Os rumos do cinema contemporâneo são extremamente duvidosos, entretanto em meio a tantos trabalhos que evidenciam a falta de competência para que novas histórias sejam contadas, a expansão da franquia “Harry Potter” se destacou por ter a frente das produções sua autora original, o que supostamente garantiria novas histórias que tivessem lógica e relevância para o “universo” criado. Mas, infelizmente, J.K. Rowling começou a dar os seus primeiros tropeços ao tentar criar uma trama grandiosa demais para anteceder aquela que a enriqueceu. Assim, com muito pesar, listamos abaixo os 5 principais “tropeços” de “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”.

1. Mudança de foco e título

Em 2013, uma trilogia de novos filmes que antecederiam os acontecimentos vistos nos filmes de Harry Potter foi anunciada. Na época, o que era sabido é que seria protagonizada por um personagem que foi apenas citado nas obras literárias como o autor de um livro escolar sobre criaturas mágicas. Esta premissa prometia novos ares para a franquia, com uma história original escrita pela autora da série que poderia ter igualmente interessante, mesmo que independente. Mas se aproximando do lançamento do longa, foi anunciada uma grande estrela de Hollywood para um personagem de relevância reconhecida pelos fãs da série, o que começava a indicar que os próximos filmes (agora anunciados um total de 5, e não somente 3) não seriam o que estávamos pensando e muito possivelmente nem o que a autora e os produtores estavam pensando inicialmente. Com o lançamento de “Animais Fantásticos e Onde Habitam” essa “mudança de planos no meio do caminho” ficou evidente, pois ao lado da trama sobre animais fantásticos estava ali inserida uma subtrama que indicava algo maior, sem prejudicar ou ofuscar a premissas originalmente anunciadas.

Por outro lado, a sequência “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” inverte a proporção dando pouquíssimo espaço para o protagonista e suas criaturas mágicas, e enche a tela com uma trama que sequer remete ao título, visto que os “Animais Fantásticos” são coadjuvantes e “Os Crimes de Grindelwald” não são cometidos, pelo menos não em quantidade que justifique o título do longa. Na verdade, ao terminar de assistir ao filme, o espectador sai com sensação que o protagonista é outro, o que não só tira o valor do segundo filme mas também corrompe a beleza do primeiro.

SPOILER ALERT! A PARTIR DESTE PONTO, O TEXTO CONTÉM REVELAÇÕES IMPORTANTES DA TRAMA

2. Dumbledore

O conhecido diretor de Hogwarts é citado em uma única frase em “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, e agora ganha um destaque descomunal, mesmo com pouco tempo de tela. Ao ser revelado que ele foi o mandante dos ganchos desenvolvidos no primeiro longa, as motivações de Newt Scamender “caem por terra”, e tiram a essência responsável pelo carisma do “protagonista”, que na verdade se revelou um fantoche todo esse tempo, seja do Dumbledore ou da J.K. Rowling.

Ressalta-se ainda que justificativa encontrada pela autora para afastar o verdadeiro personagem principal da tela, além de fraca, foi oportunista, já ela “objetificou” um novo encantamento que certamente estará presente nas lojas de colecionáveis muito em breve.

3. Mundo Mágico de Paris

Nos livros e nos filmes de Harry Potter sempre houve uma grande preocupação em separar e esconder o mundo mágico do mundo dos trouxas. O mundo dos bruxos nunca foi tratado como uma realidade paralela, ou mesmo alternativa, e todas as “instalações” bruxas no mundo dos trouxas eram dotadas de encantamentos e feitiços pontuais, no sentido de ocultar e confundir os “não mágicos” que por ali passassem. Essa mesma lógica foi seguida estritamente no primeiro “Animais Fantásticos”, onde inclusive houve a necessidade de apagar memórias em massa no final do longa, a fim de não revelar o mundo bruxo.

Entretanto, ao desembarcar em Paris (e vou poupar as fracas justificativas para a viagem dos personagens), o longa dá a entender que na Cidade Luz há um portal para uma realidade paralela onde a mágica “rola solta” longe dos trouxas, fazendo com que toda a ação não precise ter nenhuma cautela. Mas ao mesmo tempo alguns detalhes, como a surpresa e espando dos figurantes para pequenos encantamentos, entregam a incoerência do roteiro nesta questão, contribuindo para o montante de fragilidades do filme.

4. Nagini e McGonagall

Toda a confusão sobre qual história essa nova série de filmes quer realmente contar tem algumas consequências negativas para todo o “universo fictício”. A desnecessária e exagerada vontade de conectar as histórias com a trama do menino que sobreviveu revela-se com a inserção de personagens coadjuvantes conhecidos fora de contexto e com conflitos temporais.

A cobra Nagini, importante (mas secundaria) para a trama de Harry Potter, dá as caras no novo filme como uma humana amaldiçoada. A ideia, que seria interessante de ser desenvolvida e prometia uma boa conexão com a história do Voldemort, foi vendida na reta final da campanha de marketing do filme para agitar os fãs, mas infelizmente só serviu para fazer isso. A personagem não é desenvolvida ou explorada em nenhum momento e nem dá indícios que será no futuro, o tempo de cena não é muito superior ao mostrado nos trailers e ela nada contribui para o desenrolar da trama do filme. E analisando um pouco mais a fundo, a inserção da personagem pode ter sido bastante inconsequente visto que agora ela terá proximidade e conhecimento sobre as relíquias da morte, em especial sobre o paradeiro da Varinha das Varinhas, e no futuro o seu “dono” (Voldemort), capaz de se comunicar com ela pela língua das cobras, estará numa incansável busca pelo item sem saber que seu animal de estimação sabia sobre a varinha.

Já a personagem Minerva McGonagall, carismática professora de transfiguração, também aparece no novo longa em dois momentos no tempo, que são incompatíveis com a cronologia estabelecida nos livros de J.K. Rowling. McGonagall já aparece como professora de Hogwarts nos tempos que Newt Scamander ainda frequentava a escola, em cerca de 1910. Entretanto, ao ser entrevistada em 1995 por Dolores Umbridge no livro “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, a personagem alega que trabalhava na escola “há 39 anos”, ou seja, teria começado a lecionar em 1956. Pode-se destacar ainda que a personagem ainda aparece com bastante saúde nos acontecimentos de “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”, que acontecem entre 2018 e 2022. Quantos anos de fato tem a personagem? Neste ponto, a autora pode dar qualquer justificativa mágica para os furos de sua história, mas a falta de cuidado em costurar as tramas está começando a aparecer.

5. Aurélio Dumbledore

Talvez o maior crime de J.K. neste longa tenha sido querer acrescentar uma grande revelação, que fosse inédita mesmo para os maiores conhecedores de sua história. Ao anunciar no final do filme que Credence é na verdade Aurélio Dumbledore, um quarto Dumbledore, a autora deixa transparecer um certo desespero em alimentar o espírito mais desesperado dos fãs e não deixar de jeito os ânimos acalmarem, perdendo a oportunidade de explorar melhor uma trama pouco conhecida.

Muitos “senões” terão de ser criados para justificar com coerência a adição do personagem, visto que sua suposta mãe (Kendra Dumbledore) é vista num navio com destino aos EUA e morre no mar, ao invés de morrer por conta do descontrole de sua filha Ariana.

No fim, o mais novo filme descontruiu de forma confusa e ligeiramente sem coesão a história que já conhecíamos, mas ainda assim agradará muitos. “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” estreia dia 15 de novembro, com pré-estreias a partir do dia 13.