Originado da França, o cinema é uma arte apaixonante que funciona como uma das muitas maneiras de se contar uma história. Curiosamente, a palavra também é de origem francesa, especificamente do termo cinéma, encurtamento de cinématographe, que, por sua vez, vem do grego kinema (“movimento”), originária de kinein (“mexer, deslocar, movimentar”). Apesar de O Gênio e o Louco não tratar da história do cinema, ele trata justamente dessa pequena história contada: a origem das palavras. Ou, pelo menos, essa parecia ser a intenção.

O próprio título do filme nem combina com a suposta proposta, porém, combina perfeitamente com a sua narrativa, consequentemente com seus personagens. E que, por alguma ação do destino – ou de algum produtor – o elenco também combina perfeitamente. Isso porque, tanto Sean Penn quanto Mel Gibson, devido suas histórias passadas, trazem justificativas para termos como esses serem utilizados como referência quando se fala dos dois cineastas.

Não só isso, a trama também faz um balanço interessante entre a genialidade e a loucura do Professor James Murray e do Doutor W.C. Minor. Isso porque o roteiro escrito por Farhad Safinia, John Boorman e Todd Komarnicki constrói ambos com as duas características, uma bem mais presente em cada um. No caso, Gibson com a genialidade e Penn com a loucura – algo possível de se observar no trailer. Essa ambiguidade gerada torna os dois ainda mais interessantes, porém todo o roteiro e a própria direção de Farhad não aproveitaram esses pontos da melhor maneira.

Tratar de fatos históricos não é algo fácil. Ainda mais quando o feito ocorre em um espaço de tempo muito grande, o que exige um achatamento da trama, tornando o texto não só corrido, como também recheado de informações jogadas e com pouco desenvolvimento. E é exatamente isso o que acontece com O Gênio e o Louco. A própria montagem do dicionário da língua inglesa já valeria um filme por si só, no entanto, a escolha foi em trabalhar as duas história, tanto de Murray, quanto de Minor, e como a vida dos dois se juntaram e fizeram a diferença para a conclusão do livro.

Entretanto, toda essa jornada não é trabalhada com delicadeza, até porque, por precisar envolver muitas camadas, muita coisa fica em segundo plano, inclusive a própria construção do dicionário. Por mais que essa trama realmente seja o fio condutor para a verdadeira história dos dois, ela é mal trabalhada. Inclusive, a própria relação entre Murray e Minor é fraquíssima, chegando a ser mais relevante a trajetória do doutor com Eliza Merrett (Natalie Dormer), ao invés com o próprio professor.

É perceptível que se mostrou complicado abandonar determinadas narrativas, já que todas se conversam. Porém, faltou um foco. Com isso, acaba não acontecendo nenhum desenvolvimento interessante ou conclusivo. A própria jornada pela busca da origem das palavras é feita às pressas, não dando a verdadeira importância para o feito que está sendo mostrado. O pior é que a direção de Farhad auxilia nos defeitos, principalmente por não ter um ritmo bem estabelecido, já que o filme tem seus momentos mais cadenciados, onde é possível enxergar um desenvolvimento melhor, enquanto em outros, tudo é passado ou simplesmente citado, sem o visual em si. O que enfraquece exponencialmente toda a trajetória dos personagens reais.

O elenco é outro ponto crucial que não convence. Penn entrega uma interpretação extremamente caricata, que em primeiro momento, até aparenta ser um bom trabalho, mas que aos poucos vai se provando desgastante, situação semelhante ao papel de Natalie, que ainda consegue ter a interpretação mais madura. Gibson, por sua vez, não é tão exigido, – por incrível que pareça – mas principalmente pelo seu personagem trazer as características do gênio, enquanto o seu louco é em momentos mais figurativos.

Por esses pontos, fica difícil não comparar o longa com outras obras que tratam de momentos históricos, como O Jogo da Imitação (2014) ou O Discurso do Rei (2010), por exemplo. A principal diferença é que os dois exemplos conseguem trabalhar perfeitamente o primeiro plano da trama, enquanto o que está como coadjuvante consegue ser bem desenvolvido, algo difícil de entender de como o contrário aconteceu aqui, já que eram três cabeças trabalhando como montadores da história, sendo uma delas indicada ao Oscar,  incluindo Melhor Roteiro OriginalJohn Boorman, por Esperança e Glória (1987).

O Gênio e o Louco, por fim, demonstrou-se um futuro filme de distração para alunos na aula de história, que, ao todo, não ensina, e apenas demonstra um potencial desperdiçado.