Hebe Camargo foi apresentadora, atriz e cantora. Coroada rainha da televisão brasileira iniciou sua carreira no radio nos anos 40 e sua história se fundi com a da televisão brasileira. Em 1950 foi convidada por Assis Chateaubriand para participar da primeira transmissão ao vivo da televisão brasileira na TV Tupi, mas acabou não comparecendo ao programa, e Lolita Rodrigues, que depois se tornaria uma de suas grandes amigas, a substituiu. Em 1955 se tornou a primeira mulher a apresentar um programa de TV. “O Mundo é das Mulheres” era voltado para o público feminino e já nos anos 50 Hebe discutia em rede nacional o papel das mulheres na sociedade.

A apresentadora reconhecida pela sua irreverência e estilo extravagante trabalhou quase toda sua vida com altos índices de audiência independente do cenário político do país. Em plena ditadura militar seu programa mantinha o índice de audiência com entrevistados considerados subversivos pelo atual governo, como o cantor Chico Buarque.

Homenageada até em selo pelos Correios, Hebe não é um assunto fácil para resumir em uma cinebiografia, mas a roteirista Carolina Kotscho acertou ao ir numa direção diferente de seu outro trabalho “2 Filhos de Francisco”. Ao invés de retratar a vida da apresentadora desde sua infância e mostrar o início de sua carreira, como é comum em muitos filmes do gênero, o longa tem início em meio à polemicas geradas por uma Hebe com quase 40 anos de carreira que não aceita ser controlada pela censura ou produtores de TV.

O longa se passa nos anos 80, momento no qual o país passava pela transição da ditadura de volta para a democracia e alterna entre dois momentos decisivos da vida de Hebe (Andréa Beltrão). Decidida a não se deixar ser calada pela censura, ela decide romper com sua emissora e acaba transferindo seu programa para o SBT. Enquanto isso, seu relacionamento com o marido ciumento Lélio (Marco Ricca) cheio de altos e baixos, caminha para um ponto insustentável.

Retratada como inabalável e provocadora a apresentadora se levanta como defensora da comunidade LGBTQI e não deixa de dizer o que pensa mesmo sob risco de ser presa. Porém como já havia dito, representar uma personalidade tão única com uma carreira tão rica e que teve uma participação expressiva como formadora de opinião, não é tarefa fácil. Então, para sintetizar essa história, o filme opta por não tratar mais a fundo polemicas, como seu apoio decisivo à campanha de Paulo Maluf e foca em uma fração bem especifica de sua vida deixando de explorar todas as esferas da apresentadora.

A atuação acertada de Andréa Beltrão é sem dúvida um dos méritos do longa. A atriz não se deixou ir por uma abordagem mais caricata, o que seria fácil, ao retratar uma personalidade tão cheia de trejeitos e bordões. Ela dosa muito bem esses aspectos de Hebe e mesmo sem muita semelhança física é possível encontrar a apresentadora na sua atuação em todos os momentos.

A nostalgia é sem dúvida desde outro aspecto agradável do filme, os figurinos, penteados e entrevistas marcantes no sofá da Hebe vão agradar os saudosistas. Mas nenhum dos convidados retratados servem unicamente para relembrar momentos divertidos do programa, Dercy Gonçalves (Stella Miranda) e Roberta Close (Renata Bastos) a Roberto Carlos (Felipe Rocha), todos os convidados servem como conexão para um próximo momento da trama.

“Hebe: A Estrela do Brasil” é apenas uma fração do que a Rainha da Televisão foi optando por não desenvolver com mais profundidade assuntos importantes, como a relação com o filho Marcelo (Caio Horowicz), mas acerta ao focar em um momento decisivo de sua vida e equilibra bem os momentos irreverentes e polêmicos.