O universo feminino após os cinquenta, onde o luxo dá lugar a depreciação e ter que se virar como pode para se manter, são temas abordados em “As Herdeiras” do novato Marcelo Martinessi que estreia essa semana. A história é pincelada levemente de forma compreensível e delicada, onde a deliciosa química entre as atrizes Ana Brun e Margarita Irún garante momentos agradáveis.

O filme começa com um jeito inteligente como se o espectador estivesse brechando por uma pequena abertura de uma janela e dali em diante fosse testemunhar a rotina de um casal lésbico que é afetada por uma crise financeira. Esta sacada interessante do diretor Marcelo Martinessi constrói com eficiência uma amável ode a vetustez feminina, que se apoia no emotivo e sutil roteiro do próprio Marcelo.

Ana Brun, vencedora do Urso de Prata no Festival Berlim em fevereiro deste ano, dedicou sua vitória as mulheres paraguaias ao receber o prêmio. O foco em Chela, sua personagem nos mostra sua angústia em ter como única opção vender objetos de valores materiais e sentimentais, já que se trata de herança familiar. Além disso, contém uma alta dose de ternura no modo como Chela trata as pessoas – mesmo aquelas arrogantes.

Chela e sua companheira Chiquita são herdeiras de uma aristocrata família uruguaia e viveram sob-regalias e conforto por longos trinta anos. Atualmente, as duas estão passando por sérios problemas financeiros, e tendo como alternativa vender seus bens. Todavia, as vendas não são o bastante por conta das dívidas. Chiquita vai parar atrás das grades por causa de fraudes. É aí que casualmente Chela começa a trabalhar como motorista particular para senhoras grã-finas. Durante esse trajeto, ela conhece uma mulher bem mais jovem com quem acaba descobrindo como superar a nova modalidade de vida.

A profundidade deste lindo filme é uma vertiginosa injeção de humanismo que visivelmente as intérpretes fazem questão de passar. O ritmo é lento, porém, não compromete em momento algum, pelo contrário. Seus diálogos reforçam ainda mais o interesse. Devido a isso, o filme é um proveitoso instrumento de discussão sobre não ter idade para recomeçar. Francamente falando, “As Herdeiras” é uma das obras mais dignas a tratar sobre a maturidade feminina que o cinema já nos mostrou.