Quase 17 milhões de pessoas, entre soldados e civis, perderam suas vidas ao decorrer da Primeira Guerra Mundial. Um conflito inimaginável que, durante seus quatro anos – 1914 a 1918 –, conseguiu chocar o mundo por sua tamanha repercussão, colocou duas grandes alianças internacionais para lutar em uma aversão que mudaria, para sempre, os rumos da História humana. Em meio à carnificina, ódio e destruição por muito tempo enfreáveis, este é o cenário de 1917, longa-metragem dirigido por Sam Mendes que prometeu um grande alarde cinematográfico primeiramente pela sua proposta intimista e contínua.

Intimista por acompanhar em tempo real a jornada de seus protagonistas e contínua por optar fazê-lo em grandes planos sequências, 1917 conta a história de Blake e Schofield, dois soldados que são encarregados de chegar até uma tropa aliada, a fim de entregar uma mensagem que a salvará de uma armadilha. Basicamente, se torna claro que o grande uso destes planos sequências, os quais se unem em duas grandes linearidades que compõem todo o longa-metragem, são essenciais para o que foi proposto no filme: quase sem cortes visíveis, a obra de Sam Mendes destaca-se, primeiramente, pela grande ousadia.

Assim, é evidente que tal modelo de narrativa compõe um desenvolvimento extremamente difícil de ser realizado – se a sétima arte já é trabalhosa por si só, quem dirá uma obra sem quase nenhum corte visível. Mendes, entretanto, entrega um resultado brilhantemente satisfatório onde o espectador é convidado a acompanhar ambos os personagens em sua jornada, imergindo naquela realidade não só em seus momentos belos, como também em seus horrores viscerais.

Tanto Dean Charles Chapman – antes conhecido por interpretar o criticado Tommen Baratheon, em “Game of Thrones” –, quanto George Mackay, de “Capitão Fantástico”, conquistam o espectador logo no início da trama, fazendo com que a empatia do público com os dois jovens soldados cresça a cada novo desafio em sua jornada. O público é convidado a compartilhar dos sentimentos de seus protagonistas, rindo quando estes riem, se aliviando nas poucas oportunidades de descanso, e também temendo por eles a cada novo cenário destroçado que encontram pelo caminho, onde o inimigo pode estar à espreita. Assim, ambos os jovens atores conseguem levar facilmente o tão grandioso filme nas costas, com personagens que demarcam, em suas ações e diálogos, os temores e traumas vindouros de todo o tempo que passam – e passaram – na guerra.

Não só a continuidade possível pelos planos sequências, 1917 apresenta outros componentes narrativos que agregam bastante à obra como um todo. Destaca-se a direção de arte e a sonorização, que levam o olhar e a audição do espectador adentro daquela entorpecida realidade. Inicialmente, o impecável trabalho com os cenários – tanto as trincheiras quanto os destroços do que um dia foi o lar de alguém – trazem uma significativa imersão imagética na destruição causada pelo conflito; cada unidade das centenas de soldados espalhados pelas trincheiras, com suas faces exaustas, amarguradas e sem esperança, trazem uma visão grotesca da dura realidade daqueles homens usados apenas como peões em um jogo desumano e mortal.

Em diversos momentos, um amontoado de corpos sem vida se juntam ao cenário como simples objetos de cena, mas com infindáveis significados: a morte ali prevalece como um elemento comum como qualquer outro – ali se pode ver um pouco de grama, algumas belas árvores e, ah, alguns corpos destroçados de quem um dia achou que voltaria pra casa. Assim, sem medo de demonstrar a realidade de forma crua e, mais do que isso, brutal, a direção de arte coloca o espectador para vivenciar o sofrimento daquele mundo, daquelas pessoas que compõem a cena e, mais do que isso, daqueles que um dia realmente passaram pela guerra, anos atrás.

A sonorização também completa a obra que, com arte e fotografia impecáveis, reproduz artisticamente as angústias e terrores da Primeira Guerra ao espectador. Os extremamente altos barulhos de tiro, explosões e gritos de desespero, mixados com cuidado e, de certa forma, elegância, faz com que o mundo pareça estar desabando em pleno caos – algo um tanto literal em determinada cena do longa-metragem.

1917, portanto, se prova uma obra-prima onde o pesar, a morte e o medo guiam a narrativa de forma intimista e, acima de tudo, genial, apresentando uma visão conturbada, mas realista, do que a guerra pode ser – e sempre é. Contrasta, em sua totalidade, a beleza do mundo com a capacidade destrutiva do ser humano; leva o espectador a refletir acerca de tais eventos que, querendo ou não, marcam o passado, presente e futuro das relações humanas como um todo, pois, mesmo que tais pessoas e corpos sejam apenas atores e objetos de cena, a guerra foi real, e tais elementos representam algo que, de fato, aconteceu. Deslumbrante, mas brutal, Sam Mendes pega uma história que seu avô lhe contava e transforma em uma obra que certamente marcará a sétima arte, indo muito além de um mero filme de guerra hollywoodiano para representar seus impactos em pessoas que, após presenciarem tais horrores inimagináveis, nunca mais serão as mesmas.