Nessa última década, Leandro Hassum e Ingrid Guimarães se solidificaram como as maiores estrelas da comédia nacional. Principalmente por conseguirem estabelecer uma trilogia, algo raro em produções brasileiras. Enquanto Hassum conseguiu com Até Que A Sorte Nos Separe (2012) e agora é a vez de Ingrid com De Pernas pro Ar 3.

Se os dois primeiros mostram a jornada de amadurecimento, independência  e descobrimento, não só do prazer, mas também da capacidade da personagem Alice Segreto diante do sexo e do empoderamento, com muito bom humor. Nessa continuação, a diretora Julia Rezende resolve discutir a sororidade entre as mulheres na tela. E conflito de geração é sempre o caminho mais seguro.

Só que a desconstrução da personagem, que se descobre como mulher e se torna uma workaholic – chegando a se sentir ameaçada e competir com a jovem namorada do filho – soa de forma estranha, mesmo tendo sido estabelecido nos dois longas anteriores.

Ingrid Guimarães traz o seu carisma para as cenas  mais inusitadas e combina com os dilemas de uma mulher bem sucedida  e extremamente workaholic, que precisa tentar conciliar trabalho e família. Porém, isso acaba ficando cada vez mais difícil com o sucesso da sua marca (Sex delícia) ao redor do mundo. Com isso, ela perde o crescimento dos filhos e se torna distante na relação com  João (Bruno Garcia).

Incomodada com esse distanciamento, ela abre mão da empresa pra ficar com a família. Só que nesse retorno ela se sente deslocada e perdida em um mundo que não lhe pertence mais. E quando vê a jovem Leona (Samya Pascotto), agora expoente no mercado de produtos adultos, ela se sente ameaçada, não só roubando seu espaço no mercado do sexo como também a proximidade com seu filho Paulinho (Eduardo Mello).

O longa, mesmo andando no caminho seguro de uma personagem bem estabelecida – e de falar para um público já acostumado – pesa a mão para mostrar a protagonista como uma mulher com uma visão machista, em conflito com as convicções feministas mais ligadas com a jornada traçada no primeiro filme.

A personagem de Samya, ao mesmo tempo que se mostra conectada com a realidade atual das mulheres, expõe Alice a machismos e caretices que não combinam com aquela mulher que ganhou o mundo fazendo mulheres gozarem. O ícone que, ao mesmo tempo envergonha e fascina as mães na porta da escola, fica parecendo mais uma mulher perdida no seu próprio tempo e na sua própria jornada de desenvolvimento.

As esquetes se multiplicam e o terceiro ato tem uma apressada resolução para ter um final previsível. No fim, De Pernas Pro Ar 3 se provou uma boa diversão, mas que não acrescenta nada a um gênero bem estabelecido do cinema nacional de comédias românticas.