O terceiro dia de CinePE talvez tenha sido aquele que mais mexeu com o público, tanto por suas atrações como pelos filmes programados para aquela noite. Com certeza o momento em que Rodrigo Santoro subiu para receber uma homenagem pela sua carreira foi um dos momentos mais fortes dessa edição. O ator, espécie de cara do cinema nacional no exterior, relembrou que há 17 anos subia no palco do cinema São Luiz para apresentar “Bicho de Sete Cabeças” (de Laís Bodanzky). Revisitar aquele espaço levou Rodrigo às lágrimas, tendo a voz embargada pela emoção daquele momento.

A homenagem ficou ainda mais forte quando Cássia Kis subiu aos palcos para entregar a honraria para Santoro, ambos trabalharam juntos justamente no filme de Laís Bodanzky. Rodrigo Santoro fez questão de reafirmar que apesar dessa fama de um ator que alcançou uma carreira internacional, é na verdade alguém muito acessível, com vontade e desejo de participar de projetos por aqui, sem pensar na grandeza de algum convite. Para o ator o que move sua carreira são as oportunidades e seu interesse por mergulhar em desafios e trabalhar com aquilo que realmente o mova, por exemplo, a chance de trabalhar com equipes e elencos que ele admira.

Para ele essa necessidade de se envolver a fundo em cada projeto faz com que sua carreira pareça ter andado à passos lentos, mas Rodrigo Santoro acredita que esse ritmo faz com que ele realmente esteja inserido em projetos relevantes em diversos âmbitos. Rodrigo contou de projetos novos, como um longa filmado em Cuba, numa espécie de mostra do que está por vir nesse percurso pela sua própria história nessa homenagem do CinePE. Emoção que passou para a plateia lotada do cinema.

Cinema com alma e sangue

Se a emoção deu o tom da homenagem a Rodrigo Santoro, a seleção de filmes não deixou a desejar. Nessa terceira noite foram exibidos mais dois longas em competição, o documentário “Marcha Cega” e a ficção “Dias Vazios”, obras que emocionam através de um alto envolvimento com o público. Lembrando que o emocionar não está ligado apenas ao drama, ao sentimento de um filme fazer chorar, ou algo do gênero, mas como obra das mais variadas formas conseguem tocar o público, fazer com que o envolvimento com a plateia seja praticamente total. Para chegar a esse lugar é necessário muito mais que apuro técnico, é necessário vibração, é necessário ter sangue humano correndo enquanto se faz e exibe tais filmes.

“Marcha Cega”, documentário paulista de Bruno Di Giacomo faz um estudo da violência institucional das policiais frente às manifestações populares. Se popularmente o documentário pode ser associado apenas a uma informação, é necessário que o tema proposto pela obra possa dialogar com o público, não apenas através da razão, mas também de como os argumentos fílmicos sejam apresentados de modo que a plateia tenha também um envolvimento emocional com aquilo que se vê.

O longa é um grande exemplo disso, filme que traz uma consciência de apresentar seu tema, de argumentar com pontos e contrapontos e armar bem essa dissertação visual. Todavia o que mais chama atenção é como essa narrativa parte justamente por uma absurda vontade de mergulhar naquilo que é retratado. Chega a um momento que as câmeras presentes dentro de manifestações, nas ações truculentas da polícia, fazem com que o público sinta parte desse terror. O público não apenas entende o que o documentário quer dizer como também participa de forma mediada desta problemática.

O assunto emergencial nasce como forma de denúncia, num filme sem medo algum de escancarar um problema e jogar toda essa violência numa tela de cinema. É necessário sentir como isso altera a ordem social, em ciclos viciosos que precisam ser discutidos. “Marcha Cega’ com certeza é um filme incômodo, não somente para o público que se depara com uma realidade alarmante e que se transpõem para as cenas no filme, mas também pelas autoridades, pelos beneficiados desse sistema de uma violência institucionalizada.

Se esses pontos são tão bem abordados no filme, é interessante ver como o cineasta e sua equipe técnica trabalham bem com as ferramentas audiovisuais. A montagem precisa, que atribui um ritmo nada monótono, ou o trabalho de edição e mixagem sonora que ajudam a realizar uma alta imersão na temática de “Marcha Cega”. Se essas questões práticas são bem trabalhadas é interessante ver como elas ficam em segundo plano num filme tão forte e necessário.

Algo parecido ocorre em “Dias Vazios”, ficção de Goiás dirigido por Robney Bruno de Almeida. De imediato pode se ressaltar as qualidades técnicas do filme, a direção precisa no trabalho de planos e enquadramentos, a fotografia bem realizada, as atuações impecáveis (algo complicado num elenco majoritariamente juvenil), mas essas questões só ganham força quando existem num filme humano, um longa que olha seus personagens e suas histórias com um olhar interessado, que pede para que seja feita uma confissão geracional na tela do cinema.

“Dias Vazios” aborda a vida de jovens que vivem numa pequena cidade interiorana, a aparente paz local é perturbada quando se tem contato com os pensamentos que correm na cabeça desses adolescentes, que não vêm nenhuma possibilidade de futuro ali. O longa foca em dois casais, Jean e Fabiana, que exemplificam essa necessidade de fugir daquele local. Após extremar esses sentimentos Jean acaba tomando uma forte decisão e sua namorada desaparece. Após dois anos, Daniel e Alanis retomam a história do casal, com a finalidade de transformar as dores dos dois, tão presente neste outro casal, num livro que tirará esse segundo casal da cidade.

A utilização desses múltiplos olhares, todos buscando enxergar e entender sentimentos presentes nesses adolescentes, não faz disso matéria para um sensacionalismo ou até mesmo uma obra descomprometida. O vazio que habita o título passa por dentro daqueles jovens, uma fuga a qualquer custo pode ter um preço altíssimo, algo que desestabiliza a cidade, mostrando que há algo além de rebeldia controlada nos atos daqueles garotos.

“Dias Vazios” consegue ser tocante justamente por fazer um estudo aprofundado dessas figuras, partindo do princípio de que outro adolescente olha para aquele protagonista, como se tudo ali, inclusive suas conclusões, partam dessa mente juvenil. O longa muitas vezes naturaliza sentimentos que poderiam ser abordados de forma espetacularizadas ou punitivas, abordando um problema que vai além de apatia com muita seriedade e maturidade.

A depressão que assola aqueles jovens surge de uma cidade que não apresenta danos visíveis, mas que está justamente num vazio que não se constata. Algo traduzido muito bem nos planos estáticos e bem compostos daquele nada que existe na cidade. As vozes dos dois jovens vão se confundindo, a narrativa que Daniel vai tecendo sobre uma história que ninguém quis investigar vai tomando muito mais um caminho pessoal do que qualquer outra coisa. A narrativa dentro do filme se confunde com a do próprio longa, fazendo até mesmo um comentário do por que estamos tão preocupados com o final que Daniel arrumará, se o nós (público), já sabemos o verdadeiro final?

Talvez a resposta surja justamente do fato de que aquele garoto se importa tanto com outro jovem que aqueles possíveis finais poderiam dizer sobre o próprio Daniel. Se o Daniel do filme também é ficção, talvez o público se compadeça tanto dele pela forma de como o trabalho do longa, a alma dessa obra, se importe tanto com os pensamentos daqueles jovens.