“Ele tem mais medo de você, do que você dele”. Toda criança já escutou isso alguma vez sobre algum animal. E como que seria essa frase para os mitos? Particularmente, quando eu assisti ao primeiro trailer de Pé Pequeno eu me encantei com a genialidade da trama. Não pela ideia em si, mas pelo fato de sua simplicidade, o que a torna genial.

Por mais que o plot principal já seja surpreendentemente divertido pensar, a animação consegue desenvolvê-lo para algo maior e ainda mais genial, tratando uma ideia complexa e pesada de forma divertida e leve.

A história da humanidade e das civilizações se devem aos mitos. E assim, sociedades são dominadas e controladas por aqueles que foram os primeiros a contar. Ao olhar aquilo que não entendemos, criamos teorias para tentar explicar o inexplicável. Assim, formou-se geocentrismo, terra plana e monstros marinhos.

Essas ideologias não só geraram civilizações, como também as desenvolveram. Religião, ciência e história só ganharam poder devido às questões, e dessa maneira, criamos mitos, seja para proteger ou explicar aquilo que é complexo demais para explicar. O cinema já nos mostrou histórias assim, como em A Vila (2004) e Caminho Para El Dorado (2000), mundos nos quais grandes mitos moviam as pessoas para uma realidade própria, distantes da verdadeira. E todas possuem um motivo.

Em Pé Pequeno, esse motivo é forte. É poderoso enxergar em uma animação o tratamento que deram para nossas atitudes. Em outro momento, A Era do Gelo (2002) nos mostrou um pedaço disso com o passado de Manny. A série animada Hilda (2018) também teve um leve tratamento sobre isso, mas não tão poderoso quanto em Pé Pequeno. Mostrar o verdadeiro tratamento humano com o desconhecido é explicar a história.

Na descoberta de novas civilizações, agimos como monstros, massacrando ou escravizando quem e o que víamos pela frente. Apesar dessa mensagem não ser adquirida com facilidade pelas crianças, é um passo para os ensinamentos, mostrar que o desconhecido deve ser estudado e como nós, humanos, erramos em nem ao menos tentarmos nos comunicar, como foi mostrado brilhantemente em A Chegada (2016).

Nisso, colocamos Pé Pequeno em um patamar acima, mas não com a mesma coragem de obras do Studio Ghibli e Pixar. Por mais justificável que seja – até pelo estúdio em que faz parte – o longa tinha um potencial de mensagem ainda mais forte, mas longe de ser positiva.

O que, por sua vez, é preciso para crianças e não condiz com toda a comédia trabalhada, que inclusive, é primorosamente bem escrita e montada, sem extensões ou repetições constantes. O humor é o ponto crucial de Pé Pequeno. As gargalhadas geradas pelo texto – e direção – de Karey Kirkpatrick são fáceis e naturais, tornando toda a experiência divertida e deliciosa para quem vai ao cinema.

As piadas são abrangentes, explorando o desconhecimento dos Yetis sobre os humanos, além do próprio reconhecimento dos espectadores em cima do cotidiano Yeti. Apesar de só ter se destacado positivamente como diretor com Os Sem Floresta (2006), como roteirista, esteve por trás de projetos como A Fuga das Galinhas (2000) e James e o Pêssego Gigante (1996), obras que marcaram a infância de muitos.

Neste ponto, Kirkpatrick se mostrou não só experiente, como também apaixonado pelo o que faz. É prazeroso enxergar em tela o modo como ele trata a animação, indo além da técnica. Mesmo com sua construção padrão, Kirkpatrick faz da história algo agradável de ser consumido, transformando o adulto em uma criança, devido a todas as cores e piadas bobas mas que dão uma felicidade maravilhosa.

No entanto, Pé Pequeno ainda traz falhas. Entre todo o exagero do último ato, com cenas um tanto desnecessárias, infelizmente, o maior incômodo da animação são as músicas. O que, por sua vez é decepcionante, ainda mais quando tratamos de um musical.

As letras são genéricas e não transmitem emoção ou se quer prazer quando são cantadas. Contudo, uma delas consegue chamar atenção, apesar de ser muito mal aproveitada musicalmente. Refiro-me a canção que revela a realidade dos mitos e da vida mentirosa dos Yetis.

O conteúdo pesado da letra pelas revelações e que trazem um ar questionador sobre nossas atitudes, e sobre nossa raça, não condiz com a música mal instrumentada e aparentemente mal mixada, estando totalmente fora do ritmo. Fica difícil saber se houve intencionalidade ou não, mas a canção transmite um incômodo duplo, um pela letra e outro pelo ritmo escolhido e a maneira como foi interpretada.

Por sua vez, este incômodo é mínimo perto da diversão que Pé Pequeno fornece. Uma diversão misturada com uma mensagem poderosa e reflexiva sobre nós e o poder que a mentira pode nos fornecer, fazendo o espectador refletir sobre a história da humanidade e a ignorância humana.

Particularmente, é decepcionante não ver um final corajoso e pesado, mas é compreensível que nossas crianças precisam olhar o mundo de forma mais colorida enquanto elas ainda não possuem amadurecimento para observar a realidade preta e branca que vivemos.