Se teve um personagem dos quadrinhos que passou por poucas e boas, esse foi o Aquaman. Durante meados dos anos 70 e começo dos 80, mesmo com sua força bem estabelecida e melhor explorada nos quadrinhos, tornou-se galhofa entre o grande público e, mesmo depois de anos, a fama não passou.

Portanto, desde a criação da DC para um novo universo dos cinemas, com Homem de Aço (2013), finalmente o Aquaman ganhou sua nova versão em Liga da Justiça (2017). Com o visual inspirado fortemente nos desenhos de Jim Calafiore, o havaiano Jason Momoa foi o escolhido para finalmente colocar o personagem no topo.

Sendo um dos mais poderosos personagens dos quadrinhos, Aquaman não só se tornou um acerto da DC, como também serviu para excluir o personagem da lista de galhofas. Mesmo depois de Mulher-Maravilha (2017), a DC/Warner ainda não se mostrou estabelecida de produzir bons filmes de seus heróis. Mesmo acertando grande parte, o filme estrelado por Gal Gadot erra em pontos narrativos. Porém, a força da personagem sobressai todas as falhas. A mesma coisa acontece aqui com o personagem marinho.

Com o longa nas mãos de James Wan, já era de se esperar uma direção recheada de bons movimentos de câmera e visualmente bem trabalhado, como o diretor constrói em seus filmes de terror e como também construiu em Velozes e Furiosos 7 (2015).

No primeiro ato, é o momento que Wan mais brilha. Sua estabilidade dos personagens e de todo o universo de Atlântida são muito bem montadas. O visual de cada criatura de cada reino marinho é muito bem construído e criado pelo diretor. O mesmo acontece com suas cenas de ação, que inclusive funcionam muito melhor na parte inicial do longa.

O malaio conseguiu construir características parecidas com o que os games do Batman estabeleceram nos consoles e faz isso de forma grandiosa, principalmente na primeira cena de ação com Nicole Kidman. A partir de movimentos inspirados nos games, Wan a constrói através de um plano sequência visualmente impecável.

Contudo, mesmo acertando na primeira vez, Wan repete o mesmo conceito em praticamente todas as outras cenas de ação, tornando sua direção não só enjoativa, como também enfraquecida. E não é só nas cenas de ação que Wan se demonstra enfraquecido. A partir do segundo ato, a narrativa de Aquaman passa por seus principais problemas.

Com o decorrer da história, a relação entre Momoa e Amber Heard é o que menos funciona no filme. Inclusive, a própria americana não entrega um bom trabalho, apesar de Mera ser bem trabalhada e estabelecida.

O segundo ato inteiro do filme tenta não só trabalhar o romance dos dois – que é mal escrito – como tenta encaixar tons de humor que não agradam. Quanto a história, a trajetória escolhida faz o meio do longa ser cansativo, fazendo com que os personagens caminhem, mas com a história estagnada, dando uma sensação de uma duração mais longa do que exatamente é. Além da narrativa, os personagens também não agradam. Principalmente os vilões.

Wan, ao lado de Geoff Johns, escolheu trabalhar com dois embates para Arthur ao mesmo tempo, ao invés de um. Por mais que a ideia de se trabalhar uma trama paralela seja interessante, aqui, seu uso foi desperdiçado. Enquanto de um lado temos Patrick Wilson – interpretando um Rei Orm caricato e genérico, com uma justificativa até plausível, mas nada bem desenvolvida – do outro temos o Arraia Negra.

Sua participação no longa não agrega. Do mesmo modo que Orm apresenta uma justificativa vilanesca plausível, Arraia também. Porém, sua participação na história não evolui. Da mesma maneira que o personagem começa o filme, ele termina, dando a sensação de que sua participação poderia ter sido guardada para ser verdadeiramente explorada em uma possível sequência.

No filme, sua presença está mais pela pura vingança. Entretanto, se o mesmo não estivesse na trama, o personagem de Arthur passaria pelas mesmas dificuldades e chegaria à mesma conclusão de qualquer jeito.

Sobre outros nomes do elenco, Willem Dafoe não decepciona, mas também não agrega muito como Vulko, o que também acontece com Dolph Lundgren. Nicole, por sua vez, destacou-se, mas pouco positivamente. Apesar de estrelar uma das melhores cenas de ação de todo o longa, sua transformação visual com a mesma tecnologia do bigode do Superman, deu uma nova cara à atriz e uma nada agradável em tela.

Por mais que Wan não tenha conseguido construir uma narrativa consistente no segundo ato, conseguiu acertar em detalhes. Por tratar da origem de Arthur e sua história passada, há uma exigência de flashbacks para contextualizações. No entanto, Wan utiliza da técnica de maneira precisa. O diretor não interrompe o filme para as cenas passadas, criando uma justificativa narrativa para conseguir continuar com que a história presente se mantenha em desenvolvimento, ao mesmo tempo em que uma cena do passado é mostrada.

Por fim, o terceiro ato é conclusão carnavalesca de Wan. Ali, o diretor explora ao máximo o potencial visual do filme, construindo uma batalha gigante e extremamente bem conduzida e recheada de referências que vão satisfazer qualquer fã. Neste momento, todos os problemas narrativos são esquecidos, enaltecendo todo o visual aquático estabelecido pelo malaio, com show off de criaturas em uma guerra aquática de tirar o fôlego, com um belíssimo trabalho sonoro.

Assim, James Wan conseguiu não só estabelecer um Aquaman bárbaro e divertido, como entregou o que a DC estava querendo. Portanto, Aquaman não veio para ser o melhor filme de super herói.

Seu objetivo maior estava em criar uma história divertida e visualmente encantadora, para agradar aos fãs e ao público geral. E, por mais que muitas coisas vão por água abaixo, esse objetivo foi cumprido com esmero, fazendo com que Aquaman se tornasse um dos melhores filmes da DC até então.