Em 2008, o humor sarcástico trazido por Robert Downey Jr. no primeiro “Homem de Ferro” deu o tom dos filmes do Marvel Studios. Esse humor já foi explorado de diferentes formas  ao longo desses 10 anos do estúdio, e mesmo nos filmes mais densos, como “Vingadores: Guerra Infinita”, os alivios cômicos marcam presença. Alguns filmes, em especial, tiveram o humor no cerne  das produções, e em ambos “Guardiões da Galáxia” e o mais recente “Thor: Ragnarok” tivemos a exploração de um “humor intergalático”, que se aproveita das infinitas possibilidades absurdas do universo para trazer a comédia. “Homem-Formiga”, de 2015, foi o primeiro longa a se apoiar num humor mais “pé no chão” onde, por mais que a ficção marque presença, as situações são mais cotidianas, se aproximando mais de tradicionais comédias americanas. O diretor Peyton Reed e Paul Rudd, ambos conhecidos por comédias românticas, foram a escolha certa para trazer novos ares para os filmes de super-heróis, e se aproveitando do conceito (“ridículo” e inusitado) do personagem conseguiram entregar o blend perfeito de humor e ação. Agora, a sequência tinha o desafio de não se repetir e não cansar o público, algo comum em sequências de comédias.

Para isso, a maior carta na manga de “Homem-Formiga e a Vespa” é o universo cinematográfico criado pelo estúdio. De forma natural, o longa utiliza dos acontecimentos de “Homem-Formiga”, “Capitão-América: Guerra Civil” e “Vingadores: Guerra Infinita” para guiar sua história da primeira cena à cena pós-créditos. E ao mesmo tempo, o time de roteiristas (que agora conta com o próprio Paul Rudd) conseguiu delimitar uma história individual e coesa dentro deste universo, com acontecimentos e ameaças condizentes ao tamanho dos heróis perante aos outros filmes. Tal manejo da trama é fundamental dentro da ideia de “universo cinematográfico”, e certamente é o que destaca os filmes da Marvel dos outros filmes de heróis que querem usar o mesmo conceito.

Do longa original, “Homem-Formiga e a Vespa” resgata um easter egg para guiar a sua história: o encontro do personagem com a primeira Vespa no Reino Quântico. Encontro que agora irá estimular a busca pela personagem de Michelle Pfeiffer nesta espécie de outro universo. Do terceiro filme do Capitão América, a película traz a situação de Scott Lang, que se entregou a polícia depois de se envolver com os heróis fora da lei, e agora está em prisão domiciliar. Já de “Vingadores: Guerra Infinita”, o longa compartilha a época, já que se estende até os acontecimentos finais e chocantes da aventura dos Vingadores.

O maior destaque de atuação do filme é a Evangeline Lilly, que mostra o porquê do nome de sua personagem estar no título, sua versatilidade é evidenciada nos diversos nuances da trajetória de sua personagem Hope. Evangeline apresenta uma emoção convincente quando é o momento, sabe ser firme e enfática quando precisa, romântica e cômica quando convém e principalmente saber chutar bundas em cenas de ação que mostram o verdadeiro significado da palavra “super-heroína”.

Michelle Pfeiffer, a nova adição às estrelas do universo do Marvel Studios, consegue cativar o espectador com seu jeito divertido e sorriso encantador nos primeiros segundos de filme. Sua personagem, a Vespa original, parece ser muito promissora dentro dos planos da Marvel, visto que apresenta novos poderes que podem ser usados nos próximos filmes. Michael Douglas, o primeiro Homem-Formiga, tem uma presença maior nesta sequência e não decepciona, pois parece estar muito confortável em seu papel.

Paul Rudd consegue inovar em sua atuação em uma cena que apenas os especialistas em quântica podem explicar, e apesar de não entregar uma evolução do personagem, isso não é necessariamente ruim. Paul é o mesmo Paul que vemos nas comédias românticas desde os anos 90, e essa sua marca foi o que deu um toque especial para o personagem, é esperado que ele mantenha o mesmo ritmo e arranque muitas risadas do público.

Ao final do filme, ficamos com a sensação que ainda não vimos tudo sobre o personagem de Laurence Fishburne, e também da personagem de Hannah John-Kamen, a antagonista Fantasma. Ambos personagens, apesar de muito bem inseridos no universo da Marvel, foram enigmáticos demais e possivelmente podem retornar, seja em filmes do passado, como filmes do futuro.

Mesmo sendo leve e divertido, “Homem-Formiga e a Vespa” tem um final tão desesperador quanto “Vingadores: Guerra Infinita”  e será curioso ver como tais acontecimentos catastróficos serão resolvidos no próximo longa com os heróis, e também como os personagens essencialmente cômicos serão trabalhados longe do diretor que os estabeleceram. Peyton Reed entrega mais uma das grandes obras da Marvel, e mostra que sabe explorar como ninguém as cenas em diversos e novos tamanhos (e também tirar sarro disso).