Festivais de cinema sempre proporcionam experiências únicas. E quando falamos de experiências únicas, Cannes é a principal concentração de obras singulares. Dentro de seus 73 anos, o festival foi palco de exibições de cineastas como Lars Von Trier, Gaspar Noé e David Lynch. Por mais que possam haver críticas negativas diante várias obras, é inevitável dizer que são experiências que só o cinema pode proporcionar. O longa atual desse movimento – especificamente da seleção oficial da Mostra “Um Certo Olhar”, do Festival de Cannes de 2018 – é Border. Seu significado explora termos como “fronteira”, “margem” ou “bordar”, mas o mais próximo da verdadeira mensagem do longa é o significado direto do título original.

Gräns = limite.

No entanto, o longa sueco do diretor iraniano Ali Abbasi não possui tal termo em sua obra, principalmente ao explorar ao máximo sua fantasiosa, mas tão real, narrativa. A presença do longa em uma mostra com o título “Um Certo Olhar” conversa tão bem quanto o próprio nome do filme. Afinal, o olhar do espectador é direcionado diretamente para o rosto de Eva Malander como Tina, a força mais significativa de todo o longa. A sublime maquiagem envolta da atriz sueca é o primeiro chamariz para a atenção se manter 100% em tela. A curiosidade passada através de seu rosto marcado por cicatrizes e seu olhar profundo, fazem de Tina uma personagem inicialmente impressionante e que transmite estranheza.

A narrativa de Abbasi aproveita disso perfeitamente ao construir uma estrutura impecável para sua protagonista. Em primeiro plano, vemos Tina como um ser diferente, não só pelo seu rosto, como também pela habilidade única de “ler as pessoas” através do olfato. A ambientação da personagem, com uma moradia no meio da floresta e um trabalho como fiscal em aeroporto transmite a sensação de ser uma representação do instinto animal presente em cada um dos seres humanos. A sensação só cresce ao vermos a personagem em contato com a natureza e sua relação com o ambiente onde está inserida, sentindo-se muito mais livre quando sozinha, em contato com a floresta e ao redor dos animais.

O brilhantismo de Abbasi é apresentado quando seu roteiro – escrito junto com Isabella Eklöf – transforma essa interpretação em um incrível conto de fadas. Por mais que muitos possam enxergar a revelação como algo “fora da caixinha”, é fácil abraçar a história proposta pelos dois. Apesar de filmes com criaturas fantásticas explorarem uma ambientação propícia a elas, é interessante a maneira como os dois trabalham a mesma situação em nosso mundo real – característica já explorada por Abbasi em Shelley (2016) e M For Markus (2011), tornando-o um grande nome das criaturas fantásticas do cinema, ao lado de Guillermo Del Toro.

A quebra da expectativa e de tudo aquilo supostamente construído brilha os olhos daqueles que conseguem enxergar a ideia por trás do bizarro. O roteiro consegue muito bem ir apresentando as pistas aos poucos, para quando acontece a revelação, tudo criar um sentido. A revelação, no entanto, traz consigo o principal, porém pequeno, defeito do longa. Enquanto toda a estrutura inicial caminhava de maneira sóbria, a virada traz uma exposição desnecessária. Por mais que a cena em si crie uma justificativa, a presença de Vore (Eero Milonoff) funciona, neste momento, para explicar tudo o que o espectador precisa entender para continuar naquela correnteza, mas o momento se torna muito expositivo comparado como o roteiro vinha trabalhando até então, com diálogos construídos com esmero e muito cuidado para criar o mistério em torno daquele universo.

A partir da virada, o brilhantismo do cineasta iraniano não some. Em seguida da proposta já estabelecida, o roteiro entrega a verdadeira ideia sobre aqueles personagens e aquela realidade, e faz com o que inicialmente se mostrava bizarro, transforme-se em algo comum. Dentro de toda essa estranheza, o texto discute muito sobre o instinto humano, provando como temos a tendência de ultrapassar limites. Diante da realidade determinada, o roteiro trabalha principalmente o preconceito com o diferente. A presença de Vore, além como expositor, funciona para Tina enxergar o mundo de uma maneira mais realista, fora de sua bolha. Essa narrativa, por mais que se aproveite de personagens fantasiosos, funciona perfeitamente como uma metáfora para nosso mundo atual, algo que X-Men realizou nos quadrinhos durante os anos 60.

Aproveitar-se de personagens que são minoria para sofrerem as crueldades humanas faz com que passamos a olhar mais nós mesmos e nossas atitudes em relação a pessoas classificadas como “diferentes”.

A estrutura da animação Shrek (2001) apresenta características ainda mais próximas de Border. Não só pelos personagens em si, mas há um encaixe dentro da realidade preconceituosa. No início, Shrek vive em seu mundo, muito próximo da natureza e com seu perfil selvagem – afinal, estamos falando de um ogro. Porém, com o tempo, ele consegue se aceitar, principalmente ao encontrar alguém como ele, a princesa Fiona. Mesmo que Border não traga características infantis e animadas para sua narrativa, a história caminha de maneira semelhante. Há uma conversa muito próxima dos mutantes, não só no segmento preconceituoso, mas também de visão de mundo.

Claramente outras obras já exploraram o mesmo sentido, mas por já ter citado X-Men, é interessante trazer mais uma observação. Nos quadrinhos, Magneto e Charles Xavier possuem o mesmo objetivo de aceitação. Porém, Magneto com uma ideologia para atingir esse objetivo de forma mais violenta, enquanto Charles, não. Em Border, por mais distante que esteja dos personagens de quadrinhos, entrega uma reflexão parecida.

Ao todo, Border não só encanta tecnicamente, como também faz aquilo que o cinema precisa fazer: provocar e refletir. Aqui, os dois são predominantes, principalmente pela utilização significativa de uma criatura única e imaginária, mas que trazem características profundas e tão reais quanto a de um ser humano. Nisso, Border vai além de ser algo bizarro e traz um reflexo sujo sobre nossa humanidade e como nossas escolhas refletem em difíceis decisões tomadas por aqueles que perdem pela ultrapassagem de limite.