Nesta quinta-feira (27), estreou nos cinemas o drama sertanejo ‘Coração de Cowboy’. O filme conta a história de Lucca (Gabriel Sater, filho do cantor Almir Sater), um cantor de sertanejo universitário extremamente popular que se sente obrigado pela empresária a gravar hits cada vez mais pegajosos e com pouca profundidade.

Após uma desavença no estúdio de gravação, Lucca retorna à sua cidade natal no interior de São Paulo em busca de inspiração para se reconectar com suas raízes e com o pai, Joaquim (Jackson Antunes), confrontando feridas deixadas abertas no passado. Lá ele também reencontra Marcelle (Thaís Pacholek), uma antiga companheira de música e conhece e se aproxima de Paula (Thaila Ayala), uma destemida dona de bar por quem acaba se interessando.

O Super Cinema Up bateu um papo com o elenco e com o diretor do longa, Gui Pereira, para saber um pouco mais sobre o processo de criação de ‘Coração de Cowboy’ e o que ele representou nas vidas de cada um deles. Confira a entrevista completa abaixo:

 

Super Cinema Up: Gui, é a sua estreia como diretor de um longa-metragem, de onde veio a inspiração para fazer o ‘Coração de Cowboy’?

Gui Pereira: Eu sempre me interessei muito pela temática sertaneja, sempre fui fã da música e do próprio universo, bota, chapéu, cinto, etc. Então foi uma consequência, eu quis escrever o tipo de filme que eu gostaria de assistir.

Super Cinema Up: E de onde vem a ligação de vocês com o universo sertanejo?

Gui Pereira: Eu sou daqui de São Paulo mesmo, sou da Mooca. Só que todo final de semana, férias, eu ia muito para Jaguariúna, um tio tinha sítio lá. Então o sertanejo sempre fez parte da minha vida.

Thaila Ayala: Eu sou de Presidente Prudente e desde que eu me conheço por gente, todas as minhas memórias afetivas de infância têm ligação com a música sertaneja. Meu pai ouvia Rio Negro e Solimões, Milionário e José Rico, Chitãozinho e Xororó, então, fazer o filme foi realmente uma volta às minhas origens.

Thaís Pacholek: Eu sou curitibana, mas fui criada no interior do Paraná, numa cidade chamada Jacarezinho. Eu amo música sertaneja, sempre gostei. Conhecer meu marido (o cantor Belutti, da dupla Marcos e Belutti), que trabalha com música sertaneja, foi por acaso. E no dia-a-dia ele curte mais outros gêneros, mas no meu carro, por exemplo, você vai escutar muita música sertaneja, porque eu gosto de ouvir bem alto, dançar, etc. Eu amo mesmo música sertaneja (risos).

Super Cinema Up: Como vocês contaram um pouquinho na coletiva, ao contrário do que muitos podem pensar, o filme não é necessariamente uma crítica ao mercado atual da música, não é?

Gui Pereira: Exatamente, ele é mais uma crítica ao ser humano, à pessoa que se vende e perde sua identidade, suas raízes. Acho que esse é o ponto principal, você tem que dançar junto conforme a música, mas não é só porque um tipo de sertanejo vende mais que você tem que perder sua identidade e cantar somente músicas sobre “cachaça no Guarujá” (risos). Então você pode se atualizar, não sou contra a atualização da música, mas sou contra você perder completamente sua origem e o que você representa.

Thaís Pacholek: Eu traço um paralelo muito moderno, digamos assim, para entender. Eu sou uma atriz que, para mim, não é orgânico por exemplo, pegar o celular e dizer “oi gente, estou dando aqui uma entrevista muito legal…”, ou seja, eu não tenho isso dentro de mim. Mas, como atriz, eu preciso entrar nessa modernidade, encontrar um equilíbrio. E eu acho que o filme trata exatamente isso dentro do universo sertanejo, qual é o equilíbrio que o personagem Lucca precisa encontrar para não fugir do que ele acredita? O que a Marcelle pode fazer para continuar compondo suas músicas e continuar cantando da forma que ela quer? Então não é mesmo uma crítica, mas encontrar um equilíbrio dentro disso tudo que a gente vive hoje.

