Fãs de Star Wars são seres exigentes, duros e rigorosos. Posso usar esses adjetivos por estar incluído nessas características. A representação de Star Wars é única para cada espectador. Uns levam para vida, enquanto outros, assistem para se divertir ou se distrair de um dia puxado. Ao falar desse tipo de espectador, especificamente, ‘Han Solo: Uma História Star Wars’ agrada e diverte durante as mais de duas horas de duração. Já para o outro tipo de espectador – o fã – a história está longe de ser Star Wars.

A exigência para esse filme, em específico, não vem por causa só de toda a mitologia que George Lucas criou em 1977, mas também por causa de uma pessoa: Han Solo. O piloto mercenário e cafajeste se tornou marca da franquia e um dos personagens mais amados da galáxia tão tão distante. Harrison Ford não só fez história em interpretar o personagem, como deixou sua marca definitiva na vida daqueles que admiram, minimamente, a franquia. Tendo o wookie Chewbacca como companheiro, navegando pelo espaço na icônica Millenium Falcon e irritando chefões pelo espaço afora, Han conquistou o coração de todos, e a Disney, observando toda essa comoção pelo personagem, decidiu cometer o erro de trazer seu passado – sim, digo um erro, e vou justificá-lo com o passar do texto. Star Wars fornece a quem assiste um vasto universo de possibilidades – não é a toa que a franquia gera não só filmes, mas também jogos, livros, séries e hqs com histórias e personagens novos. Obviamente, focar naquilo que todos conhecem é mais fácil de agradar e mais confortável para quem assiste, mas com todo o leque de opções que planetas e raças, decidiram mexer com algo delicado. Com a produção já definida, a opção era esperar o melhor. Infelizmente, em partes, não veio.

Em 2016, a Disney também assustou com o primeiro spin off da franquia. Mas ‘Rogue One’ surpreendeu com um belíssimo filme de guerra, e melhor, com o melhor do espírito Star Wars. Para acalmar o coração do leitor já nervoso com minhas palavras, ‘Han Solo’ é bom, mas infelizmente, é só isso. Conturbada, a produção dificultou o andamento do longa e preocupou a todos com a mudança drástica na direção. A saída de Chris Miller e Phil Lord (‘Uma Aventura Lego’) deixou um questionamento sobre o futuro do longa. Isso porque a escolha de Alden Ehrenreich para viver a versão jovem de Ford já não tinha agradado, e esse nariz torcido dos fãs não veio a tona. Apesar de uma filmografia de já 13 anos, Alden nunca ganhou destaque, sempre participando de produções medianas e fazendo um trabalho simplório. Como Han Solo não foi diferente. O ator entrega o básico e não agrada, mas também não decepciona, entregando o seu melhor (que já não é muito). Seria esse o merecimento do personagem mais querido da franquia?

A entrada de Ron Howard no comando fez a diferença no resultado. O longa ficou mais pé no chão com uma aventura de roubo pelo espaço, com uma diminuição drástica no humor, apesar de que a quantidade presente já incomoda. Digo isso porque o “humor” de Han não vem de piadas, mas sim do sarcasmo e suas atitudes nos momentos propícios. Nesse quesito, os dedos de Miller e Lord ficam bem presentes, com um humor, certas vezes, infantil, que quebra o silêncio em momentos mais pesados que o filme tenta trazer – inclusive, o humor pífio existe na origem do nome do personagem, gerando um nó incômodo na garganta. Pelo o que se vê em tela, a intenção, desde o ínicio, era fazer a primeira comédia de Star Wars (entende agora porque o fã já se preocupou desde o ínicio?) misturado com um filme de assalto. A escolha da direção, inicialmente, pareceu não funcionar, então Howard chegou para controlar a situação. Sua presença é constante, principalmente no ritmo da aventura, com seus momentos épicos e suas pausas de respiro para a construção da história. O texto dos irmãos Kasdan conversa bem com o andamento de Howard, que consegue controlar bem a atuação de Alden, apesar de limitado. A escolha de Lawrence e Jonathan para a história de Han não é de toda ruim, apesar de nada inovadora ou conquistadora. A própria construção do personagem cafajeste e malandro dos filmes clássicos é bem mediana e faz o básico para apresentá-lo aos espectadores médios. Compreensível a certo ponto, mas bem decepcionante do outro.

