Charlize Theron é quem abre o filme, como a controversa jornalista Megyn Kelly, já quebrando a quarta parede e falando com o espectador. E, principalmente se você for uma mulher, essa não é a última vez em que a história falará com você.

O Escândalo conta a história real que derrubou Roger Ailes, na época o CEO do canal americano de notícias Fox News desde 1996, depois de acusações de assédio sexual no ambiente de trabalho. Antes do lançamento do filme, a história de Ailes já estava sendo contada na minissérie The Loudest Voice, lançada nos EUA em junho de 2019, mas diferente da minissérie, em O Escândalo o CEO, interpretado por John Lightgow, não é o foco da história, apesar de ser o grande vilão dela.

Começando em 2016, durante o período de pré-eleição norte-americana, em que se escolhem os candidatos a representarem cada partido, conhecemos a polêmica âncora da Fox News Megyn Kelly, que se vê presa num conflito com o republicano Donald Trump após questioná-lo sobre o modo grosseiro com o qual o mesmo tratava as mulheres. Apesar de tomar uma posição contra a misoginia do futuro presidente, Kelly faz questão de deixar bem claro que não é uma feminista, já demonstrando sua personalidade forte e própria. E Charlize Theron entrega exatamente isso: complexidade.

O que causa o choque inicial na personagem de Megyn Kelly é a caracterização, Theron está praticamente irreconhecível graças a um extraordinário trabalho de maquiagem, mas fica ainda mais irreconhecível quando abre a boca. A atriz conseguiu copiar com perfeição a voz baixa e característica de Kelly, muitas vezes fazendo esquecer que não é a própria Kelly atuando. Além das semelhanças físicas, Theron agrega muito à personagem, especialmente nos momentos em que interage com a câmera e faz com que Kelly seja um pouco mais “agradável” aos olhos do público.

Megyn é o foco do longa, também tendo sofrido assédio de Ailes, mas não é ela quem começa o movimento que o expõe. Quem o faz é Gretchen Carlson, aqui interpretada por Nicole Kidman, que também entrega um trabalho marcante. Carlson também era âncora da Fox News e foi ela quem processou Ailes primeiro, abrindo caminho para que novas denúncias fossem feitas.

A história explodiu um ano antes do escândalo envolvendo Harvey Weinstein e do movimento #MeToo e a atitude e coragem de Carlson se tornam ainda mais admiráveis quando paramos para observar que foi a primeira denúncia do tipo na Fox News, um canal tradicional e conservador, mas certamente não o primeiro caso. Carlson além de coragem, teve também sangue frio e estratégia; juntou provas que ajudassem a provar a culpa de Ailes, e assim o fez.

Um dos grandes arcos da trama é a questão interna de Kelly, que fica dividida entre compartilhar sua própria história de assédio envolvendo Ailes, colocando em risco sua carreira ou ficar calada e “cooperar” para que o comportamento do CEO continuasse. É importante ressaltar que de forma alguma qualquer uma dessas mulheres pode ser considerada responsável pelas atitudes de Ailes, e o filme deixa isso bem claro sempre que o assunto é retratado.

Apesar das brilhantes interpretações de Charlize Theron e Nicole Kidman, principalmente de Theron, quem surpreendentemente rouba a cena é Margot Robbie no papel da jovem e ingênua “influencer religosa” Kayla Pospisill.

Seria mais fácil dizer apenas que Kayla é uma personagem fictícia, mas em O Escândalo, Kayla é muito mais que isso. A aspirante à âncora é uma representação, uma mistura, de todas as mulheres que já foram assediadas, não só por Ailes, mas por qualquer outro homem em posição de poder e não tiveram condições de denunciar, seja por questões psicológicas ou por não terem uma posição ou cargo que inspirasse credibilidade para tanto.

Margot Robbie é responsável por duas das cenas mais difíceis de assistir. Uma delas contracenando com Kate McKinnon (que interpreta Jess Carr, uma lésbica democrata que esconde seus ideais e sua sexualidade para trabalhar na Fox News), com quem teve um caso e passa a ser amiga, e acaba confidenciando o assédio de Ailes e a outra com o próprio CEO, mostrando um de seus abusos. Ambas as cenas são como um soco no estômago e o clima tenso que as envolve é muito bem guiado pela atriz.

O ponto mais positivo de O Escândalo é o modo realista e cru de como é reportado o ambiente tóxico de trabalho, nesse caso, na Fox News, mas que está presente em tantas outras empresas e apesar de escrito e dirigido por homens (Charles Randolph e Jay Roach, respectivamente), o ponto de vista feminino ainda é muito bem representado do começo ao fim.

O assunto retratado no longa não é um tópico agradável para conversa, mas é importante para gerar discussões necessárias e O Escândalo faz isso de forma muito natural e até mesmo leve, quando dá para ser leve. Além das atuações impecáveis, que por si só já são suficientes para justificar a ida ao cinema, o longa é de extrema relevância para o momento em que vivemos hoje e não deve ser ignorado.