O Conto dos Contos

Exibido nos Festivais de Cannes e do Rio ano passado, ‘Conto dos Contos’ traz fábulas monarcas contadas de um jeito nada lendário ou parecido com qualquer conto de fadas que conhecemos. Nada de ”…Era uma vez” ou ”Em um reino distante” como se inicia o intragável

Caminhos da Floresta.

Vemos um trabalho insigne e digno de ser comparado ao clássico ‘A Viagem do Capitão tornado’ de Etteore Scola (falecido em janeiro deste ano), não só por causa do espetáculo que é sua direção de arte e com esplendorosos figurinos, como também o lirismo de como é contada sua jornada de forma poética.

O produtor, roteirista e diretor italiano Matteo Garrone é conhecido por filmes como ‘Gomorra’ e’Reality – A Grande Ilusão’, mostrou-se versátil em seus dois primeiros longas que dirigiu. Dessa vez, ele nos leva a um mundo fabuloso e lascivo com arrojos eróticos que fazem bonito nesta superprodução. É uma obra contemporânea assumidamente baseada em mitos reunidos, que foram publicados por Giambattista Basile, um poeta napolitano do século 16. Garrone tem um estilo próprio de contar suas histórias ao público. Em ‘Reality’, o que se aproxima do seu novo trabalho é o apólogo de um homem que sonha em ser celebridade de um reality show. Já em ‘Gomorra’, narra três histórias distintas sobre o crime de tráfico de drogas. Assim como ‘Reality’ e ‘Gomorra’, o roteiro também é assinado por Massino Gaudioso e Ugo Chiti, em parceria com o estreante Edoardo Albitani.

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‘Conto dos Contos’ mostra três reinos vizinhos. No primeiro, um rei e uma rainha são infelizes por não ter um filho. Um bruxo aconselha-os que o rei mate um monstro do lago para que seja cozido por uma virgem e seja comido pela rainha. Mas o inesperado acontece quando a serva também engravida e resulta num nascimento de gêmeos albinos: um é parido pela rainha, o outro pela serviçal. No reinado ao lado, um rei movido a luxúria, dispondo-se a orgias sexuais, fica enfeitiçado pela voz de Dora, uma velha que vive com sua irmã em um chiqueiro. Ele se equívoca quando acha que a dona da voz é uma bela jovem. Ela aceita fornicar com ele, na condição de o coito acontecer sob a escuridão. No terceiro e não menos sinistro, um heteróclito rei, casualmente encontra uma pulga e passa a alimenta-la com seu sangue e a torna seu bicho de estimação. A pulga vai crescendo terrivelmente e o rei vai se afeiçoando por ela.

A partir daí o cotidiano das três monarquias dá uma mudança nada agradável. Caso você não goste de “spolier”, melhor evitar assistir o trailer, pois ele entrega as aventuras que mostram os conflitos pessoais das soberanias que não almejam nada mais que estabilidade afetiva e uma vida serena. Os personagens (com um elenco de peso liderados por Salma Hayek, Vincent Cassel, Toby Jones e John C. Reilly, numa ponta como um rei que vai em busca de um monstro marinho numa belíssima cena que é um deslumbrante deleite aos olhos) são estilizadamente sombrios e têm o mérito de não ficar presos a seus atos predatórios pois eles têm consequências imprevisíveis e nada benévolas. Tudo isso, sem perder o bom humor e suas constantes referências do cinema italiano no estilo “commedia dell’arte”.

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‘Conto dos Contos’ consegue ser fluente, bem como servir de modelo (mesmo não sendo voltado ao público infantil) por conta do seu ritmo, seu hábil roteiro e de suas belas paisagens. Os dramas de seus personagens conseguem ser tão envolventes quanto a magia que o filme em si possui. Suas tramas labirínticas irão não só conquistar um público que goste de contos, mas também como os que apreciam um bom filme. Em geral, tende a agradar a todos, embora o que se tem visto são “remakes” adaptados de contos de fada, ‘Conto dos Contos’ é mais palatável (mesmo para quem não goste do gênero fantasia) e tem em si variados aspectos poéticos e picantes do cinema italiano.

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