Em entrevista ao Super Cinema UP, o diretor do filme “Bingo: O Rei das Manhãs”, Daniel Rezende, contou à nossa editora-chefe, Marina Capretti, como foi que a ideia do projeto surgiu e o motivo de ter escolhido representar o icônico palhaço Bozo.

“Então, na verdade a ideia surgiu faz mais ou menos seis anos, quando Dan Klabin me apresentou uma matéria sobre a vida do Arlindo Barreto presente em uma revista. A gente se encontrou no avião e eu estava procurando um primeiro projeto para começar como diretor e eu queria um projeto que fosse uma história interessante, dramática e profunda, mas que ao mesmo tivesse uma pegada pop, que pudesse se comunicar com as pessoas. Então eu encontrei com ele [Klabin] em uma ponte aérea e ele falou ‘Cara, eu li uma matéria sobre a vida de um cara, que eu acho que daria um grande filme, lê essa matéria aí. Você vai chegar em casa ler essa matéria, você vai me ligar e falar ‘Vamos fazer esse filme’; eu cheguei em casa, li a matéria, liguei pra ele e perguntei ‘Você tem os direitos da vida dele?’, e ele me respondeu ‘Não, mas a gente consegue’, aí conseguimos os diretos, fomos na Gullane, produtora do filme, fomos na Warner, e sete anos depois temos ‘Bingo: O Rei das Manhãs'”.”

 

“Aqui tem uma grande história, a gente precisa encontrar um grande filme aqui dentro”

Daniel Rezende

Diretor

 

O cineasta brasileiro revelou que o projeto levou mais tempo do que a gente imagina para chegar até os cinemas, e que isso se deu porque o filme precisava ser muito bem elaborado, demandando tempo.

“Acho que levou um ano e meio mais ou menos, sendo sete, oito semanas de filmagens. É um filme grande, pode não parecer mas tem muito efeito. Foi um projeto que durou seis, sete anos desde sua concepção. Trabalhamos muito no roteiro com Luiz Bolognesi, foram muitos anos trabalhando com o roteiro, porque quando eu li a matéria sobre a vida do Arlindo Barreto eu falei ‘Aqui tem uma grande história, a gente precisa encontrar um grande filme aqui dentro’, que são duas coisas completamente diferentes, muitos acham que uma grande história dá um grande filme, não, muito pelo contrário, às vezes uma grande história dá um filme horroroso porque você se perde naquela história tão grandiosa. A gente trabalhou muito no roteiro para conseguir entender esse filme, que é um filme de personagem, é um filme de um cara que quer encontrar seu lugar sob os holofotes e toda a sua derrocada em busca do reconhecimento, e teve uma coisa que me pegou muito, eu achei aí uma história que podia falar sobre a nossa cultura pop, eu acho que o nosso cinema tem essa defasagem, essa história além de falar sobre a nossa busca por reconhecimento, também é a história bonita de pai e filho, o que me interessou muito, esse cara que apresentava um programa infantil e que ao mesmo tempo começa a se desconectar do filho, quem é essa pessoa por trás da máscara? O que ele pensa, o que ele faz? Uma coisa que me interessava muito era que a gente em casa assistia qualquer programa na tv, e a gente vê o que a câmera mostra, a gente nunca vê o outro lado.”.

 

 

Quando perguntando sobre o processo de direitos autoriais, Rezende disse que foi um processo sem problemas, porque na verdade ele não queria retratar aquela vida e sim se inspirar nela, “O que me interessou foi a vida do Arlindo Barreto, então vamos fazer aí uma história baseada nessa vida, não é uma cinebiografia, a gente usou a vida dele como inspiração, criamos o nosso próprio universo, tanto é que os personagens têm outros nomes. A gente ficcionalizou tudo, desde o início a gente queria ter liberdade criativa, principalmente sobre a vida do Arlindo, e ele foi muito generoso em não só abrir a vida dele pra gente, como confiar na gente, que iríamos conseguir fazer um filme que respeitasse a vida dele mas ao mesmo tempo tivesse vida própria.”.

Quando se assiste à “Bingo: O Rei das Manhãs”, você se transporta para a década de 80 e essa intenção foi criada com muita cautela pela equipe, “A direção de arte tem que estar completamente fiel, sem estar em primeiro plano. A década de 80 é uma época muito fácil de errar, é feita pra você errar, que é a década do exagero, tudo é exagerado, maquiagem, figurino, as coisas são exageradas, então a chance de errar era 122%, e a gente falou ‘Ela tem que estar lá como pano de fundo para os personagens brilharem”, mas era tudo, roupa, cabelo, todas as locações, e a trilha sonora completamente planejada antes de filmar”. Daniel Rezende ainda acrescenta, “Quando a gente chegava na Gullani pra fazer o filme, eu disse ‘Pega o filme que vocês fizeram no orçamento, pega o máximo que já gastaram em música, dobra esse orçamento e vai faltar, a música tem que ser um personagem nesse filme. Então tudo isso foi pensando pra fazer esse túnel do tempo.”.

