Por mais que filmes de super-heróis ainda conquistam o coração dos fãs, existe uma certa previsibilidade no formato e nas soluções da história. Por sorte, “Deadpool” é o escapismo de uma fórmula padrão e fornece ao espectador uma ótima adaptação de um quadrinho do personagem.

O surgimento do mercenário tagarela se dá no início dos anos 90, pelas mãos de Rob Liefeld e Fabian Nicieza, como vilão em uma história dos Novos Mutantes. O humor ácido, o espírito “zoeiro” e a arte da quebra da quarta parede veio sete anos depois, em seu primeiro título próprio, escrito por Joe Kelly e Ed McGuinness. A essência do personagem ganhou uma legião de fãs e histórias extremamente malucas e hilárias nos quadrinhos. Já nos cinemas, a responsabilidade foi de Ryan Reynolds – tirando aquela aberração em ‘X-Men Origens: Wolverine’ (2009). Mesmo massacrado, o ator não desistiu de realizar uma adaptação do jeito mais fiel possível e conseguiu entregar o sucesso que foi ‘Deadpool’ (2016). Não muito diferente do primeiro, ‘Deadpool 2’ ainda consegue ser superior. Parece estranho, mas a trama dos dois longas trazem semelhanças, principalmente no plot principal do personagem. Nos cinemas, a ambição de Wade deixou de ser o dinheiro e passou para sua paixão: Vanessa Carlysle. Não é à toa a campanha chamar a sequência de um filme mais família. A jornada de Wade, tanto no primeiro quanto no segundo, gira em torno de sua paixão, que ganha ainda mais força aqui. Mesmo iguais, ‘Deadpool 2’ é maior em todos os sentidos.

Enquanto o primeiro – por questões financeiras – cria uma história “menor”, aqui, tudo é aumentado – um pouco da síndrome do segundo filme. A introdução do agente do futuro, Cable, já demonstra não só um crescimento financeiro para a produção, mas também em oportunidades de loucuras e ação. A própria troca de diretores mostra isso. Enquanto o primeiro, que foca mais na origem do personagem, tinha o novato Tim Miller como diretor do projeto, o segundo quis explorar, principalmente na questão técnica da ação, e David Leitch foi a escolha perfeita. No filme de 2016, a história exigiu menos do personagem em cenas de ação corpo a corpo, já aqui, com um diretor que entende do negócio – vide ‘Atômica’ (2017) e ‘John Wick’ (2014) – a situação é diferente. A sequência exigia um diretor capaz de uma filmagem mais limpa e seca para lutas corpo a corpo, principalmente para os embates entre Cable e Deadpool, além de outras lutas grandiosas do filme. Leitch fez um belíssimo trabalho com ação, mas decepciona nos efeitos especiais. Diversos acontecimentos e situações exigem uma alta quantidade de CG, entre elas, um plano sequência espetacularmente bem dirigido, mas que falha ao deixar um falso fundo de tela com uma imagem praticamente retirada de um Playstation 4.

Personagens, como Colossus – e outras surpresas – que exige do CG, não decepcionam e fazem um bom trabalho. Aliás, no quesito personagens, ‘Deadpool 2’ faz um trabalho magnífico em brincar com a expectativa do público. Como uma HQ, coisas inesperadas acontecem, em prol do humor ou do desenvolvimento da história.

Certas obras cinematográficas exigem conexões e coerência em seu roteiro. Sim, é necessário um filme ter isso, mas personagens como Deadpool, que já trazem em sua essência a loucura do texto e situações bizarras – sem se preocupar se um personagem que acabou de ser apresentado vai sumir ou se uma pessoa entra na história repentinamente – é aceitável e, por incrível que pareça, necessário  nesse tipo de história. As surpresas estão presentes, sendo algumas bobas ou grandiosas. E isso é lindo. Num período em que teorias são formadas a cada minuto, ‘Deadpool 2’ chega com situações inesperadas, surpreendendo quem assiste. Esse estilo de narrativa merece uma atenção em meio a produções previsíveis. e foi isso que transformou o primeiro em um fenômeno.

 

 

Outro fator importante foi, na verdade, um cara: Ryan Reynolds. Como citado no meu texto sobre a coletiva com Morena Baccarin, a brasileira rasgou elogios ao ator em sua ambição de fazer um trabalho bem feito. Sendo tanto produtor quanto roteirista do filme, é clara a presença de Reynolds em tela, não só na pele do personagem, obviamente, mas também em levar muito dele ao mercenário, sem excluir a essência do mesmo. É claro que existe uma necessidade de redenção quanto a sua filmografia, mas não se torna prioridade. A necessidade de alegrar os fãs e fazer um bom trabalho é nitidamente maior, e olha, é preciso aplaudir de pé. Mas como um bom filme família, Reynolds não faz o trabalho todo sozinho. Rhett Reese e Paul Wernick retornam como roteiristas e não decepcionam, em não só crescer ainda mais o personagem, como também não fazê-lo perder a essência, mesmo com toda a pieguice que a história traz.

Alguns filmes até aparentam zuar de si próprio, mas parece que só com Deadpool funciona, já que o personagem sabe o que ele vive e sabe que tudo aquilo é preguiçoso e clichê. Sobre o novo elenco, Josh Brolin rouba a cena mais uma vez na pele de um personagem da Marvel e consegue transmitir todo peso, dor e brutalidade que Cable exige. Todo o arco do agente funciona perfeitamente, também abraçando toda a pieguice, e conversa bem com a atual situação de Deadpool. Aliás, a química entre Reynolds e Brolin é imbatível, como se fossem perfeitos um para o outro (espero que Hugh Jackman não leia isso). Relembrando novamente o texto da coletiva, Baccarin comentou sobre o girl power do longa. Infelizmente, ele é presente exclusivamente a Dominó, que teve seus poderes brilhantemente bem representados. Zazie Beetz já vinha apresentando um bom trabalho em ‘Atlanta’ (2016 -), mas é maravilhoso ver a presença dela como super-heroína e, nitidamente, curtindo estar fazendo aquilo, apesar de que sua força não é bem balanceada com outras personagens, ganhando os holofotes para si. Obviamente isso não é um defeito, mas deixou a desejar em participações importantes das outras personagens.

Além de personagens e a trama, ‘Deadpool 2’ traz uma trilha sonora impecável. E obviamente incluo a maravilhosa “Ashes” (cantada por ninguém menos que Céline Dion), mas é presente outros estilos musicais que só colocam ainda mais o espectador dentro da história. Aliás, o uso da canção de Céline do filme é uma obra prima.

Classificar Deadpool 2 como dispensável é uma ode ao cinema de herói. Pode parecer exagero, mas filmes como esse e ‘Logan’ (2017) servem para demonstrar que o cinema está aberto para explorar a extrapolação em filmes de gênero, sem manter a mesmice. ‘Deadpool 2’ não tem o melhor roteiro, não tem a melhor direção, mas faz aquilo que muitas franquias não conseguem: filmes que se superem e sejam maiores e mais evoluídos. E como o melhor deixamos para o final, é preciso e obrigatório ficar até o final e assistir a cena pós-créditos, disparada, a MELHOR de qualquer outro filme de herói feito até hoje.