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‘Uma pessoa fraca é um perigo, pois sua fraqueza é sua força’.

No início da década de 50, Marcus (Logan Lerman) é um jovem bastante promissor e filho de um açougueiro judeu que ganha uma bolsa para estudar em uma Universidade bastante conservadora em Ohio. Entretanto, após se envolver com a bela e problemática Olivia (Sarah Gadon), começam a ocorrer vários desentendimentos entre ele e o administrador do colégio, Dean Caudwell (Tracy Letts). O filme é escrito e dirigido por James Schamus em sua estreia na direção apesar de ser um produtor experiente, bastante envolvido com os principais trabalhos de Ang Lee no ocidente (‘O Tigre e o Dragão’ e ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ são alguns de seus filmes produzidos). Já a trama é adaptada da obra ‘Indignação’ (2008) do escritor vencedor do Pulitzer Philip Roth, considerado um dos maiores escritores norte-americanos da segunda metade do século XX.

Schamus consegue captar bem a essência da obra de Roth ao adapta-la para o cinema. Assim como o escritor, Schamus explora a natureza do desejo sexual nos personagens em uma época de muito conservadorismo e repressão, além de abordar (embora de maneira mais branda) os preconceitos e problemas de identidade dos judeus que tentavam se ajustar à sociedade norte-americana. O filme fala também de duas pessoas incompreendidas que se encontram e como decisões e causalidades vão desencadear uma cadeia de eventos muitas vezes irreversíveis na vida dessas pessoas. O protagonista Marcus é um jovem focado nos estudos para se tornar um advogado e fadado ao sucesso por sua inteligência e determinação. Por outro lado, sua inabilidade em dividir o mesmo espaço com aqueles que têm opiniões diferentes às suas surge como um grande obstáculo para seus objetivos, chegando a lhe ocasionar problemas de saúde. O clássico caso de intelecto brilhante, mas desajustado socialmente.

O filme possui alguns momentos em que é expositivo e repetitivo demais, como por exemplo, praticamente todos os personagens em algum momento lembram o espectador de que Marcus é um garoto inteligente, indicando claramente que a direção não conseguiu encontrar uma forma de como mostrar isso de uma maneira mais natural. Marcus é um personagem temperamental e o filme transita bastante entre duas tramas, os conflitos que ele enfrenta com a administração do colégio e sua relação com Olívia. Essa constante mudança de foco confunde um pouco, já que parecemos não saber aonde o filme quer chegar, pois seu objetivo não parece estar muito claro (ele quer a garota? Quer se formar? Ou os dois?). Nada pior do que não saber o que o protagonista realmente quer em um filme, pois na condição de espectadores, quando temos isso claro em mente fica muito mais fácil de criar empatia e torcer (ou não) para que ele consiga alcançar seu objetivo. Pensando na verossimilhança de uma história, esses são detalhes importantes, pois são nesses detalhes que um espectador pode achar a trama confusa e se entediar, fazendo o filme perder seu interesse dali para frente.

Se falta ‘foco’ em determinados momentos, aqueles que tiverem certa predileção para dramas de época e mantiverem o interesse no filme serão presenteados com cenas e diálogos bem interessantes. Se aproveitando de que a história se passa em uma época muito mais conservadora do que a nossa, Schamus consegue tocar em assuntos muito relevantes para discussão mesmo hoje em dia, como a liberdade sexual, divórcio, ateísmo e a opressão que um indivíduo pode sofrer quando não tem a liberdade de ser quem realmente quer ser estando sob um regime autoritário. Não à toa o protagonista é grande adepto dos ensinamentos do filósofo ‘rebelde’ Bertrand Russell, que defendia a máxima liberdade individual e o mínimo de controle de poderes centrais (governo, sociedade, etc.) sobre as pessoas. O melhor momento do filme inclusive ocorre durante uma discussão entre Marcus e o diretor do colégio Dean Caldwell na sala dele, onde fica bem claro que o lado opressor (neste caso, Dean) utiliza a lógica do ‘para estar certo, você tem que ser como a maioria’ para pressionar Marcus. Em um grande trabalho de cinematografia, o diretor vai fechando os planos entre as duas partes conforme a conversa vai ficando mais ‘acalorada’, expressando visualmente muito bem o desconforto que Marcus está sentindo no momento, até a hora em que o jovem rebelde não resiste a tanta pressão e literalmente vomita nos troféus da universidade. Outro grande momento é um diálogo forte entre Marcus e sua mãe (Linda Emond) em uma cafeteria.

Logan Lerman surpreende com uma atuação contida, mas ao mesmo tempo intensa, como se algo no mundo o incomodasse tanto que ele fosse explodir a qualquer momento. Sarah Gadon mais uma vez é retratada com mais destaque para sua beleza ‘clássica’ indiscutível do que em termos de personagem, mas Olívia também tem suas camadas e a atriz consegue agregar certo valor ao papel. Linda Emond e Tracy Letts aparecem menos, mas são bem competentes em suas atuações. Vale lembrar que um dos produtores do filme é o brasileiro Rodrigo Teixeira (de ‘A Bruxa’). Sendo assim, ‘Indignação’ é um drama de ritmo lento, fiel à essência do material original e que fala do peso das decisões nas nossas vidas. A Guerra da Coréia é retratada como pano de fundo, mas serve apenas para atribuir um princípio ‘moral’ ao desfecho da trama. Tecnicamente é um filme muito bem feito, que visualmente recria de maneira elegante e plausível a época em que se passa e embora tenha revelações e momentos que podem surpreender o espectador, é mais indicado a quem gosta de um estilo de filme mais paciente, onde não há nenhuma cena visualmente tão impactante, mas a relação entre os personagens e especialmente suas divergências é que tornam a trama interessante.

UM MOMENTO APIMENTADO: O primeiro encontro na sala da direção da universidade entre Marcus e Dean Caldwell, momento de grande tensão para o personagem.