Keeping secrets, are you?“, uma sentença que vai além do universo narrativo, dita pelo personagem de Willem Dafoe, Thomas Wake, e se desdobra para a própria composição empírica de O Farol, um filme de Robert Eggers, diretor de “A Bruxa”. Uma imensidão de significados se esconde na composição imagética e estrutural do longa-metragem, que traz ao público uma genuína obra que demonstra o poder do pós terror ante mentes perturbadas de amantes do audiovisual.

Enquanto uma grande quantidade de filmes convida o público a entrar no universo narrativo e compartilhar de sentimentos e sensações, O Farol vai além: arrasta-o, à força, para uma desconfortante imersão em uma conturbada realidade insólita e destrutiva, onde o sentido por si só se mantém instável e gradual. A obra se utiliza de uma desesperadora angústia para afastar quaisquer noções básicas de entendimento tanto dos personagens quanto do espectador, sem a promessa de, sequer, trazê-las de volta.

O terror apresentado, felizmente, vai muito além do uso de jump-scares, estes sendo deixados de lado em uma composição mais significativa do que simples sustos pontuais. O diretor do longa, Robert Eggers, deixa claro que um conjunto de sustos não compõem o medo, muito menos o horror. Em O Farol, os acontecimentos seguem de tal forma em que a própria narrativa, de forma eficiente, já é o bastante para aterrorizar aqueles envoltos psicologicamente com a trama. Atuações, trilha sonora, estética e ritmo se unem, com toques de mitologia e de forma deslumbrante, para criar uma noção que vai muito além do amedrontador: a obra traz uma insanidade crua e pútrida, onde a confusão mental se desvai em uma pós-moderna versão do horror.

O que é apresentado, portanto, é uma obra extremamente poderosa e agressiva, a qual mexe com as percepções do público de forma gradual, tornando uma obra com uma imensidade de significados, ora escondidos, ora realçados. Enquanto as explícitas visões de fezes, vômito e urina marcam o desconforto corpóreo e o isolamento nas cenas de forma simbólica, a própria figura do farol, por exemplo, é fortemente relacionada a um falo – em outras palavras, um pênis ereto –, guiando uma narrativa forte sobre a masculinidade de dois homens que, de forma brutal, vivem isolados dentro desta figura tão representativa.

Diferente de “A Bruxa”, que foca no corpo feminino e em sua liberdade, O Farol apresenta seu enfoque na figura dos homens. Com uma feroz visão do corpo masculino, o filme ressalta um limite corpóreo onde, a partir do isolamento, se vêm obrigados a ter uma relação carnal, seja com uma figura mística ou com o próprio farol, referenciado pelo personagem de Dafoe como “ela”.

É inegável que, entre os dois personagens, há uma certa química que antagoniza com a guerra constantemente travada por ambos: a dominação e a submissão se tornam armas para se provar, diante de inegáveis visões de masculinidade tóxica, o lugar de cada um dentro daquele falo ereto. Thomas Wake se mantém o elemento superior naquela locação, sendo o único a poder subir até o topo do farol, obrigando Winslow, personagem de Pattinson, a fazer todos os afazeres considerados femininos naquele local, a fim de provar seu poder e dominância. Wake o prova com tamanha constância que, para o público, fica claro que Winslow, a qualquer momento, irá perder o controle e se revoltar contra o companheiro – e este é um dos momentos mais aguardados pelo espectador, que em determinado ponto está tão farto quanto o personagem.

O Farol, por seu terror devastador e sua angústia irreal, claramente se prova uma obra única para os amantes de audiovisual, e sua composição estética antiga, apresentada em PB com tela 1:19:1, certamente agrega no produto final. Seria possível discorrer, sobre a obra, durante incontáveis páginas de pensamentos, comentários e reflexões, porém acaba se tornando um filme que vai muito além de palavras e descrições: é preciso presenciá-lo, em sua total experiência, para entender sua magnitude mental e psicológica, preferencialmente em uma grande sala escura de cinema – pois assisti-lo em um celular durante uma viagem de metrô, por exemplo, seria abandonar toda a imersão necessária à trama, arruinando uma fascinante experiência audiovisual.

Por fim, a obra dirigida por Robert Eggers é uma noção marcante de terror pós-moderno, fazendo com que um conjunto de queixos caídos do público marque a total desorientação de uma história guiada a partir da angústia, solidão e desespero de seus personagens. O Farol, assim, é grandioso em sua proposta e certamente não é um filme para todo mundo, mas para aqueles que decidirem se imergir nesta obra, lhes aguarda uma noção de desespero fílmico não tão comum no audiovisual – muito além de meros sustos, a agonia presente leva o espectador para um abatimento mental e psicológico que desmorona sua percepção de tudo o que lhe é apresentado.