SINOPSE

Michael Stone, marido, pai e respeitado autor de Como posso ajudá-lo a ajudá-los?, é um homem incomodado com a rotina da sua vida. Durante uma viagem para Cincinnati, onde está programado para dar uma palestra, ele se surpreende ao descobrir uma possível escapada de seu desespero: Lisa, uma despretensiosa representante de vendas, que pode ou não ser o amor de sua vida. Uma jornada em stop motion, sombriamente cômica e surreal, dirigida por Charlie Kaufman e Duke Johnson. Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza 2015.

FICHA TÉCNICA

Direção:

Charlie Kaufman, Duke Johnson

Roteiro:

Charlie Kaufman

Gênero:

Animação , Comédia dramática

Produção:

Financiamento Coletivo

Elenco:

David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan

Nacionalidade:

EUA

Ano de Produção:

2015

Data de Lançamento:

28 de janeiro de 2016 (1h31min)

Distribuição:

CLASSIFICAÇÃO

Direção:

Roteiro:

Fotografia:

Trilha-Sonora:

Efeitos Visuais:

Efeitos Especiais:

Item não avaliado

Direção de Arte:

Elenco:

Item não avaliado

Montagem:

Figurino:

Maquiagem:

ANOMALISA - Anomalisa (2015)

Os pôsteres de ‘Anomalisa’ (2015), tanto o nacional quanto os internacionais, trazem a frase “o filme mais humano do ano”, atribuída a Matt Patches da revista Esquire. O trailer, muito bem feito aliás, complementa “e não tem nenhum humano nele”, entre outras frases que traduzem as diversas impressões que o longa-metragem deixa em quem o assiste. O filósofo Friedrich Nietzsch concordaria, após assistir à animação em “stop motion” idealizada por Charlie Kaufman, dizendo “humana, demasiada humana”.

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O novo trabalho de Kaufman, em parceria com o animador Duke Johnson, utiliza a maioria dos elementos, escritos por ele, já presentes em seus elogiados trabalhos anteriores. É engraçado e inteligente como ‘Quero Ser John Malkovich’ (1999), ousado e sincero como ‘Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças’ (2004). Não é tão metalinguístico e obviamente multicamadas como ‘Adaptação’ (2002), mas é tão instigante e inusitado quanto. A direção não é tão ambiciosa, quanto a de ‘Sinédoque, Nova York’ (2008), porém é do mesmo modo fascinante e mais eficaz em se conectar com o público.

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Animações com temáticas adultas são um tanto quanto raras, aparecendo a cada dois ou três anos. Muitas vezes o gênero é subestimado pelo público maduro e não conta com o apoio financeiro, igual ao das feitas e pensadas para as crianças. Geralmente elas se tornam sucesso de crítica, mas não de bilheteria, como os dramas políticos e de guerra “Persépolis” (2007) e “Valsa com Bashir” (2008). Utilizar a representação da nudez e do sexo de forma despudorada em filmes animados é ainda mais incomum e quando ocorre, quase sempre são em produções não hollywoodianas, como no espanhol ‘Chico & Rita’ (2010) e em vários animes japoneses. A norte-americana mais “avançadinha” neste sentido é a “semianimação” feita em rotoscopia e dirigida por Richard Linklater, ‘O Homem Duplo’ (2006). Porém, poucas tratam a relação sexual de forma tão “real”, com uma dinâmica desengonçada, pouco sensual e com direito a cunilíngua, como nesta escrita por Charlie Kaufman.

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‘Anomalisa’ causa mais estranheza com seu “stop motion”, que não tem a pretensão de imitar os seres humanos, pois suas marcas no rosto deixam evidente que se tratam de “bonecos”, mas isso não os deixa menos expressivos. Algumas séries animadas, que utilizam este recurso de animação, são tão ousadas quanto, como a violenta ‘Celebrity Deathmach’ (1998/2007), entretanto no cinema, poucas são tão existenciais e a medida do possível “realistas”. Com conteúdo existencialista há a, também de Linklater, ‘Waking Life’ (2001), no entanto, seus longos diálogos, não representam tão bem a melancolia, a depressão e o egoísmo humano, presentes nas nossas sociedades cada vez mais individualistas, como no texto de Kaufman.

