Em 2004, James Wan conquistou o cenário do terror com sua estreia como diretor em Jogos Mortais. Com roteiro poderoso e direção consistente, o longa chamou a atenção por seu poderio no gênero e foi o ocorrido necessário para o diretor australiano transformar seu nome em uma marca, ainda mais após o lançamento de Sobrenatural (2010) e então sua entrada em um universo próprio, iniciado com Invocação do Mal (2013). Desde então, o cineasta se manteve concentrado na concepção do seu universo e deixar sua marca ainda mais estabelecida. É inevitável todo o vigor que o nomeado “Wanverso” estabeleceu desde 2013, ainda que houvesse obras duvidosas. 

Ao lado de outros cineastas, Wan se tornou a cabeça por trás das principais histórias de uma franquia lucrativa e que beira ao universo compartilhado. No entanto, diante os seis filmes realizados (sendo Annabelle 3: De Volta Para Casa o sétimo) apenas os longas com a direção de Wan demonstraram qualidade cinematográfica sustentável.

Ainda que os textos dos dois Invocação do Mal explorem construções clássicas, por assim dizer, a qualidade técnica do australiano supera qualquer acontecimento previsível, algo não ocorrido nos outros cinco longas. Um tanto problemática na questão técnica, a trilogia da boneca horripilante passou por três direções diferentes. Consequentemente, os tons de cada filme não se conversam, sendo o primeiro mais trabalhado no drama (conseguindo ser o pior deles), o segundo com um tom mais aterrorizante, e o terceiro, que tenta um equilíbrio de tudo, mas acaba tendo mais sucesso no cômico. Algo curioso diante o fato de Gary Dauberman ser o nome por trás da personagem desde o primeiro longa, no qual assumiu o roteiro. Aqui, o americano fica responsável tanto pelo texto, quanto pela direção, e só comprova a falta de experiência. 

Diante um texto simplório nos dois longas de Wan, Annabelle sofre desde o primeiro com um texto ineficiente e com direções que não sustentam a tensão que a personagem exigia. Era esperado que Dauberman conseguisse atingir, finalmente, o ápice com uma conclusão digna da marca da boneca para concluir sua jornada ou manter sua força ainda viva. Porém, as mesmas se mantiveram imóveis dentro do cubículo de vidro, junto com o artefato. O texto prevalece deficiente na construção de uma história coesa com sua personagem ou com seu próprio universo.

Há uma tentativa de evolução, aproveitando-se dos personagens principais da franquia – o casal Warren, no caso – mas que é mal explorado, já que o foco se mantém mais no drama da personagem de Katie Sarife (introduzida como coadjuvante) ao invés de Vera Farmiga e Patrick Wilson. Há até uma falta de cuidado na construção da personagem de McKenna Grace – mesmo com sua boa atuação, apesar do papel banal – como filha dos dois principais, muito pelo foco passar mais pelo drama da coadjuvante do que um trabalho propriamente focado naquela esperada.

A escolha não é de toda ruim, até porque existe uma boa intenção ao transportar o foco da história para outro meio. No entanto, a escolha gera consequências negativas para o caminhar da narrativa, já que o roteiro se deleita muito da banalidade do gênero, resultando em momentos vergonhosos com humor fora do tom, estragando um clima já não muito agradável.

Do mesmo modo que Annabelle falha em determinar seu clima central, o terceiro filme erra em não dar certo equilíbrio, com momentos de terror misturados com humor sem qualquer construção orgânica. Wan se aproveita muito do respiro, estrutura bem clara em suas narrativas, com momentos de muita tensão seguidos de momentos de calmaria. Porém, a “pausa” é funcional à história e caminha com a jornada dos personagens, não excluindo o espectador daquele universo. Dauberman realiza a mesma façanha, mas de maneira problemática.

Seus respiros são inconsistentes e afastam o espectador de todo clima anteriormente proposto, nisso, é comum Annabelle 3: De Volta Para Casa trazer momentos de tensão (ou quase isso) e, em seguida, suas personagens agirem de maneira leve e cômica, como se nada tivesse acontecido anteriormente. Tudo se torna falso e não faz o público presente embarcar na mesma jornada. O afastamento é também justificado pela quebra do clichê, que, consequentemente, torna-se um clichê por si só. No caso, cenas que bloqueiam o rosto do protagonista, por exemplo, costumam resultar em momentos de susto, mas, há a estratégia de se aproveitar dessa construção para gerar a tensão – já que o público espera o susto – mas que, no fim, não acontece nada. Esta quebra do clichê, quando muito usado, também se torna um. E o filme se sustenta muito desta situação para gerar uma quebra, porém, resulta em pura frustração. 

O verdadeiro poder do longa está em sua tentativa de introduzir novas extensões à franquia. Enquanto Invocação do Mal serviu como a base desse futuro, gerando o longa da Freira, do futuro Crooked Man e da própria Annabelle, agora passou a vez da boneca transportar sua função ficcional de “canal” ao mundo real para lançar novas entidades e, assim, resultar em novos filmes.

O roteiro de Dauberman estabelece uma estrutura que funciona perfeitamente para introduções de, pelo menos, mais quatro novas histórias. Estratégia essa, do ponto de vista mercadológico, inteligente, já que os novos personagens funcionam dentro da proposta, ao mesmo tempo que funcionam como introdução de possíveis novos filmes. Entretanto, Annabelle 3: De Volta Para Casa, aparentemente, manteve-se só com esse intuito. Não há uma história interessante o bastante para sustentar os 106 minutos de longa, então o resultado são diversos acontecimentos que se aproveitam da boneca como centro. Diferente do que ocorre nos dois filmes anteriores, já que Annabelle (2014) introduz a verdadeira face da personagem após sua pequena aparição em Invocação do Mal e o segundo é responsável por esclarecer sua origem. Enquanto o terceiro funciona como uma forçada extensão de uma história já inexistente. 

As únicas reflexões deixadas pelo longa são sobre o futuro da personagem no universo e sobre o futuro da franquia, que demonstrou uma necessidade do carinho do público pelos novos personagens para uma possível estratégia de construir novas histórias.