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Tomas Portella é um dos diretores mais versáteis que estão surgindo no cinema nacional. Até o ano passado, o diretor já havia se aventurado na comédia, com ‘Qualquer Gato Vira-Lata’ (2011), no suspense, com ‘Isolados’ (2014) e no thriller policial, com ‘Operações Especiais’ (2015). Em ‘Desculpe o Transtorno’, Tomas volta ao gênero da comédia com um toque de romance contando a história de Duca (Gregório Duvivier), um carioca que se mudou ainda criança para São Paulo após a separação dos seus pais, mas que passa a sofrer de dupla personalidade sempre que sente encurralado a tomar uma grande decisão. É aí que ele fica dividido entre seu lado paulista e carioca, além de ficar entre sua namorada Viviane (Dani Calabresa) e Bárbara (Clarice Falcão), uma nova paixão que conhece quando volta ao Rio.

Além da dupla principal, ‘Desculpe o Transtorno’ reúne alguns integrantes do famoso grupo de humor ‘Porta dos Fundos’, e talvez por isso seu estilo de humor se assemelhe bastante, uma espécie de sátira com estereótipos das duas cidades, mas evitando os aspectos pejorativos (como o trânsito de São Paulo ou a violência do Rio) e se focando nas diferenças comportamentais dos personagens – os paulistas são apresentados como mais focados no trabalho e organizados e os cariocas mais espontâneos e receptivos. Entretanto, a personagem de Dani Calabresa é caricata ao extremo, representando o lado mais fútil do paulista atual, fascinado por “selfies” até nos momentos mais impróprios e produtos “gourmetizados”, por exemplo, o que pode soar um tanto ofensivo, haja vista que o “outro lado” não tem um representante como este, mostrando certa “arbitrariedade” por parte do roteiro e da direção.

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Crédito: Divulgação

Apesar de alguns bons momentos, especialmente vindos dos amigos de Duca, interpretados por Rafael Infante e Daniel Duncan, o humor do filme nem sempre funciona. Na verdade, conforme a história avança o tom do filme fica cada vez mais melancólico, e ao invés do espectador dar mais risadas, o sentimento que vai florescendo é cada vez mais reflexivo, fazendo pensar na importância de tomar as rédeas da sua vida e aceitar a si mesmo para tentar encontrar a felicidade. A questão do transtorno dissociativo de identidade também não é muito aprofundada – diferente de uma comédia “sombria” que fez isso recentemente se baseando na obra de Dostoievski, chamada ‘O Duplo’ (2013), de Richard Ayoade – e serve apenas como pano de fundo para o romance entre Duca e Bárbara e, é claro, como base para o arco dramático do personagem principal do filme, que obviamente precisa de uma transformação interior (não poderia começar e terminar o filme da mesma forma).

O romance entre Gregório e Clarice no filme é bem construído. Ambos são personagens complexos e irreverentes e suas cenas contém os diálogos mais reflexivos e bonitos do filme, bem como a forma como as cenas são filmadas, transpirando delicadeza e um sentimento verdadeiro (não sei na época das filmagens como estava a relação entre os dois, mas no filme funciona muito bem). Entretanto, esses três aspectos (humor, romance e o drama do protagonista) parecem não funcionar organicamente dentro da história, tornando o filme difícil de se conectar por esta falta de “identidade”, digamos assim. Dito tudo isso, podemos considerar ‘Desculpe o Transtorno’ um filme bem diferente do que os trailers demonstraram e a própria escalação do elenco deu a entender. Não estamos diante de uma comédia, com o intuito de fazer o espectador rir. O filme parece mais uma “dramédia”, mas diferentemente do que um filme como ‘Click’ (2006), por exemplo, conseguiu fazer com maestria, aqui os elementos talvez funcionem isoladamente em alguns momentos, mas não homogeneamente. ‘Desculpe o Transtorno’ merece elogios pela abordagem pouco usual, mas sua execução não foi boa suficiente para entrar para a galeria dos melhores filmes nacionais do ano.

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Crédito: Divulgação