‘Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)’ filme com o qual o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu venceu o Oscar 2015, nas categorias Melhor Diretor e Melhor Filme, é uma crítica explícita às adaptações de quadrinhos que se proliferaram em Hollywood nos últimos anos (você pode encontrar nossa crítica do longa-metragem, publicada na época da estreia, neste link:

‘Birdman’: crítica). Em seu discurso, ao receber o prêmio de direção, o cineasta falou sobre a “verdadeira arte”, reacendendo uma discussão antiga entre o “cinema arte” e o “cinema entretenimento”. Essa já é uma briga de longa data, que começou antes mesmo do advento do cinema, provavelmente desde que se iniciou a produção de uma “cultura de massa”, através de uma “indústria cultural”.

Essa cultura de massa, mais conhecida como cultura popular ou “pop” já passou por todo tipo de análise e discussão nos meios acadêmicos, abordadas por intelectuais como Theodor Adorno, que foi um dos cunhadores do termo “Indústria Cultural” e afirmava, entre outras coisas, que “o valor crítico dessas formas artísticas é neutralizado por não permitir a participação intelectual dos seus espectadores”. Hannah Arendt, em ‘A Crise da Cultura’, disse, que “tópicos ‘tépidos, suaves e sem sentido’ estão se tornando a norma”). Também, Noam Chomsky, considera que “a massificação da cultura se dá através de um artifício totalitário, servindo a interesses econômicos”, entre outros inúmeros pensadores que abordaram e ainda estudam o tema. Sobre a briga “arte falsa versus arte verdadeira” ou “cultura ruim versus cultura boa”, durante a história das artes, o teatro já foi considerado um tipo de arte “menor”, por adaptar textos escritos para um público “iletrado”. O trabalho de atores, no início do cinema, já foi considerado inferior ao dos atores de teatro, como os das cobiçadas peças da Broadway. Da mesma forma a música popular sempre foi depreciada em comparação com a música clássica, assim como os quadrinhos em relação a literatura de prosa e poesia.

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Ainda que geralmente as críticas questionem a “qualidade artística”, o maior problema da cultura de massa, apontado por intelectuais de todas as áreas, como sociólogos, filósofos, pesquisadores de estudos culturais, entre outros, é quanto ao caráter social, padronizador e alienante deste tipo de arte. Ao que tange aos filmes de quadrinhos, o público geralmente está mais interessado em um entretenimento escapista, onde o visual e os efeitos especiais são a atração principal, mesmo considerando que esses longa-metragens estejam tentando diversificar seu formato narrativo e de debate social, nos últimos anos, como em ‘Capitão América 2: O Soldado Invernal’ de 2014 e ‘Capitão América: Guerra Civil’ de 2016. No mundo do cinema, não só os filmes de adaptações de quadrinhos, são alvos das críticas mais negativas, pois, a indústria de Hollywood como um todo é constantemente questionada, principalmente por causa de seus longas de ação, comédias, terror e romances, o popularmente chamado “cinema pipocão”, que produz refilmagens e continuações, em geral, muito parecidos entre si e que se aproveitam da tendência da vez, majoritariamente voltados para um público adolescente.

Além de discutir a qualidade destas produções, os maiores críticos questionam, também, a concorrência desleal destes produtos, que na maior parte do ano, ocupam a maioria das salas de cinema e a agenda dos melhores atores. No enredo do próprio ‘Birdman’, em um diálogo entre o ator, personagem principal, (Riggan Thomson) e o produtor (Brandon), interpretados por Michael Keaton e Zach Galifianakis, eles questionam a dificuldade de contratar atores, para participarem de sua peça, por estarem todos envolvidos com filmagens de filmes comerciais, como ‘Jogos Vorazes’ e ‘Vingadores’. Este não é o único longa-metragem recente, a questionar o mercado cinematográfico norte-americano, no filme francês, ‘Acima das nuvens’, de 2014, com Juliette Binoche, que vive o papel de uma atriz de renome, que é contestada por algumas pessoas, por causa do fato de ter se rendido a um papel em um filme de super-herói, mais especificamente da franquia ‘X-Men’, considerado inferior ao seu talento. Aliás, trabalho que premiou Kristen Stewart, com o Prêmio César de Melhor Atriz Coadjuvante, de certa forma, também um tapa da cara de Hollywood, que desperdiça o talento de alguns atores e atrizes, em franquias como ‘Crepúsculo’.

