Em 1995, “Toy Story” entrou para a história do cinema pelo uso exclusivo da animação computadorizada na produção de um longa-metragem. Com uma história original e criativa de John Lasseter, fomos apresentados a Woody, Buzz Lightyear e a uma série de brinquedos com personalidades distintas em filme para crianças, mas sem subjugar a inteligência das mesmas. Em 1999, “Toy Story 2” continuou a história dos carismáticos brinquedos, agora com o claro objetivo de passar um recado para adultos, em especial aqueles colecionadores, mas sempre com uma doçura nas relações entre os personagens, tornando o longa igualmente atrativo para os menores.

 

Após a produção do segundo filme, os executivos da Pixar, até então independente, diziam que “Toy Story 2” seria a única exceção a regra do estúdio em não produzir continuações de suas histórias. Em 2006, porém, o cenário mudou bastante visto que o estúdio foi comprado pela The Walt Disney Company, que até então apenas distribuía os filmes da Pixar. Assim, em 2010, foi lançado “Toy Story 3”, um filme que pegou muitos marmanjos de surpresa, os quais não esperavam chorar o quanto choraram em um suposto filme “de criança”. A questão é que o terceiro filme da saga dos brinquedos, praticamente, não tem defeitos e além de trabalhar muito bem com a nostalgia para o público que cresceu assistindo e reassistindo os longas anteriores, deu uma belíssima conclusão para a história.

 

Nesses quase 10 anos que nos separam do terceiro filme da franquia “Toy Story”, a Pixar quebrou a sua antiga política mais de uma vez, e infelizmente os resultados não foram majoritariamente satisfatórios. “Toy Story 4” não é o pior, mas definitivamente está bem longe dos melhores filmes da Pixar. Dar continuidade a um ciclo tão bem fechado na trilogia não seria uma tarefa fácil, de fato, mas a decisão de incluir 8 escritores para o filme não ajudou em nada, resultando em uma colcha de retalhos disformes.

 

Quando o filme foi anunciado, cerca de 6 anos atrás, John Lasseter havia dito que o filme seria uma comédia romântica entre Woody e Beth, uma grande novidade que poderia ter dado muito certo se tivessem seguido essa premissa até o fim, mas neste intervalo o filme passou por diversos problemas em sua produção, incluindo o afastamento do próprio criador, Lasseter. A história, então escrita a 8 mãos, traz os fragmentos do que poderia ter sido uma boa comédia romântica, outros fragmentos de uma boa comédia “pastelão” e ainda pequenos fragmentos, muito mal aproveitados, de um ótimo filme de terror. Mas juntos, esses fragmentos não conseguiram entregar o mínimo de uniformidade e fluidez para uma digna continuação.

 

O primeiro sinal de desbalanço do filme é a quase insignificante participação de personagens como Rex, Slink, Sr. E Sra. Cabeça de Batata, Jessie e Bala no Alvo. Mesmo que tais personagens tivessem uma importância menor nos filmes anteriores, existia um motivo para cada um deles estar ali e eles participavam como pequenas engrenagens de uma história maior. Agora, transparece a ânsia em apresentar novos personagens, com os visuais mais esdrúxulos, para acumular mais brinquedos nas lojas em todo mundo. Inclusive, chega a ser patética a quantidade de variações do personagem Garfinho (um brinquedo originalmente de sucata) que se pode encontrar nas lojas desde o mês passado.

 

Buzz Lightyear, em comparação aos outros, perdeu menos espaço no quarto filme, entretanto sofreu um golpe muito pior dos roteiristas: uma gigantesca involução de seu intelecto. Nos três filmes anteriores, Buzz tinha um papel chave influenciado por alguma intercorrência (o fato de pensar ser um astronauta no primeiro, a sua substituição por uma nova versão do boneco no segundo, e as ocasiões em que teve o seu botão reset apertado no terceiro longa), mas neste longa nada do tipo acontece com ele. Dessa vez, o personagem tem única piada, que subestima e muito o potencial do personagem apresentado anteriormente, e se repete inúmeras vezes, como um quadro sem graça da “Praça é Nossa”.

 

Por outro lado, se para Buzz não teve espaço para um desenvolvimento elaborado, para o Woody a tentativa de criar-se um arco de evolução tomou a maior parte do filme. Mas isso não significa que foi criado um arco elaborado, pois o diretor Josh Cooley, em sua estreia na direção de um longa, se preocupou em apresentar um desenvolvimento “do zero”, dando muita importância em apresentar o que já era de conhecimento de todos. Claro que se precisa considerar que existem gerações entre os filmes, e apresentar os personagens para um novo público é necessário. Mas o tamanho da carga emocional sobre Woody é tanta, que chega a ser incoerente com o desenvolvimento do personagem nos longas anteriores. Em poucas palavras, em 140 minutos o personagem vai do altruísmo extremo para o egoísmo extremo. A icônica música tema do filme “Amigo estou aqui” perdeu a sua essência, e faz com que o filme se afirme como um apelo comercial sem sentido e muito menos valor.

 

Essa ausência de valor não impede o filme de ser visualmente belo, com uma fotografia deslumbrante, mesmo que totalmente criada digitalmente. Está cada vez mais claro o avanço tecnológico nas animações, e comparar o primeiro filme (de 1995) com este de 2019 é um excelente termômetro, visto que são os mesmos personagens, sem alterações nos visuais.

 

Desde modo, “Toy Story 4” não honra a história da franquia e, por mais que apresente um visual deslumbrante, mostra que não são horas perdidas na frente do computador para criar um feixe de luz que entra em um ambiente empoeirado que fazem um bom filme, mas sim horas perdidas (e talvez menos cabeças) pensando em um roteiro que traga conteúdo e valor. Longa estreia nessa quinta-feira, dia 20.