Após três anos de sua segunda obra promissora, Aquarius (2016), o pernambucano Kleber Mendonça Filho volta cheio de gás e com combustível suficiente para fazer o público vibrar e se contorcer na cadeira. Bacurau, que estreia nesta quinta-feira (29) em circuito nacional é um assustador retrato do Brasil de hoje. Basta reparar nos detalhes e no seu desfecho. A produção chegou a ser laureada – merecidamente, diga-se de passagem – com prêmios importantes, tais como o Júri no Festival de Cannes e no Festival de Cinema de Munique, sendo agraciado na categoria de melhor filme, o que só contribui para torná-lo mais eficiente.

Bacurau tem um forte e voraz conteúdo de contexto singular social que te convida para refletir e debater ao final da sessão. Mais que moderno em certos assuntos abordados nele, o filme não suaviza em temas polêmicos, indo direto ao assunto sob o impulso das diversas formas que é exposta. O filme nos apresenta o ambiente (numa sequência inicial nos provando que a Terra não é plana), ao som de “Não Identificado’’ – na voz de Gal Costa – seguido dos personagens e por fim, seu enredo, que ganha força num misto de drama, ficção científica, terror – com salpicos de comédia.

Isto se torna fascinante pelo filme conseguir somar os gêneros e ainda conseguir captar e ligar os fatos em uma espécie de denuncia ousada no momento crítico em que se encontra o Brasil.

Sem perder tempo, os diretores e roteiristas Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles mergulham de cabeça em discussões como corrupção, abuso de poder, dentre outros que permeiam seus personagens e trama. Bacurau, então, prova-se uma irresistível e grandiosa fábula que consegue a proeza de fazer com o que o espectador não apenas o compreenda, como também o aprecie na condição de brasileiro. Com este espírito, inclusive, o espectador tende a sair de cabeça erguida e explodindo de orgulho do cinema nacional.

Em um futuro não tão distante, o filme nos apresenta uma pacata cidadezinha do interior do sertão nordestino brasileiro, Bacurau, que sofre com a falta de água cortada pelo prefeito corrupto Tony Junior (Thardelly Lima) – que trata os moradores daquela região feito animais lhes oferecendo mantimentos com prazo de validade vencidos, remédios sem prescrições médicas e livros jogados no chão como se fossem areia ou lixo. Misteriosamente, a cidade some do mapa logo após a morte de Carmelita, a mulher mais velha daquela localidade. Não bastasse o sumiço, a vila fica sem sinal de telefonia e internet.

Estranhos acontecimentos começam a surgir sem explicação, como uma matança aos residentes daquele lugar, drone em formato de disco voador que os espionam sob os céus da cidade e ataques servindo de alerta. É aí que os habitantes tomam atitudes de ataque e de defesa, sob o comando de Lunga (Silvero Pereira), um justiceiro andrógena. Unidos pelo mesmo propósito, eles usam uma espécie de droga psicotrópica para se afugentar do medo, encarando assim os algozes.

Aqui vemos uma forte referência (e um grito de protesto) ao atual governo, no qual o prefeito da cidade de Bacurau não se interessa em saber como está àquela gente, os deixando entregue a estadunidenses racistas e inescrupulosos, permitindo que os mesmos destruam a sua memória – como também sua cultura –  e matem seus habitantes. O político é um homem que não se importa com aqueles que o colocou no poder, defendendo apenas seus interesses pessoais. A total falta de empatia do personagem faz com que ele menospreze e desdenhe da inteligência daquele povo – uma vez que, para ele foi fácil enganá-los para se eleger.

Bacurau tem uma vigorosa alegoria sanguinolenta de uma violência ímpar, oriunda de uma narrativa tanto crua, quanto insensível. Com uma hábil direção, e um roteiro (com diálogos afiados – embora prolixos do elenco estrangeiro) de cair o queixo, o filme consegue manter o interesse do início até o seu final emblemático. Com pesado humor negro ácido e com alto teor político, Bacurau vai tirar seu fôlego e te fazer tremer na poltrona, por ser o filme que merece ser visto pelo Presidente da República.