Francofonia

O diretor russo Alexander Sokurov impressionou com seu ‘Arca Russa’ em 2002, rodado em um plano-sequência único, que durava 97 minutos, rendendo diversas indicações a prêmios de reconhecimento pela façanha, como a Palma de Ouro no Festival de Cannes, ainda que não tenha saído vencedor. Retratar e discutir a cultura clássica parece ser um de seus principais interesses, pois além de seu longa-metragem mais conhecido, entre outros, fez sua versão de ‘Fausto’ de 2011, seu trabalho anterior, adaptado do livro do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), agraciado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Agora em ‘Francofonia – Louvre Sob Ocupação’ realiza uma reflexão sobre a relação entre cultura e as guerras, no século XX e na história da humanidade.

‘Russian Ark’ atravessava 35 salas do museu Hermitage, de São Petersburgo, discutindo a história da Rússia, desde a monarquia czarista, até a drástica mudança com a revolução comunista, de forma alegórica, cinematograficamente complexa e visualmente impressionante. Com ‘Francofonia’ ela expande o seu olhar sobre as relações culturais europeias, assim como dos conflitos bélicos, analisando a ocupação da Alemanha Nazista em território Francês, durante a Segunda Guerra Mundial. E o que poderia ser melhor do que utilizar a curiosa relação de fascínio, misto de respeito e inveja, que Paris e as obras expostas no imponente Museu do Louvre, inaugurado em Paris em 1793 e conhecido como o mais famoso acervo da história da arte do mundo, exerciam sobre a Alemanha de Adolf Hitler.

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Crédito: Divulgação

Em ‘Arca Russa’ Sokurov fez uma representação metafórica através de uma festa/reunião que juntava diversas personalidades russas históricas, enquanto narrava e conversava com um dos personagens. Agora em seu novo longa, mistura ficção e documentário, com figuras reais e míticas, novamente narrando e interagindo com as personas retratadas, para interpretar o significado e o contexto histórico de cada obra visitada. O resultado provavelmente vai parecer estranho e monótono para espectadores menos experientes, talvez “soe” pretencioso para “críticos” mais exigentes, mas certamente é satisfatório para cinéfilos que procuram por experiências diferenciadas na sala de cinema, o que é cada vez mais raro de se obter.

Sua fotografia já característica, com tons cinzento-amarelados e esmaecidos é novamente utilizada, representando uma época passada e desgastada, que agora só existe na memória. Os personagens históricos, como os artistas Tchékov e Tolstói, nos ajudam a contextualizar, de forma didática, as ideias que o diretor quer representar e discutir. Da mesma forma o Imperador Napoleão Bonaparte, com todo o seu ego, surge para lembrar que foi ele o principal responsável por abastecer o Louvre com peças espoliadas de diversas regiões do mundo em suas guerras expansionistas. Temos, também, a figura feminina, Marianne, que repete o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, personificando a “República”, popularizada com a Revolução Francesa.

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Crédito: Divulgação

O diretor não deixa de observar as maneiras muito distintas com que o Nazismo tratou o território Russo, sua terra natal, aliado no início da guerra, que foi posteriormente devastado por onde passaram, como em Stalingrado; e o francês que permaneceu quase intacto, mesmo sendo considerado inimigo desde o começo. O período de ocupação pelos alemães, de Paris e grande parte do território francês e de “colaboração” entre franceses e nazistas ainda gera muitas controvérsias ao se analisar a história da França durante a II Grande Guerra. Essas diferenças ainda hoje abalam a honra do povo francófono, ao mesmo tempo que são motivo de orgulho trágico para os soviéticos.

Mas, o documentário, misturado com dramatizações, não está interessado em julgar, mas apenas em refletir sobre os acontecimentos do período. No filme de Sokurov vemos isso através dos personagens reais Jacques Jaujard (1895-1967), diretor do Louvre durante o período, representando a difícil posição dos franceses, que tiveram que lidar com os invasores, após o governo decidir não os combater naquele momento. Do lado Alemão, o conde, oficial nazista, Franz von Wolff-Metternich (1893-1978), escolhido por Hitler para inventariar o patrimônio cultural e histórico dos países invadidos e pilhados pelo III Reich.

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Crédito: Divulgação

O mais curioso foi o fato de mesmo que Metternich tivesse ordens de pressionar Jaujard, para saber onde as obras do museu estavam escondidas, ele também fez o que pode para impedir que elas fossem enviadas para Berlim, para uma sorte incerta. Seu comportamento se deu provavelmente por ele ser de origem aristocrata, e um apreciador das artes e da cultura da França. Certo é que estes acontecimentos nos fazem entender a influência dos produtos culturais em diferentes períodos da história mundial humana, bem como sua fragilidade. Isso fica ainda mais claro em uma terceira linha narrativa, na qual aparece um capitão de navio, que transporta obras de arte em contêineres de sua embarcação, na travessia por águas marinhas turbulentas, durante uma tempestade no meio do oceano.

O destino que a carga tem, representa o perigo que as diferentes produções culturais correm, no contexto político do nosso atual mundo globalizado e conflituoso, que cada vez menos deixa espaço para as minorias artísticas, assim como as que se perderam durante o tempo e com a extinção de algumas civilizações. Se o filme peca em algum ponto, talvez seja por um excesso de didatismo, mas isso não é exatamente um defeito para uma obra deste gênero, principalmente por que mesmo assim ela se torna confusa em alguns trechos, devido aos seus diversos focos narrativos. Acima de tudo ‘Francofonia – Louvre Sob Ocupação’ é um filme belissimamente realizado, que tem tudo para ser apreciado, por quem sabe reconhecer uma produção muito competente em ser artisticamente criativa.




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