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O longa-metragem animado é o segundo trabalho como diretor do roteirista consagrado pelos filmes citados anteriormente, mas que já não lançava um longa há sete anos. Sua primeira direção de um longa-metragem, foi o também já mencionado ‘Synecdoche, New York’. Adaptado de uma peça de teatro sonora sua, onde o texto era lido no palco pelos atores, sem cenários e figurinos, a ideia de transformá-lo em um filme animado foi do amigo e produtor Dino Stamatopoulos, sócio do estúdio de animação Starburns Industries, responsável por animar, entre outras, a série Mary Shelley’s Frankenhole (2010 -).

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O longa de animação foi financiado de forma coletiva pelo “Kickstarter”, modalidade de arrecadação conhecida como “crowdfunding”, que pretendia conseguir 200 mil dólares e obteve doações de mais de 400 mil. Quando Kaufman lançou a campanha de financiamento, justificou o pedido por “patrocinadores”, um tanto inusitado para quem já está inserido no mercado, argumentando que a indústria não aceitaria financiar e deixa-lo produzir o filme da forma que ele idealizara. Segundo suas palavras o longa-metragem devia ser feito “fora dos padrões de hollywood”, sendo no mínimo lamentável, que um profissional tão conceituado encontre tanta dificuldade de conseguir uma empresa que investisse dinheiro em um projeto seu. Esse erro em subestimar a obra, ficou ainda mais evidente, depois que o longa animado recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e foi indicado ao Oscar de Melhor Animação.

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O personagem principal da história é o inglês Michael Stone, escritor do livro ‘‘Como posso ajudar a ajudá-los?’’, uma espécie de manual de atendimento ao Cliente. Durante sua viagem aos Estados Unidos, para uma palestra sobre o livro, descobrimos que ele sofre de uma espécie de depressão, tendo perdido o interesse pelas pessoas a sua volta. Depois do seu voo de avião, o restante do enredo se passa basicamente dentro do hotel onde está hospedado e sua atitude em relação as pessoas só se altera quando encontra a personagem Lisa, uma fã de seu livro, que acaba despertando o interesse do escritor por apresentar características diferentes das demais pessoas.

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Para quem tenta interpretar o título do filme, antes de assistir, pode pensar que ele faz uma fusão dos termos Animação + Monalisa, talvez. Durante o decorrer do enredo se descobre de onde vem o nome, ligado a essa personagem importante para o nome do longa, que não é de toda pouco parecida com a Monalisa do quadro. O trabalho de dublagem é fundamental para a construção da narrativa, através das vozes de David Thewlis (Michael Stone), Jennifer Jason Leigh (Lisa) e Tom Noonan (vários). O fato de Noonan dublar todos os outros personagens, inclusive mulheres e os familiares de Stone é o que exemplifica metaforicamente como o personagem principal vê/ouve o mundo.

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No fim, o roteiro não tenta nos entregar nada de edificante, não há redenção moral para Michael Stone. A forma como ele trata Lisa, depois do contato inicial, quando ela não é mais uma novidade para ele; e um presente estranho que o mesmo dá para o filho, não nos permite criar empatia por ele, antes disso, nos faz reconhecer muitos comportamentos humanos egoístas de outras pessoas ou até de nós mesmos. ‘Anomalisa’ certamente é criativo e diferenciado dentro do gênero animado e entra para lista dos melhores filmes introspectivos dos últimos anos, ao lado de outros como ‘Ela’ (2013), de Spike Jonze, antigo parceiro de Kaufman. É difícil que ganhe o Oscar de Melhor Animação, porém, a forma como foi financiado, e o fato de estar concorrendo ao lado de ‘Divertida Mente’, ‘Shaun, o Carneiro’, ‘O Menino e o Mundo’ e ‘As Memórias de Marnie’, já são uma conquista, pois não tem a mesma abertura do mercado voltado para o público infantil, tanto que é o único não recomendado para menores de 14 anos.

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