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A própria biografia de Keaton, como ator, é um exemplo de como esses filmes podem aumentar o cache de um artista por um tempo, mas por vezes, acabam limitando sua oferta de trabalho. Esse fenômeno aconteceu durante anos, também, com atores intérpretes de outros personagens como o Super-Homem, com os atores Christopher Reeve e Brandon Routh, no cinema e ocorre, também, em séries de TV, como com os atores George Reeves de Super-Homem de 1953, Dean Cain de ‘Lois & Clark – As Aventuras do Superman’ e Tom Welling de ‘Smallville’, que ficaram marcados por seus papéis nas séries e que não conseguiram outros papeis relevantes. Claro que o talento deles deve ser considerado, também, nesta conta, mas é inegável que sua identificação com a figura do personagem, atrapalha que consigam outros trabalhos. O enredo inteiro de ‘Birdman’ é uma construção metalinguística, que critica a indústria cinematográfica como um todo, fazendo uma analogia com a própria carreira de Keaton, que interpretou Batman nos dois filmes dirigidos por Tim Burton e depois trabalhou em poucos longas de sucesso. Mesmo os longa-metragens de Burton não levavam seu personagem a sério, pois já eram uma sátira do mundo dos quadrinhos, que depois viraram um escárnio ridículo na direção de Joel Schumacher, sendo que Batman só foi tratado com maior respeito, no cinema, com a trilogia de Christopher Nolan.

Definir o que é arte ou o que é “cultura boa” ou “cultura ruim” é uma pretensão, praticamente impossível e geralmente quem as diferencia, o faz com alguma arrogância preconceituosa ou elitista. Quase sempre o tipo de arte ou cultura consideradas “superiores ou verdadeiras” são as produzidas por uma elite econômica ou intelectual. Obviamente que existem produções artísticas e culturais que utilizam técnicas mais elaboradas ou com maior grau de inventividade e erudição e que a maior parte do público que lota as salas de cinema para assistir os filmes de maior sucesso, não é intelectualmente muito exigente. No entanto, a importância de um produto artístico cultural deve ser medida pela sua capacidade de significar, representar ou expressar caraterísticas de determinado indivíduo ou grupo social. Porém, é inegável que o mercado do entretenimento, não abre muito espaço, para o que não é tendência e o que é ditado por quem domina os meios de comunicação e por isso produções estrangeiras, como filmes europeus e orientais, além dos documentários, tem dificuldade de chegar a públicos maiores e são considerados “chatos” por espectadores despreparados e desacostumados com produções que fogem do “senso comum”. Entretanto, não é por que algum produto artístico é feito com o intuito de entreter e ganhar dinheiro com isso, que é exatamente ruim. A primeira trilogia ‘Star Wars’ e ‘O Senhor dos Anéis’, estão aí para provar isso.

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A crítica de Iñárritu feita através de seu filme, como forma de expressão de suas frustrações como cineasta, que começou com todas as dificuldades de se produzir uma obra audiovisual, no México, sem a o auxílio das grandes corporações é válida e deve ser refletida. Principalmente quando levamos em conta o monopólio que as grandes distribuidoras têm das salas de cinema, que impedem que filmes como os que concorrem todos os anos, no Oscar, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Documentário, ou mesmo os de festivais internacionais e independentes, mesmo os mais prestigiados, que na maioria das vezes, alcançam um público muito reservado, por falta de distribuição mais ampla. Isso tudo fundamenta a reclamação do diretor mexicano.

