Qualquer pessoa que goste de ir ao cinema e acompanhe as notícias sobre os próximos lançamentos de Hollywood já percebeu que o cinema blockbuster há um bom tempo está saturado de intermináveis franquias ou reboots/remakes de várias obras que fizeram sucesso no passado. Talvez por isso, quando surge algum filme com proposta original, ou ao menos diferente, muita gente joga as mãos para os céus e agradece.

 

Com o tempo, alguns diretores ficaram marcados pelo estilo peculiar e a originalidade dos seus filmes. Aproveitando a estreia de “Em Ritmo de Fuga” essa semana, falarei hoje sobre um dos mais cultuados e queridinhos da nova geração, o inglês Edgar Wright. Afinal, o que torna seus filmes tão especiais, especialmente quando comparados com outros filmes de temas bem parecidos?

 

Edgar Wright

 

Parte I: Os gêneros cinematográficos

Muitos provavelmente diriam: “ah, ele se destaca pelo visual colorido, humor e referências a outros clássicos do cinema e da cultura nerd”. Isso também é verdade, mas acredito que se limitar a esse pensamento seria minimizar muito o talento do diretor. Antes de tudo, filmes são sobre histórias e também pessoas. Nós, espectadores, adoramos jornadas incríveis e personagens que evoluem, aprendem e se tornam pessoas diferentes ao final da história.

Um dos principais pontos fortes de Edgar Wright como roteirista e diretor é pegar algo simples e transformar em outro muito maior. Especialmente graças a sua habilidade em trabalhar com subgêneros populares e dar a eles uma cara diferente, imprimindo suas características pessoais como realizador. Vejamos, sua filmografia fala por si mesmo (arraste as fotos para o lado):

 

Revitalizou o terror “B” dos filmes de zumbi em “Todo Mundo Quase Morto” (2004)

Subverteu o famigerado gênero buddy cop no thriller policial “Chumbo Grosso” (2007)

Adaptou quase literalmente uma HQ para o cinema em “Scott Pilgrim Contra o Mundo” (2010)

Criou uma peculiar invasão alienígena jamais imaginada antes em “Heróis de Ressaca” (2013)

E agora, deu personalidade única ao subgênero de roubo a banco com “Em Ritmo de Fuga” (2017)

 

Ou seja, Edgar domina os gêneros cinematográficos. Afinal, só depois de se conhecer a fundo alguma coisa, somos capazes de transformá-la com qualidade. E mais, não que Edgar seja contra sequências, remakes ou franquias, mas ele entende como poucos justamente o que eu citei no início do texto. E por isso prefere investir em histórias originais.

Se ao final de um filme seu personagem já atingiu o objetivo da sua jornada, basicamente, a história acabou. Na maioria gritante das vezes, cineastas e estúdios não compreendem isso, recorrendo sempre às mesmas premissas manjadas como desculpa para continuar alguma franquia, e aí está o erro.

Até por que, se o personagem não tiver mais como crescer na história ou faltarem motivações plausíveis para seu retorno, o novo filme deixará apenas a sensação de que é mais do mesmo, então qual sua justificativa? Talvez por isso, dificilmente uma sequência acaba superando o original, a não ser que já faça parte de uma saga conhecida, como “Harry Potter” ou “O Senhor dos Anéis”.

Inovar é preciso para engajar o espectador e Edgar também sabe disso como poucos. Não é à toa que uma das suas maiores referências é James Cameron, o homem que deu uma cara completamente diferente a franquia “Alien”, criando uma sequência tão boa quanto o original, e também reinventou “O Exterminador do Futuro”. Recentemente, a franquia “John Wick” parece ter entendido bem esse conceito, expandindo muito mais o universo e o protagonista com relação ao primeiro filme.

Parte II: Contando uma história visualmente

Se o cinema é uma arte audiovisual – onde há inúmeras possibilidades de exploração dos seus recursos – por que a maioria das comédias hoje em dia são tão parecidas? É claro que não necessariamente em temas ou elenco, mas parece haver uma padronização visual e narrativa nas histórias, que acabam saturando o gênero (e parecem que são todas dirigidas pela mesma pessoa…).

Por isso quando surge um diretor como Edgar Wright ou Matthew Vaughn (de “Kick-Ass” e “Kingsman”), seus filmes chamam tanto a atenção. Porque eles têm personalidade e imprimem isso nas suas histórias. Especialmente Edgar, que é um mestre no humor visual e não apenas em piadas ou gags cômicas, como a maioria faz. Isso sem mencionar seu vasto conhecimento em filmes, algo que explorou muito no início da carreira e o ajudou a moldar seu estilo de filmagem.

Vejam a seguir quantas referências Edgar homenageou em um dos seus primeiros trabalhos, a série “Spaced”, que foi exibida de 1999 a 2001:

 

Edgar Wright's Early References

Just like you, director Edgar Wright is a film geek, whose work is teeming with movie and pop culture references—from 2001: A Space Odyssey to Star Wars to The Matrix. Explore his trademark style all the way back to his first TV show, Spaced!

Posted by Fandor on Tuesday, July 25, 2017

 

Falando em estilo visual, uma de suas características mais marcantes é a maneira como utiliza zooms rápidos, closes e a atenção que dá aos objetos em cena, mesma marca quase sempre presente nos filmes de outros dois grandes diretores, Christopher Nolan e Martin Scorsese. Inclusive, sua admiração por Scorsese era tanta que fez questão de contratar David Dunlap – que havia trabalhado como operador de câmera em “Os Bons Companheiros” – para ser seu diretor de fotografia em “Todo Mundo Quase Morto”, graças a habilidade de Dunlap com zooms e movimentos panorâmicos rápidos com a câmera.

