A vida é um grande jogo de cartas e quando todos na mesa estão tramando seu movimento, uma reviravolta pode acontecer a qualquer momento. No bom e tradicional jogo de buraco,  uma “canastra suja” é aquela que o jogador monta uma sequência de 7 cartas ou mais e usa um coringa para substituir o valor de umas delas.
O suspense dramático de mesmo nome, dirigido por Caio Sóh, mostra como uma família do subúrbio do Rio de Janeiro tem o seu naipe familiar destruído por um jogo onde o coringa acaba dando as cartas de muitos personagens e mudando a vida de todos para sempre. O quinto longa do diretor reúne um elenco poderoso para contar uma história onde apresenta uma critica visceral das várias facetas contemporânea da sociedade brasileira em 120 minutos de filme.
A trama gira em torno do núcleo familiar formado por Batista (Marco Ricca), que tenta vencer o alcoolismo frequentando reuniões dos alcoólicos anônimos depois muita insistência da mulher e dos filhos.  A esposa, a devotada dona de casa Maria (Adriana Esteves), diante das crises do esposo e das dificuldades da família, tenta reunir os três filhos: A fogosa e responsável Emília (Bianca Bin); Rita (Cacá Ottoni), a caçula que tem problemas mentais; e Pedro (Pedro Nercessian)  que vive em choque com o pai. Pedro busca independência, enquanto o pai não quer perder o controle masculino da família para o jovem, que está se tornando adulto. Numa tentativa de melhorar as coisas e se aproximar mais do filho distante, Batista o leva para trabalhar com ele.  E é aí que as cartas do jogo são postas na mesa e somos levados a conhecer os mistérios dessa família pouco a pouco.

O diretor opta por muitas vezes por planos em primeira pessoa com uma câmera na mão que aumentam imersão do espectador nos diálogos e conflitos dos personagens, ao mesmo tempo que os expõe em situações limites. E usa situações comuns no dia a dia para fazer críticas, como um funcionário que, acusado de roubo, é demitido sem provas, e um jovem, querendo ganhar dinheiro fácil, que descobre que nem tudo é fácil nessa vida.
A atriz Adriana Esteves, além de matar a saudades dos fãs com seus gritos histriônicos que ficaram eternizados na novela “Avenida Brasil”, entrega uma atuação visceral de uma dona de casa que vive no limite entre se manter no alicerce da família como mãe, e ter desejos de uma mulher que se sente desprezada pelo marido.
O núcleo familiar sustenta todo o filme com sua ruína construída através dos segredos de cada um dos personagens que vão sendo revelados. Só que a trama perde o folego para uma resolução confusa que deixa algumas lacunas, devido a pressa para retomar o flash forward que abre o filme. Como num jogo de buraco com uma boa mão, às vezes se perdemos o momento certo de baixar as cartas, podemos  perder a chance  de ganhar e o mesmo acontece com o longa que se contenta com uma canastra suja quando poderia fazer muito mais pontos com o bom jogo que tinha nas mãos.