É muito provável que você já deve ter se deparado com uma história que te fez reagir com a seguinte frase: “isso daria um filme”. E é exatamente isso que acontece aqui. A história, no caso, é de um grupo de amigos da cidade de Spokane, Washington, que todo mês de fevereiro jogam o famoso “pega-pega” ao longo de 28 anos. A fama dos dez amigos começou depois de um artigo ser publicado no jornal americano The Wall Street Journal, em 2013. E foi assim que os direitos da história foram vendidos para o desenvolvimento de um filme. Até porque a história, devido a sua bizarrice e loucura, merecia. E não tenho como imaginar uma outra maneira de ser adaptada além da que os roteiristas Mark Steilen, Rob Mckittrick e o diretor Jeff Tomsic fizeram. “Te Peguei” é, disparada, a mais divertida surpresa nos cinemas, até então.

Por mais que o bromance já tenha sido representado milhares de vezes no cinema, o filme mostrou como ainda há novas formas de trabalhar a amizade. “Te Peguei”, no entanto, consegue ir além. O poder de adaptar livremente a história real faz o filme ter o peso – em diversão. As mudanças em comparação com o verdadeiro acontecimento são potenciais, como a quantidade de personagens – no filme são cinco amigos, enquanto na realidade são dez – o mês em que brincam – no filme é em maio, mês marcado como o “das noivas”, e a trama gira em torno de um casamento – e os acontecimentos. Aqui, o exagero domina tudo, mas com justifica. Obviamente o filme não para e explica, mas o motivo para tudo ser tão grandioso é implícito. Até porque a direção e o roteiro trabalham muito na questão da jornalista estar acompanhando os personagens, mas ela participa de poucas situações, sendo muitas contatadas pelos personagens. E sabemos o quanto gostamos de aumentar, muitas vezes, certos acontecimentos. Nossa própria história faz isso – declaração da independência brasileira que o diga. Então, tudo de exagerado é pontual e faz sentido para a história. Afinal, a bizarrice da trama faz qualquer cena de luta em câmera lenta parecer fichinha. Mas muito desses pontos se deve pela belíssima direção de Tomsic.

Marcado muito pela direção de séries e filmes para tv, “Te Peguei” é seu primeiro longa cinematográfico, o que acabou dando muita liberdade para diferentes explorações, e esses são os pontos fundamentais para o filme ser o que é. Pela bizarra história dos amigos americanos, Tomsic pegou referências e estilos de direção de diferentes gêneros para montar a história dos cinco. Há momentos de suspense, terror, investigação e, claro, comédia. E Tomsic brincou muito com essas variações, mudando diversas vezes a fotografia para entregar o clima perfeito da cena. Além de tornar tudo mais divertido, faz o espectador viver diferentes emoções em diferentes momentos, sem ser afastado em qualquer circunstância. Isso vai muito da construção dos personagens, que são muito bem escritos e funcionam tanto individualmente como em grupo, e de forma muito agradável. Todos trazem suas características individuais muito bem montadas e exploradas pelo roteiro e pela direção. Assim, o elenco apenas serviu como um adendo ao roteiro bem montado e não haveria outros atores melhores para os papéis.

Ed Helms, Jake Johnson, Hannibal Buress, Jon Hamm e Jeremy Renner funcionam maravilhosamente bem como um grupo. As piadas dão certo para cada personagem e são bem encaixadas na trama. Contudo, Buress, apesar de funcionar bem em grupo, é o que mais sofre com as piadas. Seu texto acaba sendo o mais fraco do cinco com frases sem timing em uma atuação caricata no personagem, que é o com menos aprofundamento do grupo. É o único que não apresenta um peso significativo e é o mais linear, com poucas mudanças durante a duração do longa. Isso faz com que o personagem comece bem na história, mas termine de forma razoável por, a todo momento, manter o mesmo nível, sem qualquer mudança em suas características. Enquanto isso, os outros atores trabalham de forma elegante. Ed Helms e Jake Johnson possuíam a vantagem de estarem mais próximos do gênero, enquanto Hamm e Renner, que focaram suas filmografias em outros caminhos, já passearam pela comédia, então os quatro conseguem entregar um trabalho encantador para a resolução do longa. O elenco de apoio auxilia no elegantismo do elenco principal e realmente apoia a construção dos mesmos e da história. O desenvolvimento funciona de forma natural, com cada um sendo seus próprios “eus”. Entre eles, Isla Fisher é a que mais se destaca. Sua personagem é exageradamente justificada, sendo satisfatório ter uma faísca ao grupo, e certas vezes, servindo como um espírito de união.  O papel de Annabelle Wallis também serve dessa forma, mas funciona mais como um guia ao público. Vivendo na pele da jornalista, ela funciona muito como um olhar de fora, isso é fundamental e exerce a função de justificar as explicações dos outros personagens, dando as informações essenciais aos espectadores.

E a soma de tudo isso resulta na união. No fim das contas, mesmo como uma adaptação de uma bizarra – mas divertida – história real, o longa se trata de falar sobre amizade. Não da forma clássica de aos poucos duas pessoas que se odeiam passam a se conhecer e viram amigas. Aqui, a estrutura se aproveita de outras como “Finalmente 18” (2013) e “A Ressaca” (2010) para tratar de amizades já antigas, sendo desfeitas pela distância e o tempo. O acréscimo aqui está na diversão. Além de refletir sobre a importância da amizade através do tempo, há um ensinamento sobre, mesmo adulto e maduro, trazer seu espírito de criança para aproveitar a vida que ainda resta. Coincidência ou não, há um ensinamento parecido em “Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível” (2018), sobre como devemos explorar esse nosso lado mais infantil para fortalecer – através de uma brincadeira boba, por exemplo – o espírito da juventude. Em tempos atuais é fundamental transmitir uma mensagem assim, até por serem tempos em que trabalho e responsabilidades muitas vezes são categorizadas como mais importantes que coisas simples como união e amor. Essa visão é ainda mais fortalecida quando a história apresenta personagens com realidades e ideologias diferentes, mas que se tornam iguais quando estão juntos.

Por mais que esteja longe de ser perfeito, “Te Peguei” é um momento de risadas e diversão garantidas. O extraordinário da história e a montagem em cima de toda a narrativa, fazem as risadas serem as mais deliciosas e naturais possíveis. No fim, “Te Peguei” ainda te faz refletir sobre suas relações e suas atitudes com aqueles que estão próximos de você constantemente, com apoio, torcida ou simplesmente para te fazer sorrir quando não há motivo. É inevitável sair da sessão e não querer abraçar seu melhor amigo e querer já agora, criar um laço ainda mais forte com ocorrências que fazem vocês estarem mais unidos do que nunca.