Acima, a atenção aos objetos em “A Origem”, de Christopher Nolan; “Taxi Driver”, de Martin Scorsese e “Heróis de Ressaca”, de Edgar Wright

Os zooms rápidos não servem também apenas como questão de estilo, mas ajudam a passar informação visualmente. Edgar adora usar esse tipo de movimento aliando com transições de cena ou em momentos corriqueiros, pois além de ser uma maneira muito criativa de mostrar passagens de tempo geralmente entediantes, elas acabam possibilitando a inserção de gags visuais e humor físico, outra característica marcante em seus filmes. Veja como uma simples mudança de cidade, que a maioria dos diretores colocaria como uma passagem de tempo comum, com música e talvez a visão de um ponto turístico do local, Edgar transforma em uma oportunidade de fazer rir apenas com o visual:

 

 

Na cena em questão, o personagem foi rebaixado de cargo para uma cidade pequena e isolada. Repare que a diminuição do sinal do seu celular é proporcional ao aumento da tristeza do personagem. Quando o sinal está completamente perdido, o personagem está completamente arrasado. Mais um exemplo de criatividade tão pouco explorado, que torna a direção e o estilo de Edgar muito especiais.

 

Enquanto a maioria dos diretores usa cortes rápidos e zooms apenas para injetar mais energia em um momento importante do filme, como quando o herói se arma para enfrentar o vilão, por exemplo, Edgar também aproveita para subverter momentos comuns do dia-a-dia. Em “Chumbo Grosso”, ele usa o movimento para remover as partes entediantes do trabalho de polícia, algo que já vimos centenas de vezes em outros filmes. Todo cineasta é escravo do tempo, e Edgar usa todas essas ferramentas para acelerar o ritmo de seus filmes e torná-los o mínimo entediante possível, sempre pensando no público.

Parte III: Baby Driver

Como mencionei, o diferencial de Edgar Wright é a criatividade, tirar situações comuns que já vimos um milhão de vezes e transformar em algo divertido e que nos prenda a atenção, buscando formas incomuns para fazê-lo. Mas, “Em Ritmo de Fuga”, ele aprimora um último recurso que sempre usou com maestria, porém em pequenos trechos de seus filmes: a ação sincronizada com a música.

Edgar declarou que todo o filme foi inspirado em apenas uma música: Bell Bottoms, do grupo The John Spencer Blues Explosion, de 1994. Antes de escrever o roteiro, ele contou que gostaria de fazer um filme inteiramente movido por canções que ajudavam a compor a narrativa, mas foi alertado por ninguém menos que Quentin Tarantino a não fazer isso, pois algumas vezes estúdios não conseguem (ou querem pagar) os direitos autorais de algumas músicas.

Mas ele fez mesmo assim! No total, são 35 músicas que ajudam a contar parte da narrativa da história, algumas de maneira mais sutil e outras bem escancaradas. Mas, você pode estar se perguntando: “como se usa música para compor a narrativa”? Bom, a melhor resposta para isso seria recomendar que se assista ao filme, pois qualquer explicação não vai chegar aos pés da experiência sensorial que ele proporciona.

No entanto, sem soltar nenhuma informação importante, a música é aplicada de várias formas ao longo da história. Como se sabe, Baby (Ansel Egort) é um piloto de fuga que trabalha para Doc (Kevin Spacey), um chefão do crime. Devido a um acidente na infância, Baby precisa ouvir música o tempo inteiro para disfarçar uma sequela do trauma ocorrido. Assim, missão atrás de missão enquanto tenta pagar seu débito com Doc e sair dessa vida de crime, ele vai ouvindo uma série de músicas, que acabam tendo influência na forma como o filme é contado.

Exemplos: uma música tem sua letra espalhada em forma de grafites e cartazes pela cidade; em outra, o assalto deve durar exatamente o tempo de duração da música… O nome dos personagens também rende algumas conexões, como Deborah (Lily James), e há cenas onde a música literalmente sincroniza com a ação. Lembram do trailer de Esquadrão Suicida, que parecia sincronizado com Boemian Rhapsody do Queen? Então, o processo em “Em Ritmo de Fuga” foi muito mais complexo, pois as coreografias foram pensadas com antecedência combinando com as músicas, que tocavam ao vivo no set durante a gravação.

Durante a música Neat Neat Neat, em um dos assaltos, há outra perseguição, mas a música era muito curta para durar toda a sequência de ação planejada por Edgar e o diretor de fotografia Bill Pope. Então, o que Edgar fez? Encontrou um jeito criativo. Baby manda os parceiros esperarem, porque ele precisa voltar um pedaço da música enquanto trocam de carro. Essa simples escolha, acabou fazendo com que a música realmente influenciasse a narrativa de maneira inteligente, pois ajuda o espectador a entender que a condição traumática do protagonista é uma necessidade e por que ele precisa agir daquela forma.

Há muito ainda para falar sobre o filme, mas isso seria assunto para outra análise. Para encerrar, fiquem com a canção Blue Song, da banda Mint Royale. Não, ela não está no filme, mas garanto que após ver esse clipe você vai entender imediatamente o porquê de eu tê-la escolhido. Afinal, o diretor do clipe é o próprio Edgar Wright, que teve a ideia para o filme neste clipe em 2003! “Em Ritmo de Fuga” conta com grande elenco, do calibre de Jamie Foxx, Jon Hamm e John Bernthal e já está em cartaz todos os cinemas do Brasil.

 

 

E você, já assistiu ou está ansioso para ver?  Deixe seu comentário ou crítica (educadamente) e até a próxima!

 

Assista na íntegra a entrevista que o ator Ansel Elgort, de “Em Ritmo de Fuga” deu ao Super Cinema UP durante sua vinda ao Brasil:

 

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