Além do cineasta Daniel Rezende, entrevistamos Vladimir Britcha, que interpreta Bingo e Augusto. O ator foi questionado sobre como ele avalia a performance dele no longa.

“Acho que no cinema essa foi a melhor oportunidade que eu já tive, de abranger um aspecto grande, um grande personagem, ele é trágico, ele é cômico, ela carrega os dramas dele. Eu acho que ele é um personagem que poderia transitar por tudo que de alguma forma eu já interpretei em trabalhos específicos, ele trazia tudo aquilo, e eu achava que isso era uma boa oportunidade. Eu tenho que agradecer ao roteiro muito bacana que tinha essas possibilidades, e a condução do Daniel [Rezende] porque a condução dele para o ator é uma coisa preciosa.”.

 

 

Antes de interpretar Bingo, Vladimir atuou por cinco anos na série “Tapas e Beijos”, levantando a questão de como foi se desprender de Armani para dar vida a Bingo, “Eu tive essa preocupação, na verdade, eu tenho essa preocupação há muito tempo, porque antes de ‘Tapas e Beijos’, eu fiz uma outra série, que era a ‘Separação’, e antes tinha uma outra série também de humor, que eu fazia, que era ‘Faça a Sua História’, quando eu fui fazer o Armani eu já me preocupei com isso, eu falei ‘Vou fazer humor de novo’. Todo comediante tem seu palhaço, e o seu palhaço tem um timing que pertence à ele, é único, você vai rever. Mas quando eu fui fazer ‘Tapas e Beijos’, eu falei assim ‘Eu vou fazer humor de novo e será que é possível subverter a ordem de que você só tem um jeito de fazer graça?’, que dizer, tem um timing que te pertence, será que não tem um jeito de você desenvolver outro? E eu me propus à isso quando fui fazer ‘Tapas’, eu procurei onde eu podia mudar, no fundo o meu humor também é corporal, mas eu já tentava, na verdade eu sou atento a isso há algum tempo, de tentar fazer uma coisa muito difícil que é fazer humor sem ser parecido com outro. Quando fui fazer esse filme eu também fiquei atento para fazer isso diferente, quando você tá gravando, na hora que você tá focado e já bem preparado, fica tudo bem, mas durante a preparação eu me vi em algum momento repetindo uma muleta, um negócio que eu fazia no ‘Tapas’, nisso meu deu um estalo e eu ‘Opa, fica atento com isso’, ficar atento foi o exercício, ainda bem que eu tive uma preparação.”.

Por último, o ator contou como foi transitar de um personagem para outro, totalmente oposto, sendo Bingo um apresentador alegre e bem humorado, enquanto Augusto vive seus próprios dramas.

“Isso é uma das coisas fascinantes do personagem, isso também tem um pouco a ver com o ator, eu já entrei em uma situação no palco de ter que fazer uma coisa e estar vivendo uma coisa absolutamente diferente daquilo. E a gente tem que virar essa página, a gente tem que ser capaz dessa dualidade e o personagem de alguma forma carrega isso, na verdade é um artista que vai ter que transitar, lidar com suas inquietações e na verdade é impossível você não carregar um pouco daquilo no seu ofício, você tem que saber lidar e transformar isso, mas é impossível não carregar. Mas na verdade é muito bom fazer isso, fazer esse cara, carregar tanto desejo e frustração tão próximos.”.

 

 

Curiosidades

1 – À princípio, quem iria interpretar Bingo era o ator Wagner Moura, porém por motivos de projetos e agenda ele não conseguiria interpretar o protagonista, com isso, o próprio Wagner indicou Vladimir para Daniel.

2 – O ator mirim Cauã Martins, que dá vida ao filho de Augusto, não passou em seu primeiro teste, mesmo assim o ator participou de um teste no qual Daniel o viu, adorou e o escolheu para o papel.

3 – A risada diferenciada do personagem Vasconcelos, interpretado por Augusto Madeira, foi inspirada na risada do produtor Wally, Augusto Madeira a imitou durante as gravações para a surpresa de todos. Na verdade o ator riu daquele jeito para brincar, porém Daniel gostou tanto da improvisação que quis que essa fosse a risada do personagem até o fim do filme.

“Bingo – O Rei das Manhãs” já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Leia a nossa análise sobre o filme aqui.