Mesmo com as divulgações dos trailers de Power Rangers (leia mais) e Logan (leia mais), a última quinta-feira (19) ficou marcada com o polêmico vídeo vazado do set de gravações do longa ‘Quatro Vidas de um Cachorro’, onde, durante a gravação de uma cena, um pastor alemão sofre maus tratos. O vídeo gerou revolta na internet, provocando o cancelamento da pré-estreia (leia mais) e até movimentos de ONGs, como a Peta (People for the Ethical Treatment of Animals), para boicote ao longa.
Devido à grande polêmica, investigações serão feitas e a equipe do filme pode pegar até seis meses de cadeia (leia mais). Em seu Twitter, o diretor do filme, Lasse Hallström, informou que não estava presente na cena e que toda a equipe estava empenhada para construir um ambiente amoroso e seguro para os animais. O diretor também informou que prometeram uma investigação completa e que qualquer irregularidade será informada e punida.

Mas não é de hoje que Hollywood passa por problemas parecidos, e se com pessoas já existiam casos assim, com animais não era diferente. Sabe a frase “nenhum animal foi maltratado ou ferido durante a realização deste filme”, presente nos créditos dos filmes que contém animais? Bem, essa frase é uma classificação concedida por um órgão norte-americano chamado American Humane Association (AHA), e, para ela ser inserida nos créditos, as filmagens devem ser monitoradas por representantes da organização. Porém, não foram todas as vezes que existiu uma regulamentação para a proteção dos animais.

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Se em 1980 a internet tivesse o poder que ela tem hoje, ‘Holocausto Canibal’ nunca seria lançado. Famoso por ser um dos filmes mais polêmicos da história do cinema, o longa dirigido por Ruggero Deodato é importante por dar uma visibilidade ao formato found footage, mas ficou mais conhecido devido a suas cenas de mutilação e mortes reais de animais, além de Deodato ter sido acusado de obscenidade e por ter feito um filme snuff, categoria dada a vídeos ou filmes que mostram mortes reais. Deodato conseguiu provar que não houve mortes de seres humanos, mas o filme causou a morte de uma tartaruga, um macaco, uma tarântula, um quati, um porco e uma cobra.

Em 1936, ainda sem leis contra abuso de animais, o diretor e produtores de ‘A Carga da Brigada Ligeira’ exploraram inúmeros cavalos, que morreram por ferimentos causados pelas cenas de batalha. Com toda a revoltada que gerou, o congresso americano decidiu criar leis de proteção aos animais no cinema. E não ficamos apenas com filmes antigos. ‘Água Para Elefantes’ (2011), ‘As Aventuras de Pi’ (2012) e a trilogia de ‘O Hobbit’ também ganharam suas polêmicas. ‘O Hobbit: Uma Jornada Inesperada’ (2012) causou a morte de 27 animais, incluindo galinhas, ovelhas, cabras e cavalos.

E os maus tratos, em sua maioria não acontecem apenas durantes as filmagens, mas antes também. Separação precoce da família e do habitat natural, confinamento, abuso físico e psicológico, além de adestramentos violentos, com choques ou cabos de vassoura. Como se não bastasse, animais selvagens podem sofrer abandono após não servirem mais para os treinadores.

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Lembra da AHA que eu comentei lá em cima? Então, no ano de 2013 foi feita uma reportagem para a revista ‘The Hollywood Reporter’ sobre o trabalho ruim da organização. De acordo com a reportagem – que pode ser lida aqui em inglês (link) – a organização não fiscaliza a pré-produção e nem o treinamento dos animais fora dos sets, e que ela não tem poder de parar a filmagem ou aplicar multas. Outro problema é que a organização não consegue fiscalizar todos os sets, devido a datas, local da gravação e falta de funcionários, onde muitos fiscalizam uma filmagem por apenas cinco minutos porque devem ir correndo para fiscalizar uma outra.

Há um outro problema, a AHA é uma organização financiada por quem trabalha em Hollywood, incluindo atores e produtores, ou seja, quem fiscaliza os filmes são os mesmos que os fazem, e, já que não é uma organização do governo, não existem leis para divulgação de dados, algo que possibilita o encobrimento de acontecimentos. Dificilmente a organização faz alguma reclamação formal sobre uma produção ou impede o filme utilizar o seu selo, que, atualmente, não vale muita coisa, já que ele representa que aquele animal que morre no filme, não morreu realmente na frente das câmeras.

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Em um artigo publicado no portal vegano “Vista-se”, o cineasta Carlos Daniel Vallada, 29 anos, tratou sobre o assunto e ao abordar sobre as alternativas de não usar animais no cinema disse que há diversas maneiras de representar os animais em uma cena e que isso deve ser uma preocupação dos realizadores. “O cinema, assim como outros tipos de arte, já depende de diversos tipos de limitações técnicas de seus realizadores (…) Ora, quando você quer fazer um filme com explosões, desmembramentos, sangue, alienígenas, dinossauros, você lida com dificuldades técnicas para representar essas coisas”, escreveu o cineasta.

Sobre o treinamento desses animais, a chefe executiva da organização Animal Defenders International (ADI), Jan Creamer, disse à Agencia de Notícias de Direitos Animais (ANDA) que os atores e que os produtores querem acreditar que todos os animais são treinados com amor e gentileza, mas conseguiram provar uma realidade diferente. “A maneira como estes animais são treinados e o que o público tem acesso é muito diferente’, acrescentou Jan. Ela também disse que a experiência cinematográfica que esses animais possuem dariam o direito de viver como verdadeiras estrelas. “A ADI tem filmado nos últimos anos os animais em treinamento para filmes e comerciais e a verdade sobre a vida desses animais é aterrorizante (…) É hora de banir o sofrimento desses animais. Produtores precisam começar a se perguntar se é realmente necessário usar animais que vivem de forma miserável em suas produções”, concluiu.

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Entretanto, em meio a um universo sombrio do cinema com os animais, certas produções trabalham de maneira correta com os bichinhos. Durante as filmagens de ‘A Força do Coração’ (1943), onde temos a apresentação da cachorrinha Lassie, mais de 17 cachorros da mesma raça foram utilizados, já que um animal não pode gravar durante muito tempo seguido devido ao psicológico e ao físico, e como uma gravação com um cachorro ou um gato podem durar de 10 a 12 horas, os cachorros eram substituídos para não ocorrer nenhum problema.

Mesmo com a fama de violento, Quentin Tarantino recebeu ótimas avaliações quanto ao seu tratamento com os cavalos em ‘Django Livre’ (2012), e o mesmo ocorreu com Steven Spielberg com o longa ‘Cavalo de Guerra’ (2011), onde o diretor declarou seu amor pelos cavalos e que fez de tudo para seguir com as regras, inclusive colocar proteção nas patas dos animais durante gravações no gelo.

Em seu artigo, Vallada também disse que “O fato é que a única maneira de ter certeza de que um animal não será maltratado durante uma filmagem é não usá-lo”. Mas, até que ponto isso é favorável para o cinema? O universo cinematográfico fornece diferentes recursos para apresentar sua história, mas Hollywood é feito de diretores e diretores, e muitos prezam algo mais real e bem feito, querendo passar a melhor experiência para o espectador. E para você, caro leitor, pergunto se ‘Sempre Ao Seu Lado’ (2009) te daria o mesmo impacto com um cão de computação gráfica?

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O modo de trabalhar vai de cineasta para cineasta e utilizar animais em filmes pode ser de escolha dele, mas que o mesmo seja cuidadoso com o animal e ainda assim, conquistar o público e a crítica.