“Imagine se fosse um homem negro sendo estrangulado por um homem branco ou se fosse um homem gay sendo estrangulado por um hétero?”

As palavras pesadas da atriz Rose McGowan (‘Pânico’, ‘Charmed’, ‘À Prova de Morte’), sobre o cartaz de divulgação do novo filme ‘X-Men: Apocalipse’ nortearam o noticiário cinematográfico nesta sexta-feira. Além dos problemas de bilheteria que a produção do filme já vinha enfrentando, o marketing do esperado blockbuster agora está sendo acusado de ser misógino e de incentivar a violência contra mulheres.

O cartaz principal de divulgação do filme mostra a mutante Mística (Jennifer Lawrence) sendo enforcada pelo vilão Apocalipse (Oscar Isaac). A imagem é inegavelmente forte, mas para muitos fãs da série de quadrinhos ela apenas enfatiza a violência do vilão contra a, no caso, heroína feminina, e não uma cena de agressão de um homem sobre uma mulher. Se a imagem enfatiza a violência contra o sexo feminino ou não, fica claro que a produção não foi feliz ao escolher a imagem dos banners e outdoors, acompanhada ainda da frase “Apenas os fortes sobreviverão”.

jennifer-lawrence-image-x-men-apocalypse MINI

Em seu Facebook, a atriz Rose McGowan criticou a exposição das imagens: “Existe um grande problema quando homens e mulheres na 20th Century Fox acreditam que violência casual contra a mulher é uma forma de promover um filme. Não há nenhum contexto na propaganda, apenas uma mulher sendo estrangulada. O fato de ninguém ter sinalizado isso é ofensivo e, francamente, estúpido”, disse Rose.

“Os gênios por trás disso, e eu uso esse termo levianamente, precisam olhar por um bom tempo para o espelho e verem como estão contribuindo para a sociedade. Imagine se fosse um homem negro sendo estrangulado por um homem branco, ou um gay sendo estrangulado por um hétero? O clamor seria enorme. Então vamos corrigir esse erro. Fox, já que vocês não conseguem colocar diretoras mulheres em seu cronograma de filmes pelos próximos dois anos, que tal apenas substituir esse anúncio?”, indagou McGowan.

A violência contra as mulheres vem sendo o tema mais debatido das últimas semanas no Brasil, devido ao terrível caso da adolescente estuprada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro. É uma pena que tal tragédia tenha que ter acontecido para que o tema fosse levado a sério no país. A polêmica sobre as imagens de divulgação de X-Men: Apocalipse é apenas mais uma oportunidade para pensarmos sobre.

Será que contribuímos diariamente para uma cultura de violência contra mulheres? Será que divulgar uma imagem de agressão de um homem sobre uma mulher (afinal, é o que os atores são) para divulgar um filme infantil é uma boa ideia? Que o tema deve ser debatido é irrefutável. Negar que a imagem pode ser interpretada dessa forma é irresponsável, não sabemos se era a intenção dos produtores ou não, provavelmente não, mas devemos ser responsáveis pelo o que nos representa, ou pelo o que representa nosso trabalho.

No cinema, vários filmes debateram o tema durante as décadas. Fique com algumas sugestões de títulos recentes e importantes sobre machismo, feminismo, misoginia e violência contra mulheres:

Terra Fria (Niki Caro, 2006)

TERRA FRIA

Baseado em um caso real, o filme conta a história de uma mulher que abandona o marido que a violentava para procurar um emprego e sustentar seus dois filhos sozinha. Aimes vai trabalhar em uma mineradora de ferro no interior do estado de Minnesota, nos EUA, e por ser uma das poucas mulheres que trabalhavam no local, a personagem sofre com os abusos masculinos que vão desde xingamentos até agressões sexuais. Sem conseguir lutar contra, ela decide entrar com uma ação judicial contra a empresa, sendo propositora da primeira ação coletiva por assédio sexual dos Estados Unidos, iniciando um marco de lutas feministas no país e no mundo.

O Sorriso de Mona Lisa (Mike Newell, 2003)

MONA LISA

O filme conta a história de um grupo de mulheres em uma universidade americana nos anos 50, mas que mesmo com a educação de primeira, almejavam se tornarem boas esposas. Uma professora de artes da universidade começa a mudar as referências e sonhos das garotas e as convida para assumirem seu protagonismo na sociedade.

Acusados (Jonathan Kaplan, 1988)

Os Acusados

O filme conta a história de uma jovem que é estuprada por um grupo de homens em um bar nos Estados Unidos. Sem testemunhas, ela denuncia a agressão, mas sofre inúmeros preconceitos e descréditos do sistema judicial do país que a coloca sob suspeita, indicando que suas ações teriam provocado o estupro. O filme conta com uma das cenas mais chocantes de estupro da história do cinema, que rendeu grande notoriedade à atriz Jodie Foster.