Para um fã de terror, é gratificante assistir uma obra bem feita. Por mais que o gênero sempre se desgaste com clichês e histórias esquemáticas, é de se merecer aqueles que conseguem fugir do esperado e entregam uma obra-prima. Sustos são fáceis de retratar no cinema, ainda mais em um filme que tende a entregar o medo temporário. Mas são poucos os diretores que fazem o público levar para frente toda a tensão e o horror vividos dentro de poucas horas, e que, em meio a mundo aterrorizante, ainda conseguir chocar. Enquanto clássicos antigos marcaram a história do cinema com seus filmes, diferenciando de um cenário monótono, há alguns anos, o gênero vem trazendo alguns longas diferentes, e que ganham destaque em meio uma indústria já pronta. Em 2014, com ‘A Corrente do Mal’, 2015 com ‘A Bruxa’, 2016 com ‘O Homem nas Trevas’ e ano passado com ‘Corra’. Apesar de alguns não terem o terror como essência, a tensão, o medo e o nervosismo estão ali. E em 2018, a vez é de ‘Hereditário’. Muito se ouviu após sua exibição em Sundance, sobre este ser o novo ‘O Exorcista’ (1973) ou ‘O Iluminado’ (1980). Em questões cinematográficas, os três estão distantes, sendo diferentes um do outro. A questão aqui está no choque. Filmes de terror são filmes de época, cada um feito com os específicos horrores vividos, e para seus devidos anos, os dois clássicos fizeram história, e ainda fazem. A mesma coisa acontecerá com ‘Hereditário’. Pelo menos é o que, particularmente, espero. Da mesma maneira que ‘A Bruxa’ trouxe esse sentimento de volta às telas, este trabalho do americano Ari Aster choca e faz ser lembrado por horas, dias e semanas após ser assistido. Provavelmente, ainda será lembrado depois de anos como referência ou exemplo de uma grande obra do gênero. Marcando a estreia de Aster como cineasta, o filme é primoroso em todos os sentidos. Do mesmo modo que ‘A Bruxa’ surpreendeu há três anos, ‘Hereditário’ é no mesmo nível, e talvez, superior. Os elementos que fazem um bom filme de horror ser aterrorizante estão presentes, e utilizados de forma impecável. Aster, por não ter nenhum trabalho anterior, consegue construir o seu próprio olhar sem qualquer manejo e brinca com o espectador a todo momento, construindo magistralmente o clima. Como um bom formato de roteiro clássico, o primeiro ato introduz ao espectador tudo o que ele verá na outra hora e meia, não só os personagens e a trama, mas principalmente o clima. E do fim do primeiro ato até o final, ele o eleva ao máximo e atropela os despreparados e até o mais preparado dos espectadores. Bem parecido com o filme de 2015 em muitos aspectos, o ritmo é o principal dele. Fugindo de montagens simplórias, a trama caminha da forma que ela precisa. Não há jump scares, não há música crescendo para dar susto e não há um vilão propriamente dito. A produção é recheada de planos longos, o ritmo é lento e exige atenção máxima de quem assiste. A trama vai sendo construída nos detalhes e entrega aquilo que todo bom roteiro deve, no mínimo, ser: bem escrito. Aliás, o texto de Aster é de uma qualidade impressionante para um primeiro trabalho. Com diálogos bem elaborados e encaixados, toda a história é apresentada da forma correta, é caminhada devagar e vai deixando o espectador se acostumar com aquilo, para depois dar o golpe. Essa estrutura e a maneira de contar a história recorda muito o clássico de Roman Polanski, ‘O Bebê de Rosemary’ (1968), que aparentou ser uma das grandes inspirações ao longa. O próprio núcleo de personagens, a trama em si, a evolução da história e a resolução trazem muito do filme, o que, obviamente, torna-se um grande elogio ao trabalho de Aster.

O americano também nos brindou com uma imensurável direção, misturada com seu texto virtuoso. Seus movimentos de câmera e seus momentos de longos planos fazem de ‘Hereditário’ algo diferenciado. Enquanto o filme de Robert Eggers consegue proporcionar muito com a ambientação, aqui, o aterrorizante está nas câmeras de Aster. Com sua delicadeza, mas ao mesmo tempo, peso na hora de dirigir, ele explora o ambiente que tem e até brinca com proporções de tamanho, retratando assim, as maquetes, que, no filme, criam seu sentido de controle da personagem de Toni Collette, mas também serve para mostrar o quanto o próprio diretor também está nos manipulando, como se fossemos meros bonecos dentro de um ambiente fundado por ele. E por mais que o medo domine, embarcamos nessa “aventura”, deixando não só o coração acelerado, mas mãos suando e pernas trêmulas ao decorrer da conclusão. O visual também fica em evidência quanto a fotografia horrenda – no bom sentido – que desbrava muito bem o ambiente, mas também explora rimas visuais e imagens muito controladas, com câmera parada e movimentos secos, tudo dentro da intenção de Aster para com aquela história. História essa distante de momentos esporádicos, mas que brinca com coisas clássicas, como o sobrenatural e a loucura, transformando os dois em uma coisa só, fazendo também o público se questionar sobre aquilo, encaminhando-nos ainda mais para dentro do universo.