 

 

Super Cinema Up: Gui, o filme me fez lembrar de um longa da Sofia Coppola, ‘Um Lugar Qualquer’ (‘Somewhere’, 2010), que também conta a história de um artista famoso que está sempre em hotéis chiques e rodeado de mulheres bonitas, mas que em determinado ponto da carreira sente aquele vazio por dentro, a necessidade de estar junto das pessoas que realmente importam para ele.

Gui Pereira: Sim, eu adoro este filme, inclusive. E você tem muita razão nisso.

Super Cinema Up: E isso acaba tornando seu filme mais interessante porque ele passa a ter uma abordagem mais pessoal do que ‘global’, digamos, do mercado, focando mais na importância de se reconectar com as raízes e com a família.

Gui Pereira: É isso mesmo, o filme é muito humano, é sobre relações, pessoas, conflitos que qualquer um de nós podemos ter, você, eu… Então, acho que foi exatamente isso que eu busquei.

Super Cinema Up: Thaís e Thaila, vocês já são atrizes há um bom tempo, fizeram várias novelas e filmes, e entrando em um dos temas que o filme toca, o que traz inspiração para vocês, o que as atraem ao escolher seus projetos?

Thaís Pacholek: Na verdade eu sou muito aberta às oportunidades, sou muito religiosa e peço muito a Deus que os projetos que cheguem a mim, venham com a minha energia, e foi o que aconteceu com o Coração de Cowboy. Eu não preciso trabalhar pelo dinheiro, então eu trabalho com o que eu gosto de fazer, com o que faz meu coração disparar (risos).

Thaila Ayala: Varia muito, acho que cada trabalho te exige lugares diferentes, por exemplo a Helô, que estou fazendo para uma série da Netflix, é uma mulher de 1959, uma jornalista que luta pra caramba pelo espaço da mulher naquela época, feminista, então eu fui ler Simone de Beauvoir, entende? Para fazer a Paula, eu procurei estar mais tempo no interior, pedi para chegar antes das minhas datas de filmagens para que eu tivesse mais essa reconexão com o sotaque, com a vida no campo, voltar a escutar o sertanejo que eu já ouvia e coisas novas também, então acho que cada trabalho nos traz a lugares diferentes.

Super Cinema Up: Gui, todo o elenco elogiou a forma como você trabalhou com eles, conversando bastante, escutando e eu queria saber o que você achou, como foi dirigir a Thaila, o Gabriel e a Thaís?

Gui Pereira: Eles têm o crédito deles, porque todos são artistas que trouxeram perguntas muito relevantes, e que acrescentaram muito ao roteiro. Coisas que eu nem estava pensando para tal cena, a Thaila às vezes falava alguma coisa que eu pensava, verdade, dá para fazer uma dinâmica diferente aqui, etc. Então, o fato de eles terem um conhecimento muito grande dos próprios personagens, ajudou essa elaboração ainda mais legal que a gente teve nos sets de filmagem.

Super Cinema Up: E sobre as participações especiais, há várias ao longo do filme, como você fez para convidar tantos artistas a se envolverem no projeto?

Gui Pereira: Eu já conhecia o Chitãozinho e o Xororó, tínhamos feito alguns trabalhos juntos e o primeiro convite foi feito a eles, obviamente, porque eu precisava deles para homenageá-los. E eles já conheciam meu trabalho em alguns curtas, então confiaram e vestiram a camisa do projeto. E a partir do momento que você tem Chitãozinho e Xororó no projeto, é muito fácil chegar em outros artistas, como Rio Negro e Solimões, e explicar essa homenagem. Aí eles toparam na hora (risos).

Lembrando que ‘Coração de Cowboy’ já está em cartaz nos cinemas e o elenco conta também com Jackson Antunes, Françoise Forton, Guilia Nassa e Guile Branco, e a trilha sonora foi composta por Lucas Lima, integrante da Família Lima.