“Rocky” (1976) é um marco de superação na história do cinema, pelo seu roteiro emocionante que se mistura com a vida de Sylvester Stallone. Entre altos e baixos, a história do lutador ítalo-americano foi contada ao longo de 30 anos e 6 filmes, sendo todos escritos pelo próprio Stallone. Em 2015, quase no aniversário de 40 anos do primeiro filme, o personagem Rocky voltou às telonas, mas desta vez em um filme que não leva o seu nome no título, e sim de seu melhor amigo e maior rival “Creed”, sob roteiro e direção de Ryan Coogler.

 

No primeiro longa, Coogler entrega um pequeno “retcon” na história de Apollo, incluindo um novo filho para o campeão, que nasceu após a sua morte. Com um roteiro que fugia do espírito dos filmes anteriores, o filme ainda contou com uma atuação arrogante de Michael B. Jordan, que por pouco não derrubou o filme no ringue de uma vez por todas, querendo trazer debates que não eram inerentes da franquia, e muito menos contribuíram para o seu tamanho sucesso.

 

Mas antes do final da contagem para ser decretado o nocaute, “Creed II” ergueu-se novamente para a batalha, com a ajuda do retorno de Stallone no roteiro e a direção do novato Steven Caple Jr., que contribuíram inclusive para o desenvolvimento de uma melhor embatia pelo personagem de B. Jordan.

 

“Creed II” consegue trazer elementos que combinam a definição de sequência e reboot, entregando o que filmes como “Star Wars – O Despertar da Força” tentaram fazer e falharam miseravelmente. Mesmo que o filme não tivesse o apelo do retorno do personagem Ivan Drago, e todo o argumento baseado na revanche entre os lutadores, ele poderia seguir sozinho se mantivesse o roteiro claramente inspirado em “Rocky III”, mas a mescla realizada com os elementos de “Rocky IV” tornam o longa ainda melhor, atingindo em cheio os antigos fãs do “Garanhão Italiano” e ainda conquistando uma nova geração com, agora sim, o tema central desta franquia: a superação.

 

Com um arco bem desenvolvido e uma boa direção, B. Jordan se destaca com um Creed mais maduro, porém imaturo o suficiente para permitir o desenvolvimento de sua trama. Stallone, interpretando o personagem a 42 anos, não precisa de elogios para o seu bondoso e carismático Rocky. Tessa Thompson, talvez o maior destaque do primeiro longa, mantém o seu ótimo nível de atuação e consegue ser o escape cômico quando necessário. Dolph Lundgren retorna após mais de 30 anos ao papel de Ivan Drago, e é muito interessante observar a humanização do personagem associada com uma excelente fundamentação para tal. Florian Munteanu, novato na interpretação, cumpre o esperado para seu personagem e com poucas falas, faz com que o espectador se lembre de Ivan Drago em “Rocky IV”.

 

Esse grande respeito aos acontecimentos dos filmes anteriores transparece com as cenas dedicadas ao Rocky, que mesmo sem ocupar os grandes holofotes, continuam com naturalidade os acontecimentos na vida do ex-lutador. Como evidenciado em “Rocky V”, é natural que o italiano só poderia continuar o seu legado treinando alguém, mas esse alguém não poderia ser um qualquer, esse alguém precisaria ter um nome ainda maior que o de Rocky para não ficar a sombra do treinador, e somente um Creed poderia ocupar este posto. E adicionalmente, a escolha de Stallone de continuar a explorar a relação de Rocky com seu filho, com a volta de Milo Ventimiglia no papel, mostra a proximidade e conhecimento íntimo com o personagem.

 

Por fim, “Creed II” pode ter um sido um grande acerto que permitirá aos produtores continuar a explorar a franquia e as histórias da família Balboa e Creed, ao menos enquanto o grande Stallone, agora aos 72 anos, estiver por trás do roteiro de seus personagens.