Tsunamis, terremotos e tornados, desastres naturais que não são causados diretamente pela mão humana. Ainda existe, entretanto, claros desastres nas quais a participação humana foi fundamental, e é exatamente o caso do que ocorreu com o submarino Kursk e seus tripulantes. Em agosto de 2000, um acidente acaba fazendo com que um submarino russo colapse e afunde no Mar de Barents, sem possibilidade de locomoção; os mais de cem tripulantes, assim, se transformam em 23 sobreviventes esperando por resgate, tentando resistir durante dias na única parte que ainda resta do submarino.

Quem conhece tal acontecimento histórico que marcou o povo russo no início do milênio, certamente deve saber seu desfecho, mas ainda assim a obra como um todo ainda deixará tais espectadores aflitos e emocionados durante o desenrolar da trama – além de, facilmente, conquistar a atenção dos não familiarizados com tal desastre. Ainda assim, vale ressaltar que esta crítica não será contemplada com possíveis spoilers, os quais poderiam estragar a experiência do público ainda incerto sobre o iminente desfecho de Kursk – A Última Missão.

Dirigido por Thomas Vinterberg, chega a ser redundante indicar que o longa-metragem é, literalmente, de tirar o fôlego. Acompanhar, durante mais de uma hora, um grupo de pessoas resistindo dentro do que restou de um frio e silencioso submarino colapsado, abaixo de mais de 100 metros da superfície, faz com que toda a experiência beire à agonia.

Para complementar uma mistura de sentimentos guiados pela trama, o espectador é apresentado de forma bastante emotiva ao protagonista que lidera os sobreviventes em sua esperança de resgate, além de também conhecer os membros de sua família – sua mulher grávida e seu pequeno filho –, fazendo com que, não só angustiante, se torne desesperador cada minuto a mais que os personagens se encontram confinados ali – o público teme, portanto, não só por eles, mas também por suas famílias. Além disso, a relação de cada um dos personagens abordos do submarino também ajuda na obtenção de uma relação emotiva com o espectador, pois vê-se claramente que compuseram, uns com os outros, uma família por si só.

Mas não só sobre sobrevivência, Kursk – A Última Missão se prova uma obra que vai muito além disso, abordando o ego humano de forma intensa e bastante política. O governo russo, em suas tentativas de salvar os sobreviventes do acidente, percebeu logo de cara que sua tecnologia não seria o bastante para resgatá-los, mas continuou por negar ajuda de outros países para resgatar seus tripulantes em perigo. Pelo simples temor de ser humilhado publicamente perante os olhos de outras nações, a Rússia constantemente mentiu para as famílias dos sobreviventes e negou qualquer ajuda da Noruega e Grã-Bretanha durante muito tempo.

Diante da dinâmica proposta pelo diretor, assim, fica cada vez mais claro ao público, a cada minuto a mais que os sobreviventes permanecem famintos e congelando no fundo do mar, que o sofrimento destes é justamente pelo ego político presente nas relações de poder russo naquele momento. É possível, inclusive, relacionar tal acontecimento com os trágicos eventos de Chernobyl, mesmo que o desastre de Kursk tenha menor intensidade: uma sequência de mentiras e burocracias desnecessárias, as quais valorizavam mais a imagem política do que a vida de sua população, fizeram com que o inimaginável acontecesse. Vinterberg traz, assim, uma reflexão significativamente relevante não só para os dias de hoje, mas também para toda a História humana: até que ponto questões políticas devem estar acima da própria vida humana?  

É inegável, entretanto, que diversos momentos ao longo da obra foram inventados e/ou alterados para fins dramáticos, pois determinados pontos ao longo da narrativa não se mostram realistas da forma a qual são apresentadas. Um exemplo é o oficial da marinha britânica interpretado por Colin Firth, o qual é apresentado de forma um tanto maniqueísta, se mostrando puramente bonzinho demais em seus interesses de prestar ajuda ao ocorrido, insistindo diversas vezes que suas intenções são puramente morais, e não políticas. É um tanto pouco verossímil que um país optasse por gastar milhões em procedimentos para salvar soldados russos sem nenhuma segunda intenção, além da bondade de seus corações.

Ainda assim, a obra consegue atingir seus objetivos principais, fazendo com que seus espectadores se revirem na poltrona, torcendo a cada momento pela salvação daqueles pobres homens que só estavam fazendo seus trabalhos, e agora anseiam mais do que tudo voltar para suas famílias. Kursk – A Última Missão, portanto, se guia na aflição e na emoção para mostrar um caso onde a burocracia falou mais alto do que a própria vida humana – não a primeira vez, e nem a última –, trazendo uma significativa e forte reflexão muito bem vinda em uma obra que, por si só, semeia um trágico momento da História russa com uma excelente e eficaz direção.