E em meio ao tema sobrenatural, já muito explorado dentro do cinema, ‘Hereditário’ consegue, bebendo de outras referências, entregar algo original. A mistura entre o sobrenatural, a loucura e o ceticismo traz um ponto de vista novo ao assunto, e o melhor, introduz todo tipo de espectador àquele mundo. Acreditando ou não no incomum, é fácil se relacionar com algum personagem. Dentro dessa relação está a grandeza no trabalho do elenco.

Fugindo do naturalismo de outros longas, recheado de atuações mais realistas, ‘Hereditário’ entrega o inesperado. Por mais que pareça estranho ler algo assim, é admirável ver um longa do gênero com atuações brilhantes e livres. Livres no sentido de Aster deixar o terror falar por si só, como permitir Toni Collette explorar feições de horror e tenebrosidade, sem qualquer “apoio”, seja sonoro ou visual. Inclusive, Collette, bem presente em obras cômicas e dramáticas na carreira, o terror apareceu pouco, sendo ‘O Sexto Sentido’ (1999) seu último grande destaque do gênero. Aqui, Collette atua menos confortável no drama e vive o terror de verdade. Suas caras aterrorizantes crescem não só seu trabalho, mas sua personagem e, consequentemente, a trama. A australiana entrega algo genial e o seu máximo, variando bem entre o dramático e o medo, e consegue, só com feições, trocar sentimentos e fazer suas ideologias caminharem entre o sobrenatural e a loucura, como a própria proposta pede. Os coadjuvantes, felizmente, conversam com a qualidade de Collette e entregam a mais do esperado. A também iniciante Milly Shapiro atua de forma grandiosa em meio a uma personagem mais contida, mas ainda assim, precisa. O peso da maquiagem não atrapalha a atriz mirim de mostrar seu trabalho. Inclusive, vive uma personagem que não recebe a atenção pelo visual, sem receber explorações de monstruosidade ou defeituosidade, mas no foco do seu mistério.

Gabriel Byrne é outro que realiza um bom trabalho. Diferente de Collette, seu personagem é mais controlado por carregar seu ceticismo e cientificismo. E Alex Wolff é outro destaque da produção. Com um segmento diferente do irmão Natt – que seguiu um caminho com produções medianas como ‘Cidades de Papel’ (2015) e até o péssimo ‘Death Note’ (2017). Alex se mostrou maduro como ator e trabalha na medida que seu personagem pede. Traumatizado, seus momentos mais internos e contidos são constantemente pedidos e o jovem de 20 anos faz bem. Suas caras e bocas são aparentemente exageradas, mas acompanham a trama de seu personagem. Além da direção e do texto, a trilha sonora também é um fator importante para ‘Hereditário’ ser o que é. Aparecendo nos momentos certos e no tempo exato, a trilha é quase um personagem a mais. Construído para ser ouvida em diferentes pontos da sala de cinema, deixa tudo ainda mais tenebroso. Baixos sons vindos da direita e da esquerda são comuns e leva o espectador para dentro do filme, elevando a tensão.

Por mais que elogios não faltam para o terror de Aster, ainda existe uma certo popularização em seu texto. Apesar de em determinadas situações, o americano explorar momentos clichês do cinema – como a luz estar apagada e ter alguém, e ao acender, não há ninguém – tudo é meramente feito com muito esmero. O problema está em sua solução. Os últimos minutos passam a ser explicativos e o que estava para ser um final ainda mais aberto, é levemente fechado. O último ato, ainda assim, conclui de forma grandiosa, mas peca em pegar uma boa parte para justificar os acontecimentos, e muitos deles, bem parecido com ‘O Bebê de Rosemary’.

Mas isso diminui bem pouco a genialidade do longa. Por mais que continue sendo cheio de artefatos clássicos, a originalidade ainda é o principal destaque. Particularmente, há tempos não me surpreendia nos cinemas com um filme de terror, e em 2015, fui quebrado, com um enorme peso em meus ombros no final da sessão. Enquanto acreditava que ‘A Bruxa’ havia me preparado para tudo, mas ‘Hereditário’ quebrou com maestria e segue sendo o melhor filme de terror do ano, e um dos melhores da década. Mesmo que críticos não sejam conhecidos por previsões precisas, posso dizer que um lançamento de 20 anos no futuro será chamado de “o novo ‘Hereditário’”.