Servindo e protegendo, a vida de policiais certamente não é algo fácil. Retratada em uma imensidade de filmes e séries, é inegável que arriscar a própria vida, dia após dia, para garantir a segurança das pessoas ao redor – mesmo que muitas vezes não sejam reconhecidos ou valorizados – é uma relevante demonstração das maiores pressões desta profissão. Em Crime Sem Saída, novo filme de Brian Kirk, uma nova visão sobre a vida policial é apresentada ao espectador, se aprofundando em questões sociais que nem sempre são consideradas nas representações desta profissão no audiovisual.

A cidade de Nova York, onde se passa o longa-metragem, possui uma das maiores forças policiais municipais do mundo, e tal fato marca a trama do começo ao fim. O filme foca em Andre Davis, um detetive da NYPD que é conhecido e considerado por muitos como um daqueles que “atira primeiro e pergunta depois”. Após a morte de oito policiais, entra na caçada dos dois assassinos durante a madrugada, sabendo que as chances de pegá-los após o amanhecer serão quase nulas.

Uma das características mais promissoras de Crime Sem Saída é que a história é contada a partir de duas perspectivas: o espectador não só vê a trama se desenrolar aos olhos de Andre, como também acompanha o ponto de vista de Michael, um dos criminosos responsáveis pela morte dos oito policiais. O roteiro, assim, intercala sua história guiando ambos os personagens de destaques adentro de seus conflitos morais que permeiam à noite – enquanto um vê suas crenças acerca das pessoas ao seu redor se invertendo, o outro deixa de lado tudo o que acredita buscando a liberdade desejada.

 A quebra do maniqueísmo, portanto, agrega sentido à trama de tal forma que as noções de bom e mal são colocadas à prova em diversos momentos ao longo da narrativa. O espectador, assim, é convidado a refletir sobre a história, seus personagens e suas opiniões: “eles estão errados em pensar assim?”. Poderia ser só mais um filme de perseguição policial, mas vai além, gerando uma reflexão ética e moral acerca das ações que giram a história de forma enérgica e realista, onde o certo e o errado dão lugar para diferentes noções da realidade vivida por cada um.

Não só é um filme reflexivo, como ainda se mantém uma obra hollywoodiana que abusa das cenas de ação, fator o qual pode muito bem agradar aqueles que buscam uma obra mais popular. Tiros, correria e carros em alta velocidade marcam o ritmo do longa-metragem, fazendo com que a concentração do espectador se mantenha sempre ativa, raramente se dispersando. Não é, portanto, uma obra lenta: Crime Sem Saída é tão acelerado quanto possível, e tanto seus diálogos e cenas de ação compõem um produto final interessante e dinâmico que prende a atenção do público.

Vale-se destacar também as atuações dos personagens com maiores destaques na história. Chadwick Boseman, consagrado por seu papel em “Pantera Negra”, demonstra muito bem o sofrimento interno de seu personagem, o qual perdeu o pai – um policial de Nova York – quando criança, mas nunca irá superar – faz o que faz para continuar o legado de seu progenitor. Stephan James consegue fazer com que o público sinta compaixão por seu personagem Michael, mesmo que tenha acabado de auxiliar no desenrolar do crime – apenas uma pessoa no lugar errado, na hora errada. Sienna Miller e J.K. Simmons também se destacam em seus papéis, ambos policiais consagrados que não tem medo de expressar suas opiniões que convergem entre si: enquanto a polícia merece muito mais do que lhes é dado, estes criminosos merecem muito menos, antes a morte do que a cadeia.

Composto por atores sublimes em seus papéis, cenas abundantes de ação, e reflexões sobre a moral humana, o filme de Brian Kirk é uma intensa obra que discute o papel da polícia nos dias de hoje, ponderando acerca do que lhes é dado, exigido e esperado pela população e pelo Estado. Crime Sem Saída, portanto, prova que um filme de ação pode ir muito além do que simples tiros e perseguições, desenvolvendo um eficaz equilíbrio entre a ação e a reflexão. Não só uma fonte de entretenimento, a obra se mostra uma forma criativa de se conquistar o espectador e levá-lo a discutir e ponderar a respeito de dilemas mortais – e, ao mesmo tempo, sociais – presentes no cotidiano.