O modo de se fazer cinema cresce e se desenvolve com o passar do tempo.  A linguagem utilizada pelos cineastas para passar as emoções desejadas ao espectador e, ao mesmo, prendê-lo na narrativa ali apresentada certamente evolui, acompanhada das visões e expectativas de seus públicos. Uma Vida Oculta, de Terrence Malick, é uma prova concreta de que um filme pode, muito bem, se utilizar de uma composição narrativa mais antiga para apresentar um belíssimo adendo à sétima arte.

Não sendo para qualquer um, a obra se destaca por sua extrema serenidade – mesmo que passada em meio ao caos da Áustria nazista em meados da Segunda Guerra. Diferente de muitos filmes atuais, em um contexto onde tudo é corrido e espera-se para já, Uma Vida Oculta evita, ao máximo, se apressar para contar sua história, se mostrando tão tranquilo quanto seu cenário principal: um campo onde os ruídos da cidade grande não existem. Assim, Malick justifica suas quase três horas de filme, guiadas por uma trama previsível, mas que consegue ser, ainda assim, impetuosa.

Acompanhando o desenrolar da história temos, diversas vezes, a utilização do recurso “voz-off” para tornar seus protagonistas mais relacionáveis, permitindo do aos personagens se expressar diretamente com seus espectadores, contando sobre si mesmos, sobre terceiros ou refletindo sobre a trama – suas opiniões e visões de mundo, portanto, são levadas em conta de forma direta ao longo da obra. Assim, ao serem colocados como narradores da historia, em uma conhecida “voz de Deus”, Uma Vida Oculta se torna intimista e, mais ainda, real, pois o que é contado ao público não é apenas uma visão imparcial de um narrador onipresente, e sim são reflexões pessoais daqueles que mais importam na história: seus personagens.

Em uma Áustria já dominada pelo nacionalismo nazista, Lorenz Schwaninger, homem do campo, com vida simples e família formada, desperta repulsa de todos aqueles ao redor por se recusar a fazer aquilo que todos já fizeram: gerar lealdade a Hitler. Primeiro, julgado por não querer servir no exército para matar inocentes, tanto Lorenz quanto sua família foram tratados como os inocentes os quais defendia, com desgosto, desprezo e tamanho preconceito; ainda assim, ao redor do longa, possíveis soluções surgem, como servir seu tempo ajudando em hospitais, mas a recusa continua, pois o protagonista se recusa a jurar lealdade à um governo o qual não acredita.

Mas são só palavras, não significam nada”, dizem, “você sabe o que acontecerá à sua família se não o fizer?”, indagam. A postura do protagonista, entretanto, continua a mesma. A partir disso, reflete-se sobre a época em questão, mostrando ao espectador que, mesmo não sendo o caso de Lorenz, nem todos aqueles presentes no cotidiano do nazismo eram, de fato, nazistas. A situação do personagem, intercalado com o sofrimento de sua esposa, sozinha e excluída do que ainda lhe restava da sociedade, trazem ao espectador um questionamento inquietante durante as três horas da obra: na mesma situação, o que eu faria? No meio de uma realidade onde ideologias guerreiam umas com as outras, surge tal incerteza: quantas ideologias valem mais do que a própria vida?

Uma Vida Oculta, portanto, prova-se sublime em sua proposta, não sendo um filme para se consumir a qualquer momento, requerendo paciência, imersão e, mais ainda, reflexão. Contempla seu mundo e seus cenários, se apresentando formalmente como uma obra serena, com uma linguagem similar a uma época com menos pressa, onde a apreciação se valia muito mais do que um ritmo acelerado, corrido.  Malick reflete sobre aqueles que se mantém em meio ao caos, se apoiando em suas ideologias e, ao mesmo tempo, procurando seguir um papel que lhes pareça correto. Nesta cruel realidade, onde as desventuras de soldados, vítimas e rebeldes foram cravadas na História, a vida de tantos civis se manteve assim, oculta.