme se tornaria um clássico “cult” e um marco por revolucionar o gênero, mas se for para fazer “mais do mesmo”, o saldo final do filme seria extremamente decepcionante.

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É claro que é importante considerar que “A Visita” é um filme de orçamento muito baixo, com elenco desconhecido e alguns membros da equipe tendo a oportunidade de estrear em funções mais importantes, casos do editor Luke Franco Ciarrocchi e do diretor de arte Naaman Marshall. A intenção do roteiro de Shyamalan é muito simples: consiste em fazer o espectador acreditar no documentário gravado por Becca, mostrando o dia-a-dia (e visualmente o diretor mostra isto, começando na segunda-feira e assim por diante) da convivência com os dóceis avôs – já que sua mãe havia dito que ambos são voluntários em um hospital da cidade. É claro que o diretor não perdeu seu talento do dia para a noite, “A Visita” é um filme intimista, com estilo próprio e momentos de arrepiar a espinha – como a cena do “esconde-esconde”. Após uma premissa básica de conversa entre a mãe e os garotos, Shyamalan não tem pressa de nos colocar na casa dos velhinhos, mas quando o faz, gradativamente podemos sentir – juntamente com os garotos – a presença do Mal naquele lugar. Entretanto, se sobra forma estética e bons sustos, falta conteúdo. Um erro recorrente dos filmes de terror são as decisões tomadas por parte dos personagens, quase sempre ingênuas e totalmente fora da realidade. Este problema também esta presente no filme, dando sinais claros de que o diretor não tinha o controle total dos personagens e de suas ações. Há também problema com o ritmo do filme (embora seja uma marca que acompanhe praticamente toda a carreira do diretor), que demora muito para que os garotos percebam a situação perturbadora em que se encontram. O que não poderia faltar – e confesso que me pegou – é a tradicional “surpresa” de roteiro que habilmente o diretor costuma utilizar no clímax dos seu filmes.

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No que diz respeito à contribuição do elenco, aqui vale uma ressalva. Quando comentei que Deanna Dunagan foi uma grata surpresa, me refiro à sua excelente interpretação de uma idosa com problemas em um filme de horror, e não quanto à sua capacidade dramática, haja visto que a atriz é um rosto bastante conhecido nos palcos de Chicago e é inclusive vencedora de um Tony Award. As crianças se esforçam e mostram qualidade, mas o limitado roteiro não dá espaço para que Olívia brilhe tanto quanto Ed, que inusitadamente se mostra um ator de recursos cômicos bem interessantes, demonstrados através dos seus “raps” e piadas durante o filme. Como podem imaginar, em um filme de baixo orçamento, a dificuldade em se conseguir o resultado esperado é muito maior, como a iluminação perfeita, por exemplo. Mas isso não pareceu problema para a fotografia da francesa Maryse Alberti (O Lutador, 2008). Trabalhando em conjunto com Shyamalan, a diretora de fotografia conseguiu estabelecer de forma muito eficiente (dentro do possível) a atmosfera visual do filme, um clima e ambiente aconchegante durante o dia e assustador e bizarro durante a noite.

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Mas diante de tudo que foi analisado, podemos concluir que “A Visita” ainda não trouxe o tão aguardado reencontro de M. Night Shyamalan com as grandes obras de suspense do cinema. Na verdade é preocupante, pois a cada “flecha fora do alvo” que ele arremessa, menor é a paciência e esperança de que um dia ele volte a ser o ícone que um dia foi. Para os fãs do gênero, o filme proporciona bons sustos, mesmo que sejam em momentos passageiros. Mas não há nada de novo aqui e o filme se perde entre o terror que quer expressar e seu tom cômico, que exagera um pouco. Posso afirmar que é o melhor dos últimos quatro ou cinco filmes do diretor, mas isso não quer dizer muito, pois quem conhece sua filmografia sabe bem que sua carreira já estava à beira do abismo. Entre boas e ruins escolhas para o projeto (mais ruins, é verdade), como a positiva utilização dos velhinhos assustadores em contraste com a manjada escolha do “falso documentário”, A Visita decepciona por não trazer nada de novo ao gênero e ainda mostrar que o diretor aprendeu pouco com seus erros do passado, o que é uma triste notícia para qualquer cinéfilo verdadeiro.

Trailer do Filme: