O segundo dia de CinePE teve a presença ilustre de Cássia Kis, mais um homenageada dentro do festival que acontece no Recife. A veterana atriz recebeu um prêmio pelo conjunto de sua obra e participação no audiovisual brasileiro pelas mãos de Gabriel Leone, que contracenou com Cássia Kis em “Os Dias Eram Assim”, super-série da TV Globo. Num momento emocionante, a atriz desceu do palco para abraçar Leone e ressaltou as importâncias do encontro, uma busca pela verdade onde o trabalho de atuação se dá pela vibração dessa troca com outras pessoas.

Com certeza, as falas de Cássia Kis foram os momentos mais marcantes desta segunda noite, diálogos que se prolongaram na coletiva feita pela atriz na manhã de sábado em Recife. Cássia Kis diz estar num momento muito marcante de sua vida, aos sessenta ela encara esse período de sua trajetória como uma segunda chance, menos preocupada com os números da carreira, a atriz diz estar atenta ao presente, a aproveitar ao máximo suas vivências. Numa homenagem que se tornou uma grande oportunidade para o público do festival, Cássia Kis deu uma aula de como transformar suas próprias vivências em um material para sua própria criação. Com certeza será levada por todos que puderam ouvir estas palavras.

Regionalismos Apaziguados

Como de praxe a noite seguiu com as mostras de curtas e de longas, na noite de sexta dois longas-metragens foram apresentados ao público, “Os Príncipes e “Christabel”, além da seleção pernambucana e nacional de curtas-metragens.

Algo que já fica bem claro nessa edição do CinePE é uma busca por dar voz e visibilidade para produções das mais variadas regiões do Brasil. Num país com dimensões continentais, muitas vezes a produção e exibição fica focado no eixo sul-sudeste com óbvias facilidades de produção, dessa forma todo meio de equiparar essa diferença econômica é válida, de forma que a presença dessa filmografias estimulem uma maior produção desses outros polos. Mesmo que para isso alguns bons projetos tenham que ficar de fora, sabendo que esses filmes pela sua qualidade encontrarão espaço em outros festivais.

Na seleção nacional de curtas foram apresentados três filmes, todos eles longe de um eixo hegemônico, foram vistos filmes do Mato Grosso, Rondônia e Pernambuco. Se a questão da visibilidade regional é totalmente importante é curioso ver como esses filmes trabalham isso em sua narrativa e construção. Se em “Teodora quer Dançar” (Mato Grosso), “Balanceia” (Rondônia) e “Banco Brecht” (PE), as ruas da cidade e traços desses lugares são mostrados, a forma optada por seus diretores mostra um cinema que decide muito menos entender o audiovisual a partir de sua cultura local, apenas incorporam seus locais em formas e formatos bem armados em outras filmografias, muitas vezes apoiado em cacoetes do audiovisual estrangeiro, o que acaba retirando a força regional dessas obras.

Se “Teodora Quer Dançar”, de Samantha Col Debella, parte de uma lenda urbana, uma jovem misteriosa que seduz os homens levando-os para um caminho sem volta, o curta acaba constantemente reproduzindo clichês audiovisuais, a condução do filme muitas vez parece ter saído de uma série televisiva. As falas rígidas, o roteiro que beira alguma artificialidade buscando apenas esclarecer sua narrativa foge de uma possibilidade de imersão do espectador. O tom quase novelesco ainda é amarrado por músicas que coincidentemente não vêm da região retratada, a principal “Light My Fire” do Doors, nem brasileira é, as amarras do filme provém de materiais culturais externos. No fim a trama da garota cuiabana que seduz o advogado carioca, demonstra-se apenas um enlatado que se propõe a buscar uma cópia do que se encontra facilmente na televisão, com alguma dificuldade na encenação.

Algo parecido acontece com “Banco Brecht”, se a câmera de Tiago Aguiar e Marcio Souza são um pouco mais inventiva e algumas piadas funcionam na narrativa do filme (como o atendente do banco que literalmente assalta seus clientes), o curta de assalto no nordeste passa a buscar uma cópia daquilo que já virou referência fácil. As homenagens colocadas de forma escancarada vão de uma reprodução do diálogo inicial de “Cães de Aluguel”, substituindo Madona por Angélica, e a famosa cena de “Táxi Driver”, onde De Niro se ameaça no espelho, todas estas sem uma amarração que justificam tais referências. Assim, “Banco Brecht” acaba tornando-se menos uma forma imaginativa de pensar um filme de assalto num sistema bancário brasileiro, do que apenas uma repetição de códigos já vistos por cineastas renomados.

