Após a noite de encerramento acontecida ontem é possível fazer um balanço do que aconteceu nesse CinePE, que após um ano conturbado mostrou uma vontade de renovação, de abrir portas para temáticas, formas, assuntos e debates que colocam o festival num curso daquilo que realmente é debatido hoje no cinema.
Se viu durante esses cinco ou seis dias de festival uma abertura aos mais variados fazeres cinematográficos, daquilo que busca as maiores formas autorais, mas também aqueles que dialogam com formatos populares e mais clássicos, constituindo, assim, uma seleção bastante eclética que não se resumiu a um só tipo de filme. Ver, por exemplo, um filme de excessos e vísceras como “Os Príncipes”, de Luiz Rosemberg Filho, logo após um dia de abertura marcado pela exibição de “Mulheres Alteradas”, comédia repleta de atores globais, com apelo e forma popular. Essa tônica se deu ao decorrer do festival, contrastando filmes que dialogavam a partir das suas diferenças.
Algo bastante visto na diversificada seleção de curtas, onde temáticas semelhantes foram abordadas de formas extremamente diferentes, dando um olhar amplo sobre vários assuntos. A programação foi em diversas vezes brilhantes, fazendo com que as obras ganhassem um corpo numa noite que costumava ter por volta de sete filmes numa noite entre longas e curtas. Assistir o curta “Universo Preto Paralelo” e “Peripatético” juntos foi uma forma de ver respostas audiovisuais ao racismo e à violência institucionalizada por caminhos completamente opostos, dialogando com uma vontade de tomar as regras do jogo. Ou o curta, “Vidas Cinzas”, de Leonardo Martinelli, falso documentário que conta a indignação social ao retirarem a cor do Rio de Janeiro, terminar com o hino da Independência, mesma música que inicia o documentário de denúncia e pautado pela violência real da polícia militar, “Marcha Cega” de Bruno di Giacomo.
A edição do CinePE ainda sinalizou uma forte vontade de dialogar com o público, sem necessariamente entender que isso resulte numa seleção mais rasteira ou coisa do tipo, todavia a narrativa de Henfil, grande vencedor da noite, é o grande exemplo dessa questão. Narrativa politicamente importante, de resgate de um grande símbolo cultural nacional, com momentos divertidos e de diálogos com uma nova geração, não à toa vence público e júri. O documentário informativo bem realizado, tanto tecnicamente quanto na sua criação tem seu valor reconhecido, embora demonstre algo um tanto quanto esperado, aproximando esse prêmio de um cinema acolhido pelo povo também.
Se os grandes vencedores da noite foram cariocas, “Henfil” e “Os Príncipes” colecionaram a maioria dos prêmios, o festival também demonstrou uma vontade pela diversidade regional. Uma necessidade de abrir portas a regiões sem uma constante de produção, que ainda precisam crescer em quantitativamente para conseguirem habitar mais salas e festivais de cinema. Claro que a qualidade das obras sempre é importante, no entanto, é necessário que esse espaço exista para que o cinema cresça nessas regiões, festivais são pontos de encontro e de trocas e a convivência gera um cinema muito mais maduro. Maturidade demonstrada justamente por um filme de Goiás, o forte “Dias Vazios”, filme que com certeza mexeu com a plateia do Cinema São Luiz, demonstrando uma completa compreensão dos aparatos cinematográficos para provocar emoções e reflexões.
É bem verdade que a necessária mudança de datas por causa da greve teve algumas consequências indesejadas, como a exibição de dois longas seguidos nas duas primeiras noites de competitiva. Mas este é um fator além das forças do festival, que não pôde ser parado nem por uma greve de dimensões nacionais, o CinePE resiste forte em seis dias de cinema e debates de primeira grandeza. Abaixo lista de vencedores.

MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS-METRAGENS PERNAMBUCANOS
Melhor Filme – “Uma Balada para Rocky Lane”
Melhor Direção – Diego Melo (“Seja Feliz”)
Melhor Roteiro – Fabio Ock (“Seja Feliz”)
Melhor Fotografia – Henrique Spencer (“Frequências”)
Melhor Montagem – Marcos Buccini (“O Consertador de Coisa Miúdas”)
Melhor Edição de Som – Adalberto Oliveira (“Frequências”)
Melhor Trilha Sonora – Neilton Carvalho (“O Consertador de Coisas Miúdas”)
Melhor Direção de Arte – Lia Letícia (“Frequências”)
Melhor Ator – Heraldo Carvalho (“Edney”)
Melhor Atriz – Roberta Mharciana (“Cara de Rato”)

MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS-METRAGENS NACIONAIS
Melhor Filme – “Vidas Cinzas”
Melhor Direção – Klaus Hastenreiter (“Não Falo com Estranhos”)
Melhor Roteiro – Rubens Passaro (“Universo Preto Paralelo”)
Melhor Fotografia – Ivanildo Machado (“Sob o Delírio de Agosto)
Melhor Montagem – Pedro de Aquino (“Vidas Cinzas”)
Melhor Edição de Som – Rafael Vieira (“Abismo”)
Melhor Trilha Sonora – Alexsandra Stréliski e Ludovico Einaudi (“Plantae”)
Melhor Direção de Arte – Rachel Oleksy (“Teodora Quer Dançar”)
Melhor Ator – Jurandir de Oliveira (“Abismo”)
Melhor Atriz – Mariana Badan (“Teodora quer Dançar”)

MENÇÕES HONROSAS
“Marias” – Pela relevância do tema apresentado através de depoimentos reais, emocionantes e contundentes.
“Plantae” – Pela atualidade e importância do tema abordado lindamente de forma simbólica e poética.
“Insone” – Pela capacidade de síntese na narração em tão pouco tempo, de uma história de aventura do imaginário infantil.

MOSTRA COMPETITIVA DE LONGAS-METRAGENS:
Melhor Filme – “Henfil”
Melhor Direção – Angela Zoé (“Henfil”)
Melhor Roteiro – Angela Zoé e Gabriela Javier (“Henfil”)
Melhor Fotografia – Alisson Prodlik (“Os Príncipes”)
Melhor Montagem – João Rodrigues e Indira Rodrigues (“Henfil”)
Melhor edição de som – Marcito Vianna (“Os Príncipes”)
Melhor Trilha Sonora – Gustavo Jobim (“Os Príncipes”)
Melhor Direção de Arte – Letycia Rossi (“Dias Vazios”)
Melhor Ator Coadjuvante – Tonico Pereira (“Os Príncipes”)
Melhor Atriz Coadjuvante – Carla Ribas (“Dias Vazios”)
Melhor Ator – Ex-Aequo: Igor Cotrim (“Os Príncipes”) e Arthur Ávila (“Dias Vazios”)
Melhor Atriz – Patrícia Niedermeier (“Os Príncipes”)

PRÊMIO DA CRÍTICA
Melhor Longa-Metragem – “Christabel”
Melhor Curta Nacional – “Abismo”
Melhor Curta Pernambuco – “Seja Feliz”

PRÊMIO CANAL BRASIL
Melhor Curta: “Universo Preto Paralelo” (SP)