O sonho de ser jogador de futebol se torna muito mais que um simples sonho quando se tem determinação. Só o almejo também não basta, é preciso talento. É isso que vemos no primeiro longa de Ives Rosenfeld, que, enfim, confirma sua estreia nos cinemas brasileiros. O que mais chama a atenção é o jeito realista de como a narrativa é conduzida por fazer dela uma obra emotiva, focada no desejo de mudar de vida. A pobreza, claro, faz-se presente e é mais uma razão para seus protagonistas quererem uma vida melhor.

Vencedor do prêmio Carte Blanche no Festival de Locarno, na Suíça – que é dedicado a filmes ainda em fase pós-produção feitos por pessoas com aptidões para indústria cinematográfica da América Latina, África, Ásia e da região dos Balcãs. Além de também vencer nas categorias de direção de ficção, atriz coadjuvante (Júlia Bernart) e melhor ator (Ariclenes Barroso) no Festival do Rio, em 2015.

Aspirantes conta a história de Júnior (Barroso) um jovem proletário que joga no time amador Baxaxá F.C.. A vida do rapaz não é um mar de rosas fora do campo: vive sob as humilhações do tio alcoólatra com quem mora, trabalha exaustivamente em um armazém e, como se não bastasse, recebe a notícia de que sua namorada está grávida. Júnior tem um amigo, Bento. Os dois jogam no mesmo time e Júnior, com todos seus problemas, fica com ciúmes quando Bento assina seu primeiro contrato. O porém é que Bento é mais ágil e talentoso que ele, e Júnior contava com seu esforço nos treinos para conseguir sair do sufoco. A partir daí, o espectador presencia uma mudança de personalidade do garoto por ele enxergar seu melhor amigo como um rival dentro e fora do campo.

O longa mostra que um sonho pode ser possível quando se tem maturidade suficiente para encarar os obstáculos que a vida se encarrega de pôr, além de focar é tendencioso se dar por derrotado quando se é jovem. Mas, se a esperança vai por água abaixo, junto a ela vai à motivação como também a vontade de vencer a pobreza. Ives passa isso de maneira precisa e objetiva com a ajuda do elenco que consegue extrair com perspicácia cada um de seus personagens. O motivo de querer fazer um filme sobre o futebol foi a paixão que ele tem pelo esporte. Aspirantes apresenta dois lados facilmente percebidos: o estudo psicológico de Júnior e a crítica social que se torna o cartão postal do filme.

Apesar de como as coisas fluem, a simplicidade é o que dá um certo charme, como a sequência de primeiro plano com os adultos ofuscados muito bem esquematizadas (é impossível não notar esta referida cena da conversa entre o protagonista e a família de sua namorada – em especial a atuação de Karine Teles, que faz a sogra de Júnior). As cenas de futebol são boas, com um jeitinho bem autêntico e brasileiro de se tratar do assunto – de fato, é ágil e bem cuidado. Apesar de certos desfechos dramáticos que em curto prazo se prevalecerem, a atenção é mantida também porque pula de ângulos tanto em atividades esportivas, quanto na tentativa de Júnior superar as dificuldades.

Crítica postada originalmente em 11 de dezembro de 2015.