O drama envolta de casos de pedofilia envolvendo a Igreja Católica é retratado com segmentos e estruturas padronizadas, com um foco grande na jornada da descoberta e o drama envolvendo vítimas, vide o próprio Spotlight – Segredos Revelados (2016). Graças a Deus, por sua vez, toma um rumo diferente do esperado, conseguindo estabelecer uma trama que se preocupa em retratar os ocorridos posteriores aos “clássicos”. Ou seja, toda a jornada de descoberta e o drama das vítimas já aconteceu e o foco está na maneira como os mesmos vivem com o peso do passado.

Especificamente, nesse caso, trata da jornada real de vítimas com o objetivo de aumentar a pressão na justiça por providências após confirmações de abuso envolvendo o padre Bernard Preynat, acusado em janeiro de 2016 por agressão sexual.

A semelhança com o longa de Tom McCarthy não se mantém apenas na temática, mas também na própria escolha de trabalhar a narrativa. Tanto McCarthy quanto Fraiços Ozon escolheram um tom mais comedido na trama para demonstrar as dificuldades burocráticas de casos sexuais envolvendo a igreja. No caso, um mais focado na jornada jornalística, enquanto outro com um foco mais judicial. Os dois longas demonstram isso da maneira mais poderosa possível, com narrativas e uma direção bem controlada para dar o clima certo à história.

Por outro lado, o longa de McCarthy consegue ter um dinamismo maior, mas sem desmerecer o tratamento de Ozon, afinal, as duas obras atingem seus objetivos primários de maneira honesta. Ozon demonstra um controle mais humano, tanto na direção quanto no roteiro. Muito embarcado na história, o cineasta francês deu uma visão mais próxima das vítimas e de seus percursos pela justiça que nunca tiveram. Dentro dos 132 minutos de longa, sua direção destaca sua câmera para os personagens e não muito para a trama, se é que posso dizer assim.

De início, é difícil compreender a intenção do cineasta, já que o começo se deve para apresentar um personagem e seu objetivo logo nos cinco primeiros minutos, deixando a dúvida sobre o que será tratado nos próximos. E é nesse ponto que Ozon ganha a atenção. Seu texto não conquista só pela provocação em cima da jurisdição francesa, mas também com todo o cenário religioso do país e como o sistema é estabelecido governamentalmente. Além da dinâmica existente entre seus personagens.

Ozon, mesmo se aproveitando de uma narrativa linear, consegue apresentá-la de maneira distinta. Tanto que gera uma estranheza dentro da sua trama por não ficar claro o caminho estabelecido até a primeira hora de longa. No caso, o espectador é introduzido à um personagem, para depois ele ser deixado em segundo plano. Porém, tudo, na conclusão de sua estrutura, converge-se. E isso faz de Graças a Deus uma obra conquistadora por si só.

Há um certo declínio na qualidade do longa pelo trabalho mais artístico de Ozon, o que deixa a narrativa mais comedida e, consequentemente, mais lenta. No entanto, a força do texto provocativo e até enjoado do cineasta francês deixa toda a história com um brilho a mais e consegue prender a atenção do espectador dentro da longa duração.

Muito disso se deve também pelo elenco selecionado. Por trabalhar diferentes personagens, com diferentes ideologias e atitudes, o longa necessita de um equilíbrio para acontecer uma união entre todos de maneira orgânica e não só o texto do francês consegue fazer isso, como também seu trabalho de direção, principalmente, com Melvil Poupaud e Swann Arlaud. Ozon demonstra uma potência impressionante com seus personagens, conseguindo apresentá-los de maneiras diferentes, dentro de suas vivências e personalidades reais, mas encanta ao dar a mesma personalidade para todos nas situações de encontro com Preynat, o que reforça todo o poder do acontecimento na vida dos personagens.

Com Graças a Deus, Ozon, ao mesmo tempo que não consegue atingir a mesma categoria de Spotlight, supera o longa de 2016 por trabalhar acontecimentos ainda mais recentes, transmitindo a mensagem, não da qualidade esperada, mas com a força precisa.