Se a produção pernambucana tem grande repercussão no cenário audiovisual, principalmente em termos autorais, Rondônia ainda é um local que passa num considerável nível de invisibilidade no quesito cinematográfico. “Balanceia”, dirigido por Juraci Junior e Thiago Oliveira, talvez seja o curta que tivesse em seu conceito a maior possibilidade de se contaminar com a cultura local. O curta de sete minutos retrata um homem revisitando uma viagem ao Festival de Parintins, mas em seu fluxo de imagens nostálgicas sobre a Amazônia e sua festa, o que se vê é uma colagem de lugares turísticos, de pontos que já habitam o imaginário brasileiro sobre aquela região. O curta torna-se, então, uma colagem de uma beleza programada daquele local, trazendo em sua estética uma luz e uma forma publicitária que no final apenas espera-se o comunicado de alguma secretaria do turismo vendendo passagens para aquele local, agregando pouco a uma ideia de cultura local.

Cinema e Metáfora

Numa noite com dois longas bem diferente entre si, em questão de ritmo, dinâmica e temas, “Christabel” (Alex Levy-Heller) e “Os Príncipes” (Luiz Rosemberg Filho) conectam-se pela forma metafórica como amarram suas narrativas, trazendo símbolos para mais do que ilustrar, construírem seus significados, em suas particularidades ambos são filmes que surgem e contém suas forças através da busca por signos que traduzem suas ideias e temáticas.

“Christabel”, por exemplo, num mundo bem particular tenta abordar de forma quase fantasiosa a relação da liberdade de desejo feminino. Uma jovem, que vive num casebre que parece perdido no tempo, encontra uma mulher na mata, levando-a para casa, essa invasora começa a modificar todos os modos da casa. O diretor e roteirista Alex Levy-Heller vai tentando tecer a relação entre essas duas mulheres através de imagens que traduzem os sentimentos da personagem. Dono de um ritmo cadenciado, os tempos vazios dão a tônica daquela relação, imagens simbólicas surgem na tela e ocupam longos minutos. O espectador mais do que ser apresentado a signos é colocado de frentes a eles, como se o cineasta expusesse seus próprios significados em cena, deixando claro aquilo quer ser dito. “Christabel” utiliza-se quase de falsas metáforas, onde suas imagens parecem conter certa bula.

É significativo como isso fica claro num filme que parece desejar conter um alto grau de erudição. Explicar as metáforas visuais é desejar que o espectador sinta logo de cara como aquilo que se vê é inteligente. Essa busca por certo cultismo faz com que os planos longos e os quadros abertos pareçam apenas um capricho e não algo que compõem fluidamente as escolhas da mise-en-scène. Tudo isso aliado a uma trama que tenta construir uma grande mitologia, são diversos momentos que o filme tira o foco das duas mulheres para fazer excursões num mundo quase fantástico, “Christabel” acaba sofrendo por ser um filme que todas as escolhas e a essencial narrativa não soam naturais, mas sim uma forçação de estilos muito bem aceitos no meio de um certo tipo de cinema autoral, algo que diminui e muito uma premissa tão universal quanto a de “Christabel”.

Por outro lado, o novo filme de Luiz Rosemberg Filho, que ao lado de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane é um dos grandes nomes do cinema de invenção brasileiro, traz uma espécie de explosão com aquilo que se espera de um filme de autor, onde a erudição está aliada a uma contravenção extremamente transgressora. “Os Príncipes” é violento, escrachado, revoltado, irônico e por muitas vezes exagerado, a violência e o sexo são formas de comentar com raiva as esferas do poder que o cidadão se submete.

O longa acompanha dois homens que saem com duas garotas de programa numa noite de sexo, violência e uma constante perturbação dos códigos sociais. Esses dois homens, interpretados pro Igor Cotrim e Alexandre Dacosta, representam as mais variadas esferas do poder, homens que estão acima da lei, da moral e da política, uma espécie de donos do país, que podem perturbar a ordem, pois todas as formas sociais servem a esse tipo de ser. Figuras claramente alegóricas, as falas dos dois homens fazem referências ao presidente Temer, à família real brasileira, ao industrial e até mesmos aos esquadrões da morte da ditadura militar, enquanto as duas prostituas que apenas servem aos caprichos dos homens são os oprimidos por essas classes acima de todos.

Todo esse fluxo visceral de conteúdo embrulhado em pulsão de morte é espirrado na tela, sem muito embrulho, sem muitas concessões. O filme é muito mais um desafio para o espectador do que realmente uma forma de passar uma mensagem clara e definitiva ao público. Se toda essa vontade, traduzida num estilo despojado e nada clássico, “Os Príncipes” parece se perder na própria loucura, muitas vezes chegando a novos cenários metafóricos que apenas reforçam alguma ideia já passada. Loucura também é algo a ser tomado com cautela.

Talvez nessa perambulação a força metafórica de “Os Príncipes” aos poucas se perca, mas é inegável o contraste e o choque que esse tipo de filme possa causar, além de buscar alternativas para falar daquilo que acontece no agora.