No entanto, não podemos negar a hipocrisia desse julgamento ser feito em uma premiação, onde a maior parte dos atores indicados, estavam trabalhando em adaptações de longas baseados em quadrinhos. Os próprios trabalhos mais recentes de Iñárritu, não são exatamente o que se pode chamar de cinema “não-comercial”, pois ele também teve que se adaptar para conseguir espaço na indústria. Deve-se também levar em consideração, que esses filmes que arrecadam quantias aproximadas de cifras bilionárias, sustentam toda uma cadeia cinematográfica que mantém diretores consagrados, mas que lucram pouco, como a Woody Allen, até diretores iniciantes e independentes que captam recursos junto a empresas menores associadas a grandes estúdios. Críticos de cinema e estudiosos das artes e estudos culturais mais experientes, reconhecem o valor de produtos culturais comercias, ainda que admitam seu caráter majoritariamente hedonista, politicamente totalitário e de caráter aculturador. Acima de tudo, defendem que cabe ao público buscar conhecimento e educação, que os permita apreciar todo tipo de manifestação cultural e que seria ainda mais errado censurar a cultura popular, mesmo a mais comercial, de forma moralista, ao invés de esclarecer os espectadores.

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Após a declaração do diretor de ‘Birdman’ no Academy Awards, entre outras críticas aos filmes de quadrinhos, como a música cantada por Jack Black, na mesma cerimônia, o diretor James Gunn (‘Guardiões da Galáxia’), saiu em defesa do gênero, em sua conta do Facebook. Entre outras coisas, mencionou que as adaptações de quadrinhos são feitas com o mesmo amor, que qualquer outro, em suas palavras: “ Se você acha que as pessoas que fazem longa-metragens de super-heróis são idiotas, levante-se e diga que nós somos bobos. Mas se você, como um cineasta independente ou um cineasta ‘sério’, acha que coloca mais amor em seus personagens do que os irmãos Russo fizeram com o Capitão América, ou Joss Whedon faz com o Hulk, ou eu com um guaxinim falante, você está simplesmente equivocado.” Independente das opiniões de Gunn ou Iñárritu, o certo é que existe espaço para todos os tipos de produção artística e um público que cada vez menos sai de casa, a ser conquistado e convencido a continuar frequentando as salas de cinema, na era da internet. Os próprios filmes adaptados de quadrinhos têm tentado evoluir e explorar gêneros narrativos diferentes, como o do cinema de espionagem, comédia e policial, para manter o interesse dos espectadores mais exigentes.

Mesmo ações como leis de reserva de mercado, como a existente no Brasil, que obriga as salas a ter um mínimo de exibição de longas nacionais, não consegue garantir a competitividade e a qualidade do que é exibido, já que mesmo dentro da nossa produção nacional, temos filmes de qualidade artística questionável. Se o cinema de ficção, que não é voltado exclusivamente para o entretenimento, tem cada vez mais dificuldades de levar o público ao cinema, isso é ainda mais difícil para os longa-metragens mais autorais e documentários. Resta ter esperança que no futuro, serviços de streaming equilibrem um pouco a balança e levem a um público maior, longas que não encontram espaço nas salas de cinema e criem um mercado sustentável para cineastas que fazem produções “não tão comerciais”.

Ainda que Iñárritu tenha razão ao criticar a indústria do entretenimento em ‘Birdman’, seu discurso no Oscar, como disse James Gunn, está um pouco “equivocado”. Principalmente pelo fato de ele julgar que os filmes que critica, disputam o mesmo público de suas histórias, generalizando os espectadores, pois as pessoas que assistem as produções mais autorais, no cinema, não são necessariamente os mesmos que assistem documentários, longas franceses, animações, filmes de ação, etc. Da mesma forma, comparar a qualidade artística de cada tipo de produção cinematográfica com os mesmos critérios, incide em erro, pois cada um é feito com um propósito e para um universo cultural diferente.

Discurso de Alejandro G. Iñárritu, no Oscar 2015, após receber o Prêmio de Melhor Direção: