Após dois anos do falecimento de sua esposa, Jorge (Júlio Machado) ainda luta com a dificuldade em lidar com o seu luto e o de sua filha Dalva (Nina Medeiros), que perdera a mãe muito cedo e agora se encontra sozinha mesmo com a companhia de sua tia Cristina (Luciana Paes), que mora na casa do irmão enquanto aguarda o tão sonhado casamento para poder enfim cuidar de sua própria casa e família.

Dalva que passa os dias no quintal enterrando suas bonecas e as noites vendo filmes de terror, como A Noite dos Mortos-Vivos e O Cemitério Maldito, se vê cada vez mais sozinha quando sua tia se muda para a casa do noivo e seu pai com quem quase não tem contato vai ficando cada vez mais distante como se transformasse em um dos mortos vivos dos filmes que tanto vê, frente ao abandono a garota influenciada pela crendice da tia acredita que através de seus poderes sobrenaturais é capaz de trazer sua mãe de volta dos mortos.

Tanto os tais poderes de Dalva assim como as assombrações que perturbam Jorge até leva-lo a um estado catatônico, não são confirmados durante a maior parte do tempo, tudo aqui fica no terreno da sugestão, o terror é construído internamente em cada personagem, no seu luto, no seu silencio, diferente da maioria dos filmes do gênero, que aposta em fatores externos para construir tensão, a angustia dos personagens que parecem que nunca chegam a se expressar é a fonte de tensão, e a naturalidade como os elementos mais fantasiosos são apresentados faz com que o sobrenatural e as dificuldades reais daquela família se entrelacem, o horror vem tanto de Dalva realizando rituais para ressuscitar a mãe, enterrando dentes no quintal, quanto da indiferença de Jorge que sem saber lidar com a filha parece que simplesmente desiste de ser pai.

A Sombra do Pai constrói com eficiência a tensão em ambas as frentes, fazendo com que você anseie a resolução tanto do que poderia ser um filme de mortos vivos quanto da redenção desta família, mas no final não entrega nenhum nem outro, as atuações na maior parte do tempo silenciosas e a trama que parece solta fazem com que o filme não exteriorize seus tormentos e não chegue ao ápice tão aguardado.

Diferente de seu outro filme do gênero, Animal Cordial (2017), em que tudo era explicito, agora Gabriela Amaral deixa tudo mais sutil e obscuro na construção de uma atmosfera de tensão e terror que no final não se confirma, as cenas silenciosas e os sinais apresentados durante o filme parecem nos preparar para algo que no final nunca acontece, resultando em uma apreensão que não é aplacada.