Foram poucos os filmes dos últimos anos que exploraram aquilo que consumimos diariamente: a tecnologia. Apesar de muitas obras tratarem dela como a heroína ou a vilã, a exploração que digo, é sobre a técnica de direção em utilizar o aparelho como a câmera. Por todos os fatores que a tecnologia nos fornece, o gênero terror foi o mais beneficiado com o uso – dois filmes, para ser exato. Amizade Desfeita (2014) e The Den (2013) conseguiram utilizar a tela do computador como um ambiente criativo para suas narrativas, transformando a trama em algo dinâmico e rápido, como nossa tecnologia.

Os dois longas, apesar de cheio de defeitos, conseguiram trazer um clima interessante com o uso da tecnologia, o que mostrou ser um ambiente válido para explorar outras formas. Sendo os dois um tanto sobrenaturais – mais o “Amizade Desfeita”, no caso – Aneesh Chaganty decidiu ser mais pé no chão para utilizar a técnica em uma trama asfixiante que conversa entre o drama e o suspense, com plot twists constantes, mas ainda assim, dentro de uma trama relevante e poderosa para nossa sociedade.

A narrativa de Chaganty é primorosa, principalmente na montagem, trazendo o dinamismo e a velocidade contemporânea para uma trama, que normalmente seria trabalhada com mais cautela. Mas, pelo formato, tudo é justificado e realizado de belíssima maneira. Chaganty, junto com Sev Ohanian, foram felizes em conseguirem adaptar primorosamente essa história com um roteiro bem elaborado nas viradas, mas também na trama em si. A narrativa é consistente, as viradas são bem construídas e o filme se fecha perfeitamente. Há sim um certo exagero nos números de viradas, mas pela intenção clara de prender constantemente a atenção do espectador, faz o exagero de Chaganty e Ohanian ser algo aceitável.

A trama é envolvente, não só pela tecnologia que conhecemos e utilizamos, mas por ser algo tão real em nossa sociedade que conseguimos nos colocar no personagem de John Cho e refletir que aquilo pode acontecer com qualquer um de nós.

Por mais que o roteiro foque bastante na busca pela filha, sua mensagem está além disso. Muito se fala sobre as discussões filosóficas de Black Mirror (2011-) sobre nossa relação com a tecnologia atualmente, e Buscando… trabalha isso muito bem, principalmente na relação com as pessoas. O personagem aqui em questão, faz jus a suas atitudes. Um pai que se preocupa fortemente com sua filha por ser a única paixão em sua vida, mas estar tão próximo dela, faz, ao mesmo tempo, ele estar afastado. Algo que o próprio uso da tecnologia nos faz questionar atualmente.

Estamos mais próximos de tudo e de todos, mas distantes. Esse pensamento paradoxal nos faz refletir sobre nós mesmos e o mundo, e como esse reage às situações. O roteiro é ácido ao retratar a sociedade, e como tudo acontece de forma rápida e sempre procuramos colocar nossa opinião e chamar atenção. Estamos na internet para nos mostrar, seja com falsidade ou seja dando uma opinião polêmica. O “estar visível” é importante, principalmente aos jovens. Isso, no longa, é muito bem explorado, mostrando-nos como o ser humano é fútil e infantil, com muitos cidadãos sendo ignorantes ao não parar para pensar um minuto sobre a situação do próximo e com o prazer em dizer a primeira coisa que pensa sobre tal situação.

Não da mesma maneira que a série da Netflix, Buscando… traz um equilíbrio interessante para mostrar os benefícios e os malefícios da tecnologia. E estabelece que, mesmo com ela ajudando o personagem de Cho a estabelecer um raciocínio lógico de investigação, você dá voz à ignorância e pensamentos precipitados sobre imagens ou textos. No entanto, essa reflexão perde um pouco da sua força, principalmente no terceiro ato, quando a narrativa poderia ter chegado ao fim diversas vezes, mas Chaganty e Ohanian procuraram uma conclusão mais positiva para nossa realidade. Particularmente, é uma visão que não compadeço.

Obviamente isso não diminui o filme, até por ser minha visão de mundo, que, em partes, é bem parecida com a de David Lynch sobre a violência e a maldade no mundo – principalmente a retratada na terceira temporada de Twin Peaks (2018). Mas, mesmo comigo tendo essa visão e esperando um final mais pesado à obra, foi aliviante encontrar um ponto positivo em meio a muitos negativos.

Ao tratar de Buscando…, os acontecimento chocam, mas o que realmente brilha os olhos é a montagem. Como já citado anteriormente, Chaganty e Ohanian conseguiram construir a história e todo o universo da família de forma impecável, com escolhas visuais justificáveis. Afinal, numa situação dessa, você provavelmente não vai ficar constantemente no celular ou no computador, mas aqui, utilizar os aparelhos são fundamentais. Então, é brilhante ver um trabalho no qual consegue estabelecer um meio em que tudo daquele universo é preciso ser usado.

No caso, nada é gratuito, absolutamente tudo apresentado em tela tem um sentido lá na frente e isso faz o longa ter um bom roteiro – mesmo que por mais exagerado. Essa construção faz das mudanças de páginas e aplicativos algo natural, fazendo com que o espectador, além de se sentir conectado – literalmente – também não enjoar daquela estabilidade visual, fazendo as quase duas horas de filme passarem voando, como se estivéssemos navegando pelo computador.

Em sua essência popular, a própria montagem também prende o público por toda a construção da história, que segue a modernidade visual e o dinamismo. O problema em trazer essa essência popular é o uso da trilha sonora. Seu uso simplório a deixa totalmente previsível, sendo um trabalho um tanto decepcionante, não deixando o espectador se surpreender, já que a própria trilha revela que naquele momento algo irá acontecer ou se revelar.

Faltou também coragem em não desligá-la por um tempo e explorar o ambiente em que o filme se passa, igual é trabalhado com os efeitos sonoros. Todos do mundo tecnológico e próximos aos espectadores atuais. O volume também agrada em deixar claro todos os barulhos, seja o erro de página, o toque do celular ou o digitar do teclado. Isso deixa a experiência ainda mais imersiva, colocando-nos na pele de Cho, que depois de diversas comédias em sua filmografia, entrega uma atuação dignamente dramática, apesar de momentos específicos de peso não conseguir transmitir 100% de qualidade. Enquanto Michelle La oferece uma surpresa agradável.

Sendo essa sua primeira atuação em longa, Michelle tem momentos de transições emocionais realizadas perfeitamente. Contudo, não há uma entrega completa, até por sua limitação como atriz e por seu tempo de tela, bem menor que de Cho por motivos narrativos.

Atual e necessário, Buscando… ultrapassa a barreira do suspense. Além de trama tensa e nervosa, em suas entrelinhas, o roteiro de Chaganty e Ohanian discute nossa relação com as pessoas e a tecnologia, além dos perigos da nossa sociedade, mas focam mesmo na diversão dos espectadores quanto às diversas viradas e rumos que o longa oferece.

Nisso, a direção faz um trabalho impecável, com a esperança de que os espectadores não mexam em seus celulares durante o filme, pois o que está na grande tela é confortante para quem assiste, além da trama empolgante e firme para prender a atenção dos espectadores. Surpreendentemente, Buscando… é uma lição de montagem e um adaptação perfeita ao público moderno do cinema.