A costura do roteiro para certos detalhes do personagem é realmente boa, com duas exceções: o surgimento do nome (já citado) e o primeiro encontro com Chewie. Sim, é com dor no coração que escrevo estas palavras. O todo do encontro e a situação em questão não incomoda, mas a primeira troca de informações dos dois é vergonhosa. Já introduzido, posso me referir a Chewbacca, interpretado pelo finlandês Joonas Suotamo (desde ‘Os Últimos Jedi’, inclusive), e dizer que sua representação e apresentação para a vida de Han é uma das melhores coisas do longa. O triste, e que vou acabar repetindo muito aqui, é que o destaque maior fica para os coadjuvantes de Han, ao invés dele próprio. Os personagens de Woody Harrelson e Emilia Clarke são os melhores em questão de desenvolvimento, com destaque maior para a personagem de Emilia, apesar de sua limitada atuação, recheada de caras e bocas.

Donald Glover arrasa com um Lando um tanto quanto esquisito, mas não desagradável, e até justificável na questão temporal, sendo o Lando de ‘O Império Contra-Ataca’ (1980) um tanto mais maduro. Mas é ao lado dele que está a melhor personagem do longa: L3-37. Novamente, um spin off de Star Wars consegue construir e apresentar um andróide maravilhoso. Com menos tempo de tela que K-2SO, L3, interpretada maravilhosamente por Phoebe Waller-Bridge, conquista o público com uma motivação bem construída a partir de curtas falas do roteiro, que trazem um background com peso à personagem.

O mesmo tipo de construção acontece com Qi’ra, que, do mesmo jeito, ganha um peso maior que outros personagens, mas um plot mais bem escrito, e uma resolução surpreendente, que pode levar a franquia para outros rumos, e até o retorno da personagem. Mas, mesmo com um plot bem desenvolvido, todo o texto é previsível e não entrega a sensação de emergência em nenhum momento, com soluções aparecendo nas horas exatas, sem gerar peso ou tensão, diferente de ‘Rogue One’, que mesmo trazendo um filme com final definido, a carga dramática, não só existe, como é constante. Apesar da previsibilidade, Howard conseguiu entregar uma aventura espacial de bom grado, chegando a ser uma história digna de Han, apesar dos detalhes incômodos. Mas o que realmente decepciona, é que mesmo com uma divertida aventura de roubo, o espírito Star Wars é inexistente.

Visualmente, ‘Han Solo’ é impecável como qualquer Star Wars. Da direção de arte, passando pelo figurino, até os efeitos práticos dos alienígenas, encantam os olhares de quem assiste, principalmente pelo fato de Howard explorar visualmente outras raças e lugares, mas ainda assim, com planetas parecidos com os clássicos já apresentados. Os efeitos especiais e visuais continuam nível Star Wars. A decepção mesmo fica com a trilha sonora. Totalmente fraca e quase inexistente, o destaque fica apenas para a trilha do grupo liderado por Enfys Nest, mais próxima de músicas orientais que encanta e traz o clima ideal para o personagem –  pena que o mesmo, com o tempo, decepciona e entrega uma solução mediana para um personagem, em primeiro plano, interessante. Já os efeitos sonoros são os verdadeiros inimigos do filme. Nada é escutado, os clássicos detalhes sonoros de motores, tiros, mecânica das naves, e o próprio salto no hiperespaço não estão presentes, e prejudica na hora de entregar todo o espírito que a franquia sempre preservou, aumentando assim, a previsibilidade da história e a decepção.

Conversando com espectadores não tão fãs, a história “Star Wars” funciona e enche os olhos, portanto, o que um fã tem a reclamar? Mas é inevitável apontar as decepções para um personagem querido e que tem um potencial para uma história inesquecível. Agora, o que realmente incomoda, é saber que esse Han Solo poderá voltar, já que o roteiro, aproveitou elementos da série animada ‘Star Wars Rebels’ (2014 – 2018) e trouxe surpresas estranhas para futuras histórias da franquia – ou não. Enquanto alguns críticos chamam ‘Deadpool 2’ de desprezível, é porque ainda não conheceram o Han Solo piadista e cômico de ‘Uma História (nem tão) Star Wars’.