Diante todo cenário clássico do romance cinematográfico, Sebastián Lelio adotou uma visão um tanto quanto madura e atual sobre o que é ser adulto em Gloria (2013). Seis anos depois, o mesmo Sebastián traz sua versão americanizada de sua própria história, mas mantendo o mesmo encanto. Esse seu olhar para tal cenário é visto logo de início, e que quebra qualquer expectativa do público. As cenas entregues são da protagonista (Julianne Moore) dançando e bebendo sozinha em uma boate. A mesma escolhe seu parceiro de dança e assim se mantém. O corte seguinte transporta o espectador para sua então realidade, na qual Gloria continua solitária, quebrando qualquer expectativa de que, na idade aparente, ela já esteja com um relacionamento estabelecido e forte como os ideais gostam de vender.

Nisso, o roteiro – também escrito por Sebástian ao lado de Alice Johnson – consegue conversar bem com a direção ao demonstrar essa solidão da personagem de forma amadurecida.

A câmera de Sebástian transita com muito equilíbrio em planos mais abertos, demonstrando com mais clareza todo o espaço vazio diante da vida da personagem principal, mas também há um incentivo em explorar planos fechados, colocando o espectador ainda mais perto e mais dentro daquele universo de Gloria. Neste ponto, Julianne tem seus momentos de brilho. Não há cenas que exigem um grande espetáculo da atriz, porém suas sutilezas são os motivos para tanto encanto.

Devido a uma realidade solitária, Julianne entrega um brilho no olhar e uma felicidade única ao estar em conjunto com outras pessoas. No entanto, seu semblante tem uma rápida transformação para o infeliz quando esse momento termina. Essas sutilezas de atuação são muito bem representadas em um roteiro que chega a trabalhar o longa de maneira dinâmica, lembrando muito o estilo narrativo de Greta Gerwig, tanto em Frances Ha (2012) quanto em Lady Bird: A Hora de Voar (2017). Inclusive, Gloria Bell, aparentemente, funciona como um terceiro longa da jornada criada por Greta. Não só pelos três filmes trazerem o nome da protagonista no título, mas como também retratam o amadurecimento.

Por mais que Gloria já seja uma mulher com seus 50 anos, ainda há um tom inocente sobre o amor e o relacionamento. Sua jornada inicial sozinha apresenta tristeza e uma solidão dramática, e só com o tempo, Gloria compreende o quanto isso pode ser positivo, o que entrega uma construção de personagem muito bem feita. Muito a partir dos acontecimentos ao seu redor e ter sua mãe como um espelho, Gloria vai entendendo mais sobre a vida e aprendendo a ser feliz com ela mesma, demonstrando, assim, seu amadurecimento e evolução.

Outro ponto crucial da comparação está na edição. Em Frances Ha, Greta entrega um estilo narrativo único ao conseguir equilibrar a história da personagem com a técnica cinematográfica. Frances é jovem, o que faz com que sua vida esteja em constante transformação e passando de maneira rápida, característica essa muito bem utilizada em uma edição com cortes mais secos. Em Gloria Bell, o mesmo acontece, mas sem o mesmo dinamismo, afinal, Gloria é uma personagem mais velha, com isso, seus cortes não possuem a mesma velocidade, mas ainda são constantes, para justamente mostrar que o tempo passa rápido para todos. E o uso é tão funcional quanto nos próprios longas de Greta. Aqui, também há cortes secos no meio de situações ou músicas para outros acontecimentos que não conversam diretamente com o anterior, além da utilização em passagens de tempo. Greta usa muito isso nos dois longas, passando dias ou semanas de história em um único corte.

A diferença aqui está justamente no tempo. Por não retratar a juventude, Sebástian explora mais tempo de tela antes de cortes temporais. Isso, não só para aproveitar o elenco, como também conversar com a realidade da personagem, que não possui uma vida tão mais dinâmica quanto antes.

Outro ponto crucial para a qualidade de Gloria Bell está em sua trilha sonora. Não só na original de Matthew Herbert, como também no soundtrack, que vai de Bonnie Tyler, com Total Eclipse of the Heart (1983), passando por Olivia Newton-John, com A Little More Love (1978) e até Laura Branigan, com Gloria (1982). Além de uma ode aos anos 80, as canções são brilhantemente utilizadas durante o longa. O roteiro consegue fazer com que todas sejam aproveitadas de maneira natural – seja a personagem na boate ou no carro escutando o rádio – e também com que todas sejam calculadamente encaixadas, fazendo a letra retratar a então realidade e situação de Gloria.

O próprio uso da música de Laura Branigan na conclusão da história, finaliza muito bem a jornada de Julianne Moore, já que a letra retrata perfeitamente sobre o então amadurecimento feminino. Muito dessa evolução se deve também ao elenco de apoio, que literalmente funciona como uma maneira de alavancar a personagem. Longe do destaque de Julianne, John Turturro sustenta seu papel que quebra o paradigma de comédias românticas padronizadas. Com ele, o roteiro introduz um mistério curioso, mas que, no fim, não entrega nada além do simples, o que está longe de ser um demérito do texto.

Isso só faz de Gloria Bell um retrato mais humano sobre a vida, ainda mais em uma fase tão delicada. Delicada no sentido do tempo, no qual não há, em geral, mais pretensões de grandes acontecimentos e mudanças. Porém, é justamente nele que é preciso aproveitar e parar de se manter preso em ideologias. Por isso, o retrato realizado só reforça o quanto podemos ser felizes com nós mesmos e que merecemos aproveitar o tempo que nos resta.